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Reféns de um seqüestro e de um trauma
| Agência O Globo Após o fim do seqüestro que durou 41 dias, a dona-de-casa Marina de Souza, mãe do craque de futebol Robinho, ainda vive presa ao drama que abalou sua vida. Como se estivesse condenada a passar o resto da vida em cárcere privado, ela quase nunca saia de casa quando estava no Brasil, antes do filho ir jogar no Real Madrid, na Espanha. Aconselhada pela polícia e pela família, raramente saia às ruas - e, quando isso acontecia, não dispensava a companhia de seguranças. Segundo um dos porteiros do prédio onde ela morava, dona Marina tinha uma vida social restrita até mesmo em casa, onde normalmente ficava acompanhada do marido Gilvan e de outros familiares mais próximos. A vida dela era dentro desse apartamento, onde recebia poucas visitas. Antes do seqüestro, ela recebia muitas amigas, mas agora pouca gente estranha vem aqui. Acho que a família ainda vive com medo, revela o funcionário. Até mesmo os afazeres mais simples do dia-a-dia ficaram complicados para dona Marina, que deixou até de ir à padaria em frente ao prédio. ### Vítimas mudaram totalmente de vida para fugir do medo Marina só quebrava a rotina extremamente controlada quando viajava para fora da cidade. Há alguns meses, sem chamar a atenção de ninguém, refugiou-se na casa de familiares, em um estado do Nordeste. Os amigos lembram que, antes de ser seqüestrada, enquanto preparava um churrasco em uma casa no município de Praia Grande, Marina tinha uma vida social intensa. Extrovertida e alegre, parava pouco tempo em casa e promovia muitas festas. Também não recusava convites para dar entrevistas, especialmente para a televisão. Pela origem humilde e pelos hábitos simples que conservava mesmo após a fama do filho, tinha a falsa sensação de que não corria riscos. Desde que foi libertada, na periferia de São Paulo, a mãe de Robinho tem evitado conversar com a imprensa, por orientação da polícia e da família, raramente é vista em público. Numa tarde de sol, Marina saiu na sacada de seu apartamento para fumar e foi fotografada. Pelo olhar perdido no horizonte, parecia procurar um jeito de se livrar desse longo pesadelo. As constantes lembranças das 66 horas que passou nas mãos de seqüestradores levaram a dona-de-casa Inês Fidelis Régis, de 58 anos, mãe do jogador Rogério, do Sporting de Portugal, a até mudar de cidade. Ela abandonou a casa confortável do Jardim São Vicente, em Campinas, onde morava há mais de 40 anos, e foi viver num apartamento de um bairro de classe média em São Paulo. Enquanto aqueles homens que estragaram nossa vida estão soltos por aí, nós temos de ficar presas. Isso é revoltante, reclama a filha Regislane Fidelis Régis. A vizinha Conceição Ramos conta que um dos principais motivos que levaram a família do jogador a deixar a cidade foram boatos de que os responsáveis pelo seqüestro de Inês estariam circulando pelo bairro. Algumas pessoas dizem que eles têm passado perto da casa, mas a gente não sabe se é verdade ou mentira. Porém, é melhor prevenir do que lamentar depois. Conceição afirma que chorou quando se despediu da amiga: Ela não queria ir, mas era preciso. Aparentemente, Inês se mostra bem. Acho que a filha parece mais abalada que ela. ### Parentes de seqüestrados também mudam de vida Segundo um sobrinho de dona Inês, sua filha Regislane sente-se insegura. A jovem agora só sai de casa quando precisa e evita andar a pé. Além disso, com a mudança, teve de trancar a matrícula na faculdade e acabou perdendo o ano. Regislane está no terceiro ano de engenharia de computação. A irmã do jogador também teve de se afastar um pouco do noivo, que mora em Campinas. Eles estavam sempre juntos, mas agora só se encontram em fins de semana e ainda quando ele vai a São Paulo, diz o primo. Regislane conta que sua mãe está sofrendo muito. Ela largou tudo o que tinha para começar vida nova, afirma, revoltada. ### Tenho medo de atender à porta Sandra Helena Clemente, de 45 anos, mãe do atacante Luís Fabiano foi seqüestrada em 11 de março, em Campinas, quando