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Renilda: Dirceu sabia de empréstimos
Fernanda Krakovics Chico de Góis Leila Suwwan Folhapress Apesar de afirmar por diversas vezes que é uma dona de casa que se dedica apenas a cuidar dos filhos e que não tinha conhecimento do que se passava nas agências SMP&B e DNA Propaganda, das quais é sócia, Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza afirmou que o deputado José Dirceu (PT-SP) negociou os supostos empréstimos feitos pelas empresas ao PT. Com isso, a mulher do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do mensalão, implicou diretamente o ex-chefe da Casa Civil no caso. Dirceu nega a versão. Afirmou que seu marido concordou com os empréstimos bancários a pedido do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares por temer represálias nos contratos que já mantinha com estatais. Sem que lhe fosse perguntado, declarou detalhadamente que José Dirceu sabia dos empréstimos e, inclusive, participou de uma reunião com a direção do Banco Rural no hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte. Além disso, revelou que o ex-ministro da Casa Civil também teria se encontrado com diretores do BMG, em Brasília, para acertar o pagamento dos empréstimos. O depoimento de Renilda começou às 11h25 e acabou às 19h50 quando o presidente da CPI, Delcídio Amaral (PT-MS) encerrou a sessão devido à uma das crises de choro da mulher de Valério. Ela, que havia chorado diversas vezes, foi aos prantos depois de uma intervenção do deputado Moroni Torgan (PFL-CE) na qual ele apelava para que ela falasse a verdade sob pena de manchar a história de sua família. A exemplo de outros depoentes, Renilda poupou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disse que seu marido não o conhece pessoalmente. Para os parlamentares, tanto da oposição quanto da base de apoio do governo, ela estava ensaiada para responder às perguntas sempre com os mesmos argumentos. Ela veio muito bem preparada para entregar o nome de Dirceu e dos sócios, tirando a culpa única do marido, disse o senador César Borges (PFL-BA). A deputada Juíza Denise Frossard (PPS-RJ), questionou Renilda sobre a veracidade de suas informações. Seu depoimento parece verdadeiro, mas não é, disse a deputada. É impressionante que a senhora e seu sócio, que é seu marido, não conversassem sobre as empresas. À noite, na cama, o casal conversa. A senhora não perguntava como haviam comprado tudo isso?. ### Crises de choro marcam depoimento Parlamentares da CPI dos Correios tentaram convencer Renilda Santiago a entregar o próprio marido, o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, apelando para o seu lado mãe e para o seu lado mulher. A estratégia não surtiu efeito. A senhora só se libertará e libertará seus filhos quando toda a verdade aparecer, disse o deputado Antônio Carlos Magalhães Netto (PFL-BA). Não é fácil para uma mãe estar aí, pensando se seus filhos estão assistindo, afirmou a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). Chegou-se a oferecer à depoente que a sessão passasse a ser fechada para que ela pudesse fazer revelações, mas ela ficou impassível. A verdade que eu tenho a declarar estou declarando aqui na frente de todos, afirmou Renilda ao deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS). Ela chorou pela primeira vez ao ser pressionada pelo senador César Borges (PFL-BA), duas horas e meia depois do início da sessão. O raciocínio do senador era que não seria possível ela não saber dos negócios de Valério e que, nesse caso, ela teria sido vítima dele. Eu estava com depressão, não saía do quarto, então não ficava perguntando as coisas que via na televisão, disse ela, interrompendo a frase com o primeiro acesso de choro. O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), suspendeu a sessão por meia hora. O segundo ataque de choro veio ao reclamar da falta de privacidade e de segurança decorrente da exposição pública da família. Na terceira vez, depois de um embate com o deputado Alberto Fraga (PTB-SP), ela teve de sair da sala. Contrariada com a agressividade do deputado, ela reclamou que suas perguntas eram repetitivas. A senhora está indócil com o meu pronunciamento, disse ele. Choro O depoimento foi encerrado com o questionamento do deputado Moroni Torgan (PFL-CE) que chegou a intimidá-la e pedir que virasse a mesa. Ele fez um apelo à mãe Renilda em nome da história que vai deixar para seus filhos. Essa é sua chance de virar a mesa, disse. Renilda chorou novamente pela quinta e última vez. Depois disso, Delcídio Amaral encerrou a sessão, restando ainda dois inscritos para fazer perguntas. Renilda, que viu recusado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de liminar que a dispensasse de ficar calada, aparentou calma, exceto nos momentos em que chorou ao falar de sua família - Valério e dois filhos. Os integrantes da CPI decidiram ouvi-la como investigada, dispensando-a de assinar termo de dizer a verdade e permitindo, se assim desejasse, que ficasse em silêncio para não se comprometer com declarações que pudessem autoincriminá-la. ### Dirceu já admite ter mandato cassado O ex-ministro José Dirceu negou ontem ter tratado de empréstimos ao PT com diretores dos bancos Rural e BMG. Em nota, ele admitiu ter se encontrado com os representantes das instituições durante o período em que ocupou a Casa Civil, mas não informou onde foram essas conversas nem os motivos do encontro. Sobre as declarações da senhora Renilda de Souza no depoimento prestado hoje (ontem) à CPI dos Correios, informo que estive com diretores dos bancos Rural e BMG em ocasiões diferentes -e por solicitação das entidades- durante o período em que estive na chefia da Casa Civil da Presidência da República. Em nenhum momento tratei sobre empréstimos ao PT, diz a íntegra da nota, assinada pelo agora deputado federal. A lacônica nota divulgada no final da tarde omitiu a referência ao local das reuniões. Informado das revelações feitas por Renilda no final da manhã de ontem, de que teria havido uma reunião em um hotel de Belo Horizonte, Dirceu disse a assessores que não se lembrava do encontro. O que a assessoria do deputado confirmou foi que realmente encontrou-se com representantes do Rural e do BMG, uma delas no seu gabinete na Casa Civil, no quarto andar do Palácio do Planalto. Teriam sido conversas sobre a conjuntura econômica, conforme inúmeras outras de que Dirceu teria participado. Apesar de tentar demonstrar publicamente tranquilidade, o ex-ministro está preocupado. Piorou, piorou, afirmou ontem um amigo dele. Nas últimas semanas, Dirceu tem admitido que poderá ser cassado. Diz que, se isso ocorrer, seria pelo que ele simboliza. Seria uma cassação política, unicamente, afirma, em conversas reservadas. Seu argumento é de que não apareceu nenhuma prova material de seu envolvimento no esquema de Valério, ao contrário do que sucedeu com outros petistas, como João Paulo (SP) e Paulo Rocha (PA). Não tem uma retirada, um depósito, um assessor meu envolvido, nada, afirma Dirceu. BANCO RURAL CONFIRMA O Banco Rural confirmou ontem, por meio de sua assessoria, a realização de um jantar no hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte, com a presença de diretores do banco e do ex-ministro da Casa Civil, deputado federal José Dirceu (PT). Segundo a assessoria, o encontro foi uma solicitação do banco e teve como único objetivo discutir a liqüidação do Banco Mercantil de Pernambuco. Renilda citou outra reunião de Dirceu, em Brasília, dessa vez com a direção do BMG (Banco de Minas Gerais), que também teria tido como pauta empréstimos contraídos pelo marido no banco para o PT. O BMG não confirmou a informação.