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O modelo partidário do PT é muito precário

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| ODILON RIOS Repórter Ex-vendedor ambulante na ditadura militar em Alagoas, para escapar do regime, hoje vice-prefeito de Recife, o médico Luciano Siqueira participou quinta-feira de um evento do PCdoB em Alagoas e falou com a Gazeta sobre seu futuro político, o governo Lula, a candidatura de Aldo Rebelo e explicou por que o partido ainda continua aliado do governador Ronaldo Lessa (PDT), que é de uma legenda de oposição ao presidente. Gazeta - Uma articulação do Palácio do Planalto colocou o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) na disputa pela presidência da Câmara. Ele vai resolver a divisão interna do PT para a vaga? LUCIANO SIQUEIRA - A hipótese de Aldo assumir a presidência da Câmara é menos uma articulação do Planalto e mais o sentimento de um conjunto de parlamentares de diversos partidos, tanto no lado da oposição como da situação. Na oposição também? Acho que todos admitem essa possibilidade. Aldo é um dos nomes cogitados. Se vier a assumir a presidência da Câmara, não é que ele vá resolver os problemas, mas pela experiência acumulada e prestígio reconhecido, é provável que ele contribua muito para restabelecer o ambiente de trabalho na Câmara. Pesa contra Aldo o fato de ele ser ligado ao Palácio do Planalto, especialmente quando foi convocado para defender o ex-ministro José Dirceu na Câmara. O sr. concorda com essa idéia? Esse tipo de argumento me parece frágil porque o fato de Aldo ser próximo do Planalto é natural, pois ele pertence a um partido da base governista. Isso não impede que, se vier a ser presidente da Casa, não venha a exercer o cargo com isenção e visão larga. Quanto ao depoimento que prestou, ele foi solicitado pelo ex-ministro, com o ex-ministro Eduardo Campos, e ambos se pronunciaram em termos elevados. Isso não significa nenhum tipo de comprometimento. O PCdoB então defende o ex-ministro Dirceu? Não se trata de defender ou acusar. O PCdoB sempre considerou que Dirceu era um dos ministros mais importantes do governo, do ponto de vista político. O próprio Aldo Rebelo declarou, no seu depoimento, que considera que José Dirceu é mais acusado pelas suas virtudes que pelos seus defeitos. Nós observamos o papel que ele cumpria na luta para flexibilizar a política macroeconômica e ajudar o presidente da República a encontrar o caminho de retomada do desenvolvimento econômico em bases soberanas. Quanto às acusações que pesam contra o ex-ministro, a própria Câmara está investigando. Aldo foi fritado por petistas, antes de deixar o Ministério da Coordenação Política, e parece que o PCdoB não se posicionou neste assunto. Como fica isso? O que houve foi um desencontro de concepções, entre Aldo e alguns outros ministros próximos do presidente. Mas isso no terreno estritamente político, sem nada no campo pessoal, e jamais o PCdoB considerou que o ex-ministro Aldo estivesse desprestigiado. O presidente solicitou insistentemente que ele permanecesse no cargo. O sr. falou em desencontros. Um deles foi com o ex-ministro Dirceu? Isso é público. Com o ex-ministro Dirceu e outros havia discordâncias. O ministro Aldo Rebelo sempre defendeu, e essa é a posição do nosso partido, que o presidente da República, durante a reforma ministerial, convertesse o governo em coalizão, para expressar uma tentativa de mobilizar a vontade nacional, em torno de uma pauta de retomada do desenvolvimento econômico do País em bases soberanas e democráticas. O PT não pensava assim, optava por um governo ocupado quase que exclusivamente por membros do partido. Essa foi uma divergência, mas estritamente política. Nosso partido sempre foi solidário ao Aldo Rebelo. Não há uma divisão nacional no PCdoB em relação ao governo Lula? Não, não há. Estamos em processo de congresso, há debates, opiniões diferenciadas sobre este ou aquele aspecto, mas estamos em vias de concluir tudo isso num ambiente de muita unidade. O que existe são opiniões críticas do nosso partido a certos aspectos do governo Lula. Por exemplo? Discordamos de parte do conteúdo essencial da reforma previdenciária. Recentemente, em uma reunião das direções nacionais do PCdoB e PSB com o presidente Lula, o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, reiterou a nossa opinião crítica em relação ao conteúdo da política macroeconômica. Achamos que essa equação que subordina a estabilidade financeira ao controle inflacionário, ou seja, as taxas de inflação como vetor da política econômica, deveriam ser substituídas por índices de crescimento, com elevação do padrão da produção e ampliação de emprego. Temos externado isso ao presidente. Um dos medos do Palácio do Planalto é que se eleja um presidente da Câmara capaz de levar adiante um processo de impeachment. O governo Lula perdeu o controle sobre o Legislativo? Não creio que esse seja o receio do Planalto. Desde que essa hipótese foi ventilada, não passou de jogo de