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Cientistas acusam governo de sectarismo e deixam a Anvisa
Brasília ? Uma semana depois da crise no Instituto Nacional do Câncer (Inca), integrantes da Câmara Técnica de Medicamentos (Cateme) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acusam o governo de sectarismo e partidarismo na gestão do órgão. Os especialistas comunicaram ontem ao ministro da Saúde, Humberto Costa, e à direção da Anvisa o afastamento coletivo da câmara. Dos dez titulares que integram a câmara técnica, nove renunciaram. Os cientistas explicaram que vinham sendo submetidos a um processo de fritura, com o esvaziamento de suas funções, e alegaram falta de transparência na liberação para venda de novos medicamentos. ?Sempre votei em Lula. Mas não votei no sectarismo e no partidarismo ? afirmou o infectologista Roberto Badaró, representante da América Latina da International Aids Society e um dos integrantes da Cateme que deixou o cargo. Os demissionários são especialistas indicados pela comunidade científica que trabalham sem remuneração. Para eles, a nova direção da Anvisa nomeada no governo Lula passou a boicotar seu trabalho com intenção de escolher outros nomes mais afinados com o Executivo. Fomos informados de que alguns medicamentos passariam por nós e outros não. Está claro. Estavam fritando a gente para colocar o pessoal deles ? disse a ex-coorde-nadora da Cateme, Regina Scioletto, médica farmacologista considerada, junto com Badaró, uma das mais importantes cientistas do país. ? Qual será o critério a ser usado para a nomeação dos novos integrantes da Cateme? Terão de ser pessoas filiadas ao partido do governo? Ciência não tem partido. Não daremos respaldo a algo de que não temos certeza do processo de transparência ? disse Badaró. Em abril, por ordem da direção da Anvisa, deixaram de ser divulgadas na internet as decisões da câmara, iniciativa adotada para evitar dúvidas sobre a lisura dos pareceres. ? Ouvíamos dizer que havia gente cobrando propina das indústrias, que reclamavam da demora da liberação da venda de novos produtos. Buscamos dar maior transparência, divulgando tudo via internet. Fui comunicada por e-mail sobre a decisão da Anvisa. Passamos por um processo de fritura. É claro que a Anvisa queria que a gente saísse ? disse Regina Scioletto, explicando que a agência esvaziou a Cateme, deixando de repassar aos especialistas produtos novos. O ministro Humberto Costa não quis comentar o assunto. Sua assessoria indicou o diretor-presidente da Anvisa, Cláudio Maierovitch Pessanha, para defender a posição da instituição. Ele alegou que, pelo regimento da agência, metade dos integrantes da Cateme tinha de ter saído em maio. A mudança teria sido adiada em função das alterações que estavam ocorrendo na gerência de novos medicamentos. ?Sempre que se trabalha com pessoas de grande projeção, surgem dificuldades de relacionamento e disputa por espaço?, disse.