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Empréstimos a Valério eram fachada
| Fernanda Krakovics Folhapress Brasília - Em depoimento à CPI dos Correios, o ex-superintendente do Banco Rural Carlos Roberto Godinho afirmou ontem que os empréstimos concedidos às empresas do publicitário Marcos Valério de Souza foram de fachada para justificar a entrada de altas quantias em sua conta. Ele afirmou ainda que o Banco Central foi complacente com as supostas irregularidades cometidas pelo Rural nesse episódio. Godinho insinuou que, em troca dos empréstimos de R$ 29 milhões repassados por Valério ao PT, o banco foi beneficiado com aplicações financeiras de fundos de pensão patrocinados por estatais. Ainda de acordo com ele, as empresas do publicitário tinham movimentação de dez a quinze vez maior do que seu faturamento, o que seria um indício de lavagem de dinheiro. No período em que estive no banco fomos agraciados com um caixa muito alto. Várias fundações [fundos de pensão] aplicaram dinheiro de 2003 a meados de 2004. Isso era comemorado nas reuniões de diretoria, disse ele. Os principais argumentos utilizados por Godinho para afirmar que os empréstimos não eram reais foram suas renovações a cada 90 dias, o fato de Valério não pagá-los apesar de possuir dinheiro suficiente em conta e a falta de provisionamento pelo Rural - reserva de recursos para cobrir eventual prejuízo-, conforme exigência do Banco Central. Se entrava dinheiro e o empréstimo não era pago é porque o empréstimo estava lá para mascarar a entrada de recursos, disse ele. O fato de quantias astronômicas passarem pelo banco e os empréstimos não serem pagos mostra que eles foram concebidos para não serem pagos, afirmou Godinho. ### Bancos Rural e Central negam denúncias O Banco Rural afirmou, por meio de nota, que a atual direção do banco apenas renovou empréstimos que já haviam sido concedidos, na esperança de, flexibilizando prazos, reaver uma parte dos créditos. Contrariando Godinho, o banco afirmou que esses empréstimos foram provisionados. A assessoria de imprensa de Marcos Valério reafirmou a tomada dos empréstimos mas disse que a administração dessas operações cabia ao Rural, portanto não comentaria as declarações. O Banco Central, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que funcionários e ex-funcionários do Banco Rural não tiveram acesso ao conteúdo do relatório preparado pela fiscalização já que se trata de sigilo bancário. Como resultado dessa fiscalização, afirma o BC, determinou-se que o Banco Rural aumentasse sua provisão para empréstimos cuja probabilidade de inadimplência se mostrava elevada. Tal determinação foi atendida pelo Banco Rural. A ação de fiscalização do Banco Central se concentra na identificação de riscos a instituições financeiras, aos seus clientes e ao Sistema Financeiro Nacional. Cabe a outros órgãos e instituições a apuração de outras eventuais irregularidades em operações de concessão de crédito, incluindo as referentes à origem e/ou destinação dos recursos, diz o BC. Godinho, que trabalhou 17 anos no Rural, era responsável pela área de compliance, que acompanha operações de crédito e procura evitar lavagem de dinheiro. Não caberia a ele aprovar a concessão de empréstimos. O ex-superintendente está desempregado desde agosto deste ano, quando teria sido convidado a sair do Rural porque o banco iria terceirizar o seu setor. O ex-superintendente afirmou que incluiu as supostas irregularidades em um relatório, mas a direção teria pedido para apagar essa parte. Nos relatórios posteriores ele nem chegou a citar o caso. Eu assinava porque senão perdia meu emprego, disse ele. O Rural negou a acusação. As versões integrais dos relatórios com todas as movimentações, jamais modificadas, estão à disposição das autoridades, disse a instituição por meio de nota. Godinho afirmou que os técnicos do Banco Central tinham condição de constatar as supostas irregularidades. A última fiscalização do BC no Rural teria começado em setembro de 2004 e terminado em janeiro de 2005. FK