Nacional
NO 100º DIA, RÚSSIA E UCRÂNIA SINALIZAM CONTINUIDADE DA GUERRA
No centésimo dia da Guerra da Ucrânia, ontem (03), um festival de obviedades proferidas pelos principais atores do conflito ajuda a sustentar a avaliação de que a crise está distante de ter uma solução.
A começar pela Rússia, que invadiu o vizinho em 24 de fevereiro, lançando a maior ação militar na Europa desde que os soviéticos tomaram Berlim enquanto os Aliados avançavam a oeste contra os nazistas, em 1945. “Um dos principais objetivos da operação é proteger as pessoas das repúblicas populares de Donetsk e de Lugansk. Medidas foram tomadas para isso e alguns resultados foram alcançados. Este trabalho vai continuar até que se alcancem todos os objetivos”, afirma o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.
Ele está certo, parcialmente. Seu chefe, o presidente Vladimir Putin, colocou a dita libertação desses territórios separatistas no leste ucraniano como uma de suas prioridades, e o violento assalto que já tomou 90% de Lugansk, segundo a avaliação britânica, vai no caminho disso —o que “libertar” significa e modus operandi são outras questões.
Peskov obviamente não falou dos fracassos da primeira fase da guerra em tomar Kiev e Kharkiv, as maiores cidades do país, e as dificuldades que as forças russas enfrentam em campo. Ou da promessa de não tomar território para si, enquanto já conquistou boa parte do sul do país e estabeleceu um corredor entre o Donbass e a Crimeia anexada em 2014.
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Mas falou sobre as acusações de que Putin está levando fome à África, dado o bloqueio da saída de grãos ucranianos pelo mar Negro. Soluções criativas e favoráveis ao Kremlin estão na mesa, e o presidente russo recebeu uma delegação da União Africana ontem (03) para discutir o assunto.
“Mesmo longe do teatro [da guerra], somos vítimas dessa crise econômica”, afirmou o presidente do bloco, o líder senegalês Macky Sall. Ele lembrou que boa parte dos países africanos não condenou a invasão russa nas Nações Unidas.
Putin voltou a dizer que a culpa pelo problema é do Ocidente e suas sanções e que uma saída para a questão pode ser o envio de grãos pela sua aliada Belarus. O ditador do país, Aleksandr Lukachenko, apoiou a ideia, mas apresentou como condição acesso hoje vetado a portos europeus no Báltico.
Do lado ucraniano, um vídeo de 36 segundos resumiu o que o presidente Volodimir Zelenski tem dito de forma cada vez menos convincente. “A vitória será nossa. Os representantes do Estado estão aqui, defendendo a Ucrânia há cem dias”, disse, ao lado de autoridades de seu governo.
Verdade parcial. A resistência ucraniana, alimentada por armas ocidentais, tem sido elogiada até por observadores russos, que consideram que Putin subestimou o adversário. Para fins de TikTok e redes de TV ocidentais, Zelenski já logrou sair herói da crise.
Isso não resolve o problema real, que é o fato de que os cerca de 20% de territórios perdidos dificilmente voltarão a ser ucranianos, ainda que Putin não obtenha uma vitória.
Os oito anos de guerra civil no Donbass, iniciada após Rússia anexar sem dar um tiro a Crimeia, mostram isso. O risco das linhas se estabilizarem em algum ponto é grande, como disse o ministro da Defesa da Ucrânia, ao avaliar os reforços russos na região de Kherson.
Talvez menos do que uma negociação, possa haver um congelamento da guerra no estilo Donbass. Coube a um desconhecido funcionário da ONU (Organização das Nações Unidos), o coordenador para a crise na Ucrânia, Amin Awad, resumir. “Essa guerra não terá um ganhador”, afirmou o sudanês, em nota. Ele falava sob o impacto das milhares de mortes e do “fenômeno sem precedente” de 14 milhões de ucranianos deslocados de suas casas.
Mas é também uma assertiva política. Assim como outra, feita também pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, que joga uma luz histórica sombria no debate sobre os efeitos da guerra no ambiente de segurança europeu.
“Berlim definiu um curso de acelerada remilitarização do país. Como isso pode acabar? Infelizmente, isso é bem conhecido da história”, disse. A União Soviética, país do qual a Rússia é a herdeira legal, perdeu 27 milhões de cidadãos lutando contra a Alemanha nazista de 1941 a 1945.