cena. Não há nenhum elemento concreto que pudesse desencadear um processo de impeachment contra o presidente da República. O PFL e o PSDB, quando aventam essa possibilidade, fazem isso para desgastar a imagem do presidente da República. Não é que o Planalto tenha perdido o controle da base parlamentar. Houve, sim, um esgarçamento dessa base parlamentar, que está em um processo de reconstrução. Pesquisas revelam queda do índice de popularidade do governo Lula. O presidente não deveria desistir da disputa à Presidência da República, ano que vem? Se ele vai sair ou não candidato, isso será uma avaliação a ser feita no ano que vem. Agora, o que notamos nessa série de pesquisas, inclusive no Ibope, é a força impressionante do presidente da República junto à população. Mas os índices de popularidade do presidente estão caindo. Era inevitável que caíssem por causa da crise política, pelo ataque cerrado da oposição, que não é mais PFL-PSDB, mas também PDT, PPS, parte do PV, PSTU, P-SOL. Então, todos estes partidos são farinha do mesmo saco? Não digo isso, são diferentes entre si, porém se uniram, tendo como objetivo desgastar, enfraquecer o presidente Lula, até, quem sabe, impedir que ele se candidate à reeleição. Apesar desse fogo cruzado e do evidente desgaste do PT, partido do presidente da República, os índices de aprovação revelam uma força popular considerável. Mas o próprio vice-presidente da República, José Alencar (sem partido), saiu do PL e negocia com o PMDB. Não é uma maneira educada de lavar as mãos, em relação ao governo Lula? Não creio. Valorizo mais a discordância que ele manifestou em relação a uma tendência, naquela ocasião, no partido. Sentiu-se desconfortável, pediu desfiliação. E a hipótese de ele se filiar ao PMDB me parece positiva, porque é um grande partido de centro, acomoda setores mais inclinados a apoiar o governo, como o próprio presidente do Senado, Renan Calheiros. De modo que, se o vice entrar no PMDB, pode até reforçar, como aliado do governo, essa tentativa de superar essa crise política. O ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi o maior erro no governo Lula? A eleição do deputado não é responsabilidade do governo, mas se deveu fundamentalmente à divisão do PT. Se o PT tivesse se apresentado unido, prevaleceria a tradição da Casa. Nesta disputa para a presidência da Câmara, o PT também não se uniu. Por que tantas divisões? É regra de ouro não nos metermos em outros partidos. Mas, de fora, ficamos com a impressão de que esse modelo de partido constituído por correntes organizadas, independentes entre si, é um modelo muito precário. Durante a ditadura militar, o sr. chegou a trocar de nome e a morar em Alagoas. Como foi essa história? Em 1970, vim de Recife com minha mulher, porque fui cassado na Faculdade de Medicina, e, em seguida, constava na lista das pessoas procuradas. Fugimos, ela e eu adotamos nomes falsos e casamos no civil em um cartório perto do Vergel do Largo, e depois rasgamos a certidão de nascimento. A partir dali, tiramos toda a documentação. Depois de vivermos em outros lugares, ficamos um tempo em Maceió e outro em Santana do Ipanema, quando fomos presos. Durante quatro anos, sobrevivemos no Nordeste como vendedores ambulantes, até sermos presos em abril de 1974. Alagoas ainda ostenta índices sociais preocupantes, a predominância da monocultura... Isso é lamentável, não só em Alagoas mas no conjunto do País, porque o Brasil, do início dos anos 30 até meados dos anos 70, ostentou taxas de crescimento econômico das mais elevadas do mundo. No entanto, o bolo era ultraconcentrador de toda a riqueza e produção. De meados dos anos 70 em diante, com a adoção das políticas neoliberais, essa distorção se agravou mais ainda, de tal maneira que crescemos, nos tornamos desenvolvidos em alguns aspectos, mas os índices de concentração de renda são os maiores do mundo, e os de desenvolvimento social muito precários. Alagoas se inclui nesta equação. O PCdoB é aliado em Alagoas do governador Ronaldo Lessa (PDT), filiado a um partido de oposição ao presidente da República, com Lessa quase rachando com o presidente. Como entender isso? É fácil, se considerarmos dois fatores: somos um País de dimensões continentais, uma diversidade regional acentuada, e, por outro lado, os partidos políticos no Brasil são muito frágeis. São mais conjunturais que partidos duradouros. Isso é histórico. Os partidos são influenciados pelas realidades locais. Qual o futuro político do senhor? Continuar militante do PCdoB. Candidato a prefeito? Não, é muito chão pela frente. Assumimos agora em janeiro. Ventila-se a hipótese do prefeito de Recife, João Paulo (PT), se o partido substituir o nome na disputa ao governo, o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, um dos nomes é o de João Paulo. É uma hipótese. ### QUEM É Nome: Luciano Roberto de Siqueira Idade: 59 anos Cargo: Vice-prefeito de Recife Partido: PCdoB Formação: Médico pediatra Hobby: Meu vício é ler

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