Nacional
Cassado, Dirceu diz que agiu por ordem de Lula
| Fábio Zanini e Silvio Navarro Folhapress Brasília - Nas primeiras declarações públicas como apenas o Zé Dirceu, o ex-ministro e agora deputado cassado disse ontem que na Casa Civil sempre agiu por ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e prometeu contar num livro quais foram as limitações e os erros do governo. José Dirceu afirmou que desistiu de lutar no Supremo para reaver o mandato. Também não quer o benefício de uma aposentadoria parlamentar proporcional, após 12 anos de mandato. Tentando passar a imagem de humildade, bem-humorado, pedindo desculpas frequentemente, Dirceu falou ontem por uma hora e quarenta minutos sobre a dor inimaginável de ter perdido o mandato na madrugada de ontem. Apesar disso, não se furtou a dar o recado de que continua vivo na política, procurando dizer que seus erros não foram gerados isoladamente. ### Dirceu diz que Delúbio é honesto FOLHAPRESS Brasília O ex-deputado José Dirceu disse que não cometeu erros sozinho e que eles foram compartilhados com o próprio Lula. Seguramente eu cometi muitos grandes erros para chegar nessa situação. [...] Outros cometi junto com o governo, junto com o presidente, junto com o PT, disse. Dirceu, mesmo assumindo as falhas, mostrou pouco arrependimento na entrevista. Cerrou fileiras em favor do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, um amigo, que, para ele, é honesto. O ex-ministro pontuou sua longa fala com diversas referências auto-depreciativas, radicalizando na tentativa de desfazer a imagem de arrogante e todo-poderoso que contribuiu para sua queda. Ele negou ser o rei da cocada e pediu que sua derrocada não seja dramatizada, uma vez que tem coisa muito mais importante acontecendo no País. Mas também ressurgiram sinais do antigo Dirceu: como quando ele lembrou que prestou concurso público em 1980 para datilógrafo na Assembléia Legislativa paulista, mesmo já sendo José Dirceu. O petista José Dirceu prometeu continuar na militância política. O primeiro compromisso é hoje mesmo, num ato de apoio ao deputado João Paulo (PT-SP), em Osasco. ### Ex-ministro não acompanhou contagem Chico de Gois Folhapress Brasília - A televisão estava desligada quando a sentença foi proferida. Recolhido em seu apartamento logo após o encerramento da votação que lhe definiria o futuro, José Dirceu só soube que seu mandato popular fora cassado quando aliados foram lhe dar um abraço de solidariedade, e não de condolência, como frisou um desses amigos. Na percepção dos fiéis, ele estava sereno e resignado. Afinal, sabia da dificuldade de escapar a um plenário que votava numa cabina protegida por uma cortina que garantia aos eleitores o anonimato. E foi esse anonimato que, na avaliação daqueles que lutaram com Dirceu, lhe causou a queda. Faltaram só 36 votos, lamentava Devanir Ribeiro (PT-SP), um dos que foram abraçar o outrora todo-poderoso petista. A cassação de Dirceu obteve 293 votos; o mínimo necessário eram 257. A votação de ontem só demonstra que as lideranças já não têm muito mais controle sobre os liderados, avaliou outro petista que também foi se avistar com Dirceu e preferiu não se identificar. Dos que foram se solidarizar com José Dirceu, alguns correm o risco Orloff - ser Dirceu amanhã - como João Paulo Cunha (PT-SP) e professor Luizinho (PT-SP).