chegava à casa da madrasta, a menos de 100 metros de onde morava. Dois homens levaram a dona-de-casa para um cativeiro numa chácara em Mairinque, na região de Sorocaba. Quando deixou o cativeiro, após 62 dias de seqüestro, Sandra não quis nem voltar ao bairro onde morava, no Jardim Proença. A Sandra estava tão assustada naquele dia que não teve coragem nem mesmo de tirar as suas roupas do apartamento. O irmão precisou colocar tudo em uma mala e entregar para ela, conta a madrasta de Sandra, Dirce Peres. Ela afirma que não consegue tirar da cabeça as cenas do seqüestro. Eu estava abrindo o portão para a Sandra quando os bandidos chegaram e a arrastaram para um carro. Fiquei tão nervosa que até passei mal. Até hoje, quando fecho os olhos, as imagens voltam como se fossem filme, relembra Dirce. Por causa do sofrimento durante o período em que a enteada passou no cativeiro, Dirce ficou com muitos traumas. Hoje vivo trancada. Tenho medo, inclusive, de atender à porta. Até a campainha me assusta, revela a avó do jogador Luís Fabiano. Segundo ela, o seqüestro mudou a vida de toda a família. Luan, de 11 anos, filho mais novo de Sandra, acabou perdendo o ano letivo: Ele ficou em casa enquanto Sandra estava seqüestrada e agora a mãe achou melhor mudá-lo da escola porque tem medo que aconteça algo também com o menino. Luan teve de abandonar uma das coisas que mais gostava: a escolinha de futebol. Por enquanto é melhor dar um tempo até que todos voltem a se sentir seguros novamente, diz Dirce. Segundo ela, o neto não pode nem mesmo visitá-la. Sinto muita saudade de todos, porque a gente morava praticamente do lado. Agora, sempre que quero ver meu neto ou a Sandra tenho de ir à casa deles, conta. Sandra, segundo a madrasta, mudou-se para um condomínio e aboliu todos os hábitos antigos. Ela gostava muito de andar pelo bairro, fazer compras e conversar com os amigos. Mas agora mal sai de casa. Vive trancada, lamenta. Segundo Dirce, Sandra afirma que foi bem tratada no cativeiro. Nos três primeiros dias, eles só ofereceram lanche, mas depois a Sandra exigiu comida e um deles ficou lá para cozinhar para ela. Ela comia frango, peixe, macarrão..., conta a vizinha Mafalda Agostinho, que viu Sandra crescer. Todas as manhãs, quando ela vinha tomar café com a madrasta, parava no meu portão para conversar. A última vez que a vi foi quando ela saiu do cativeiro, acrescenta. ### Vizinhos de vítima reforçam segurança O seqüestro de Maria Alice Nazareth, de 62 anos, mãe do jogador Marinho, obrigou até os vizinhos a reforçarem a segurança no conjunto habitacional onde ela mora, no Litoral Sul de São Paulo. Antes, bastava alguém tocar o interfone que qualquer morador abria a porta que dá acesso aos apartamentos. Hoje, eles avisam: Não podemos abrir. A vizinha Silvana Padilha de Moraes diz que os moradores se reuniram e decidiram que nenhum estranho entra mais no prédio. Quando levaram Maria Alice, os seqüestradores disseram que eram funcionários de uma floricultura. Maria Alice não quis se mudar do prédio, onde mora desde que seus filhos eram pequenos, mas, segundo os vizinhos, ela sumiu de lá. A gente só a viu quando ela saiu do cativeiro, conta Silvana. Segundo a vizinha, a mãe de Marinho tem evitado ficar no prédio. Ela viaja para a casa de parentes para tentar esquecer tudo o que passou nas mãos dos seqüestradores - foram 25 dias em cativeiro. Às vezes, nem mesmo o neto sabe onde ela está, conta a vizinha. Amigos de Maria Alice afirmam que a mãe do jogador fazia caminhadas perto da praia todas as manhãs e fins de tarde. Ela sempre sentava com a gente na pracinha, onde ficam vários aposentados, para jogar conversa fora. Infelizmente, até isso os criminosos tiraram dela, lamenta uma amiga de caminhada. Segundo outra conhecida, Maria Alice sempre gostou muito do bairro e deve estar deprimida agora. As janelas do apartamento da família estavam sempre abertas. Mas agora até a cortina permanece fechada. ### Pesadelos perseguem dona Ilma Embora se esforce para dizer que não ficou abalada com o seqüestro do qual foi vítima em fevereiro, a