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MILÍCIA NO RIO EXPANDE NEGÓCIOS E ATUA EM MINERAÇÃO E EMPRÉSTIMOS
Saudadas como um mal menor quando surgiram, nos anos 1990, a pretexto de livrar comunidades da opressão de traficantes, as milícias que hoje dominam territórios onde vivem mais de 2 milhões de pessoas estão diversificando suas fontes de receita, misturando atividades legais e ilegais e tornando-se mais poderosas economicamente.
Durante três meses, o UOL dissecou investigações realizadas pelo MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), pela Receita Federal e por outros órgãos, além de analisar cerca de 600 documentos judiciais que apontam para a atuação dessas quadrilhas em setores como imóveis, mineração, farmácias e prostituição.
“As milícias começam a alcançar esferas que antes não alcançavam”, diz José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio que estuda milícias há mais de 20 anos.
Da extorsão a moradores e comerciantes, gênese de financiamento das milícias em áreas antes dominadas pelo tráfico, esses grupos migraram para outras atividades, como o monopólio na venda de gás e na oferta do chamado gatonet.
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Mais recentemente investigações da polícia e do Ministério Público apontaram a ligação dos milicianos com a grilagem de terras e a construção clandestina de imóveis. Agora, milicianos estão no comando de empresas de mineração, usam lojas de materiais de construção para multiplicarem seus lucros e lavam dinheiro por meio de farmácias e outras empresas —um império criado a partir do dinheiro extorquido nas favelas.
Em algumas áreas, os criminosos baniram a venda de cigarros legais e estabeleceram um monopólio de fornecimento do produto pirateado.
“As milícias nasceram como grupo de extermínio nos anos 60/70, como uma força auxiliar - e ilegal - do estado para atuar no combate ao tráfico, mas isso é passado. Hoje elas são uma grande holding”, afirma Cecília Olliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado (laboratório focado em registros sobre violência armada).
Ela diz que as milícias têm “presença em quase 60% dos bairros da cidade do Rio, além da Baixada Fluminense”. “Ao aumentar seu domínio territorial, as milícias ampliam também suas possibilidades de negócios. E a tendência é que avancem mais e mais porque o Rio não tem um plano de segurança hoje.”
Autos de processos judiciais mostram que os bandidos ficam com um percentual de toda a riqueza gerada em alguns dos territórios sob seu domínio e estendem seus tentáculos para além dessas regiões, cobrando taxas de trabalhadores autônomos que circulam pela cidade e impondo a compra de determinados produtos a lojistas por meio da força.
No caso dos milicianos, quem se recusa a colaborar ou tenta enganar os bandidos é morto para dar o exemplo. É uma fórmula do sucesso cruel e, até aqui, infalível. Em alguns casos, o objetivo é a lavagem de dinheiro. Em outros, a obtenção de mais recursos.
Em todos, quem perde é a sociedade. Cecília afirma ainda que as eleições são fundamentais para esses grupos. “Não há dúvidas de que milicianos irão se candidatar.”