Nacional
Dirceu nega ser chefe da quadrilha
Ranier Bragon Fábio Zanini Chico de Gois Silvio Navarro Folhapress Brasília - Quarenta e sete dias depois de anunciar a saída do governo devido ao envolvimento do seu nome no escândalo do mensalão, o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) negou ontem ser o chefe da quadrilha, admitiu que setores da direção do PT cometeram erros na campanha de 2004, mas disse que não assumirá responsabilidades por eles. Em vários momentos do depoimento, afirmou que não renunciará ao mandato de deputado nem aceitará ser banido da vida política do País de novo. Prefiro ficar sem os direitos políticos se for o caso, ainda que eu considere uma cassação política, (...) do que renunciar para ter uma falsa sobrevida política. Não vou renunciar, vou travar mais essa luta na minha vida, talvez a mais importante da minha vida, afirmou Dirceu. Se cassado, o ex-ministro ficará inelegível até 2015. Se renunciasse, poderia se candidatar novamente no ano que vem. Como era esperado, Dirceu trocou acusações com o presidente licenciado do PTB e autor das denúncias sobre o mensalão, Roberto Jefferson, que cumpriu sua promessa e ocupou uma cadeira na primeira fila da sala do Conselho de Ética da Câmara, local do depoimento do ex-ministro. O conselho analisa processo movido pelo PL contra Jefferson por suposta quebra de decoro parlamentar. A sessão de ontem lotou a sala reservada ao depoimento. Cerca de 80 deputados, jornalistas, assessores e curiosos se apertaram para ouvir o primeiro pronunciamento oficial de Dirceu sobre o episódio. O depoimento teve início às 15h12 e, segundo o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar, deveria acabar antes das 23h de ontem. Ao contrário do que havia dito reservadamente à Corregedoria da Câmara, Dirceu não negou a existência do mensalão, mas disse que não tem responsabilidade pelo esquema, caso ele exista. Não posso ser prejulgado, transformado, como fez [sic] o deputado Roberto Jefferson, no chefe de quadrilha ou no chefe do maior esquema de corrupção no país, ou no articulador, organizador do mensalão?, afirmou. À Corregedoria, dissera: O mensalão? não é fato. ### PTB pede cassação de Dirceu e Mabel Minutos antes do início do depoimento de José Dirceu ao Conselho de Ética da Câmara, o presidente do PTB, Flávio Martinez, apresentou ontem representações pedindo a cassação dos mandatos do ex-ministro, do presidente do PL, Valdemar Costa Neto (SP), e do líder do PL na Casa, Sandro Mabel (GO). As três representações alegam quebra de decoro parlamentar e serão analisadas pelo Conselho, que decidirá se abre ou não processo contra os deputados. Caso a comissão decida pela abertura dos processos, os deputados não poderão mais renunciar aos mandatos, correndo o risco de perderem os direitos políticos se cassados. No caso de Costa Neto, que anunciou na segunda sua renúncia ao mandato, a medida deverá ser invalidada, segundo o presidente do Conselho, Ricardo Izar (PTB-SP). Na representação contra o ex-ministro, o PTB acusa Dirceu de fraudar o regular encaminhamento dos trabalhos no Legislativo. O presidente do PTB, irmão do ex-deputado José Carlos Martinez [morto em 2003], afirmou que também apresentará requerimentos similares, até o final da semana, contra o líder do PP na Casa, José Janene (PR), e o ex-líder da sigla Pedro Henry (MT). Ambos são acusados pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de envolvimento no escândalo do mensalão. acordo Martinez rechaçou a versão de que o PTB teria adiado as representações contra o PP devido a uma possibilidade de acordo, chancelada pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), para tentar evitar cassações de mandatos. Eu sou o presidente do partido e estava fora do País. Foi só isso, não vamos passar falsa impressão das coisas. Não ficou pronta [a representação] antes por falta de tempo hábil, disse. Durante a semana se falava em pizza, então acabamos como o pizzaiolo?, afirmou. A articulação do PTB para tentar levar um grupo de deputados, incluindo Dirceu, ao Conselho vinha sendo anunciada desde a semana passada, mas acabou sendo apresentada na data do depoimento do ex-ministro. Martinez negou, entretanto, se tratar de uma tática para pressionar Dirceu. Convocação da CPI A CPI dos Correios aprovou ontem a convocação do ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) e do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. Mas ainda não há data marcada para os depoimentos. Hoje a CPI ouve os dois maiores sacadores identificados até agora das contas das empresas do publicitário Marcos Valério de Souza: a diretora financeira da SMP&B Simone Vasconcelos e o policial David Rodrigues Alves. ### Jefferson ironiza afirmações de Dirceu Na primeira vez que ficaram frente a frente desde o início da maior crise política dos últimos dez anos, os deputados Roberto Jefferson (PTB-RJ) e José Dirceu (PT-SP) trocaram insultos, ironias e acusações, em um duelo de quase uma hora de duração. Jefferson e Dirceu contradisseram-se em pelo menos uma dezena de ocasiões, principalmente quanto ao papel exercido pelo ex-ministro da Casa Civil no governo. Enquanto Dirceu, na condição de depoente no Conselho de Ética da Câmara, procurou minimizar sua influência no governo e no PT - e, por conseguinte, nas relações com o empresário Marcos Valério de Souza - o petebista, em tom agressivo e irônico, afirmou que o petista tinha pleno conhecimento de todo o suposto esquema. Ele procurou constranger Dirceu citando diversos acordos políticos e eleitorais entre PTB e PT que teriam tido a anuência do ex-ministro. O acordo da Bahia foi fechado na Casa Civil. O acordo de Goiás, o acordo de São Paulo, o acordo do Paraná, que envolvia a nomeação em Itaipu [empresa elétrica], foi fechado na Casa Civil, afirmou. Foi uma espécie de acareação informal. Cada vez que era questionado por deputados se confirmava alguma acusação de Jefferson, Dirceu respondia com um sonoro Não!. Sua linha de defesa - apesar de, teoricamente, estar depondo como testemunha, não acusado - foi a de dizer que o deputado do PTB prevaricou ao não denunciar o suposto mensalão já que teve conhecimento do esquema. Não chegou a haver um debate direto entre os dois, mas quatro discursos intercalados. Primeiro, Jefferson, em uma intervenção de 35 minutos, no que foi seguido por Dirceu por cerca de 20 minutos e por uma curta réplica do petebista. Foi um confronto rico em gestos e ironias, a ponto de Dirceu, em determinado momento, ironizar o ar teatral de seu adversário. Em um dos momentos de maior ironia, Jefferson afirmou que tinha medo de Dirceu, mas não do mesmo modo que outras pessoas. Vossa excelência amedronta as pessoas. Eu, não. Mas tenho medo, confesso em público, porque Vossa Excelência provoca em mim os instintos mais primitivos e tenho medo da consequência dessas provocações. Até Dirceu riu nessa hora.