dona-de-casa Ilma de Castro Libânio, de 51 anos, mãe do atacante Grafite, é perseguida até hoje por pesadelos. Outro dia mesmo sonhei que estavam me levando de novo e acordei assustada, conta Ilma. Acostumada com a vida tranqüila e simples do interior, Ilma sempre foi contra manter portas e janelas trancadas. Mas agora a liberdade acabou para ela e a família, que vivem sobressaltados com qualquer movimento diferente. A gente evita deixar o portão destrancado durante o dia e à noite põe cadeado em tudo, diz. Ilma foi obrigada a mudar seus hábitos. Agora também deixou de visitar amigas e de sair a pé. Ela também está pensando em colocar muros altos ao redor de sua casa, apesar de gostar de ver as pessoas na rua. O filho Émerson Castro Libânio - amarrado junto à pia no dia em que a mãe foi seqüestrada - também está preocupado com a segurança e evita andar sozinho. Quando tenho de ir a algum lugar, prefiro sair em turma. É mais seguro, conta Émerson. Ilma afirma que jamais pensou que um dia sua família pudesse ser vítima de seqüestro. A gente sempre viveu com simplicidade, afirma. Dona Ilma diz que por causa do seqüestro anda sempre desconfiada. Tive muita sorte de ficar apenas 26 horas seqüestrada. Mas pareceu uma eternidade, desabafou. Medo Ela conta como foi o seqüestro. Eu tinha acabado de chegar da rua e fui trocar a blusa. Estava saindo do quarto e dei de cara com um deles. O outro veio atrás, com o meu marido e o meu filho dominados. Depois que roubaram um colar, perfume e celular, um deles me disse que eu ia junto com eles. Respondi que não e me virei. Mas ele puxou meu braço, encostou a arma nas minhas costas e me arrastou até o carro. Antes, avisaram que me matariam se a polícia fosse chamada. Também mandaram falar para o Grafite pagar o resgate, conta. Dona Ilma diz que foi ameaçada durante o trajeto até o cativeiro. No carro colocaram um boné no meu rosto e me mandaram deitar no banco de trás. Depois avisaram que, se a Polícia Rodoviária parasse o veículo, eu tinha de dizer que eles estavam me levando ao médico. Mas demorou muito para chegar ao cativeiro. Ela conta que foi levada para uma espécie de chácara. Eles me deixaram num quarto escuro, onde só havia um colchão. Era um sufoco, porque estava muito calor e tinha pernilongo na casa inteira. Achei que iam me matar. Chorava e rezava. Eles até falaram ?tia, fica calma, porque até o final da semana vamos resolver tudo?. Mas não adiantava, relata a dona-de-casa. ### Traumas podem demorar até cinco anos para aparecer O psiquiatra Eduardo Ferreira Santos, coordenador do Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (Gorip), afirma que a maioria das vítimas de seqüestro prefere mudar de casa e às vezes de cidade ou Estado porque a associação entre o local em que o ocorreu o crime e o trauma é imediata. Isso faz com que a pessoa se sinta muito mais vulnerável no lugar onde já lhe aconteceu alguma coisa ruim, explica. Segundo o psiquiatra, os traumas provocados por seqüestros podem demorar até cinco anos para aparecer com mais ou menos intensidade. Isso, diz Ferreira Santos, explica por que a mãe do atacante Grafite, Ilma de Castro Libânio, aparenta calma. Essa mãe que afirma só ter eventuais sonhos com o incidente certamente apresenta outros sintomas, como medo, ansiedade e pensamentos repetitivos, mas todos eles devem permanecer sob um certo controle da atividade consciente e podem ou não um dia vir à tona com toda força, explica o médico. Em relação ao medo que aflige principalmente os familiares mais próximos das vítimas de seqüestro, o médico também tem uma explicação: Na verdade, existe o que se chama de vítima secundária, ou seja, aquelas pessoas que participaram indiretamente do episódio. No crime de seqüestro parece que quem fica fora tem muito mais medos e fantasias do que quem está vivendo a situação, pois a vítima parece ter mais o controle do que está ocorrendo, afirma o médico. A experiência de um seqüestro é igual à vivida por pessoas que moram em países sob a ameaça do terrorismo. A guerra acaba, mas os moradores continuam em alerta, assinala.