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Não me arrependo de nada do que fiz
ANA PAULA RIBEIRO Folha Online O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, estava acompanhado dos ministros Marcio Thomaz Bastos (Justiça), Celso Amorim (Relações Exteriores) e deputados da base aliada no anúncio de sua saída da Casa Civil. Dirceu anunciou sua saída sorrindo e demonstrou serenidade. Eu não me arrependo de nada do que fiz no governo Lula. Tenho as mãos limpas. O governo Lula é minha paixão, é minha vida. Continuo no governo como deputado da base de sustentação do governo. Dirceu é a primeira vítima do alto escalão governamental após as denúncias de pagamento de mesada por parte do PT a parlamentares, em troca de apoio. Dirceu entregou a carta de demissão e o presidente Luiz Inácio Inácio Lula da Silva devolveu uma outra, aceitando sua saída. Até que Lula escolha o substituto de Dirceu, a chefia da Casa Civil, suas três subchefias e os órgãos vinculados ficarão por conta de Swedenberger Barbosa, até ontem secretário-executivo de Dirceu. Funcionários de alto escalão da Casa Civil colocaram ontem seus cargos à disposição. A partir de quarta-feira, Dirceu volta para Câmara. Vou mobilizar o PT para dar combate àqueles que querem desestabilizar o governo do presidente Lula. Vou voltar como militante e dirigente do PT, que é a minha vida. Não me considero fora do governo, me considero parte do governo, declarou. Dirceu mencionou a mulher e os filhos, durante sua fala, e lembrou de sua mãe, que segundo ele está preocupada. Com a saída de Dirceu, o presidente Lula deu início a uma nova reforma ministerial. Principal articulador da eleição que deu vitória a Lula nas últimas eleições, Dirceu era considerado o homem mais forte do governo até o ano passado, quando veio à tona denúncias de corrupção envolvendo o ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz. A articulação política, antes uma atribuição de Dirceu, foi passada para o ministro Aldo Rebelo. A situação de Dirceu foi ficando cada vez mais insustentável. Primeiro, teria se desapontado com Lula, que desautorizou suas negociações para a reforma política. Mensalão Recentemente, Dirceu foi novamente alvo de denúncias com as declarações do presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ), sobre a existência do mensalão. Segundo Jefferson, Dirceu estaria envolvido no pagamento de mesadas de R$ 30 mil a parlamentares da base aliada em troca da apoio político. Na última terça-feira, em seu depoimento ao Conselho de Ética, Jefferson pediu a saída do ministro. José Dirceu, se você não sair, vai fazer réu um homem inocente, declarou na ocasião. O petebista afirmou ainda que Dirceu não tem palavra, não cumpre o que promete. Momentos depois de circular a notícia de que José Dirceu estaria deixando a equipe ministerial, Jefferson, seu agora desafeto, foi flagrado abrindo um largo sorriso enquanto falava ao celular dentro de seu apartamento. A foto foi tirada de um prédio que fica localizado em frente ao do petebista. ### Demissão abre espaço para novas mudanças ministeriais A saída do ministro José Dirceu da Casa Civil marca a terceira mudança na equipe que chegou ao Planalto com o presidente Lula. A mexida pode se ampliar com a possibilidade de afastamento dos ministros parlamentares Aldo Rebelo, Eduardo Campos e Ricardo Berzoini, que voltariam ao Congresso, seguindo os passos de Dirceu. Em janeiro de 2004, em uma tarefa que descreveu como dolorosa mas também necessária Lula promoveu ampla reforma, com a saída de dez nomes de primeiro escalão. Meses depois, a reforma ministerial voltou a ser assunto em voga, com rumores de que o PP - mais poderoso após a entrada de Severino Cavalcanti (PE) na presidência da Câmara - seria contemplado com um lugar. Outro partido que ganharia mais poder seria o PMDB, que levaria mais uma pasta e um ministério com mais dinheiro. Além desses partidos aliados, o PT também brigava por mudanças. Um grupo de deputados que apoiava o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) queria emplacar seu nome para o posto de Aldo Rebelo (PCdoB) na Coordenação Política. Como encontrou dificuldades, propôs então sua ida para o Ministério das Cidades, pasta que o Lula afirmara estar fora do alcance dos aliados políticos. Os petistas também tentaram fortalecer outro movimento que, no caminho inverso da reforma, incluiria mais nomes do PT ao grupo de assessores de Lula: a ida do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) para o Ministério do Planejamento, ocupado interinamente pelo técnico Nelson Machado, após a ida de Guido Mantega para o BNDES. As mudanças feitas em março, no entanto, foram surpreendentemente pequenas. O deputado federal Paulo Bernardo (PT-PR) assumiu a pasta do Planejamento, Orçamento e Gestão, no lugar de Guido Mantega, que foi para o BNDES, no lugar de Carlos Lessa. O senador Amir Lando (PMDB-RO), então ministro da Previdência Social, foi substituído pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR). Para o PMDB, nada do terceiro ministério desejado, nem de pasta milionária. Já o PP ficou de mãos abanando, por culpa de declarações desastradas de Severino, que sustentava ter forte influência no governo.