Nacional
Severino Cavalcanti arquiva pedido de processo contra Lula
Brasília - Em clima tenso e durante uma sessão que teve até bate-boca, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), rejeitou ontem o pedido do PSDB para que o Congresso processasse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por crime de responsabilidade. A decisão levou 11 dias para ser anunciada e foi elaborada em meio a negociações que o Palácio do Planalto faz para incluir o PP de Severino no ministério Lula. De acordo com o despacho lido no plenário da Câmara, Severino disse que Lula não ?procedeu de modo incompatível com a dignidade, honra e decoro do cargo? ao dizer, em discurso no dia 24, que ordenou a um auxiliar que se calasse sobre um suposto processo de corrupção em uma instituição da República. ?Constata-se que o cerne de sua manifestação é a intenção de evitar a divulgação danosa da má situação financeira de determinada instituição e suas possíveis conseqüências e não uma presumível intenção de ocultar denúncia de corrupção?, disse Severino, que leu texto preparado por sua assessoria jurídica. No final da leitura, Severino discutiu com o deputado Alberto Goldman (PSDB-SP) por supostas acusações que teriam sido feitas pelo tucano na imprensa. O Supremo Tribunal Federal (STF) já havia recusado na segunda-feira uma interpelação elaborada pelo PSDB sobre o mesmo tema. No caso da Câmara, o partido recorreu da decisão de Severino, que só será derrubada pelo voto da maioria dos presentes à sessão em que o assunto for discutido novamente. Ainda está pendente um pedido do PFL encaminhado ao procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, solicitando denunciar o presidente Lula ao STF por prevaricação - crime cometido por funcionário público por retardar ou não tomar providências sobre atos de sua responsabilidade. *** Após arquivamento, tucano bate-boca com presidente Após ler a previsível decisão de arquivamento do pedido do PSDB, Severino Cavalcanti usou o microfone com o qual presidia a sessão para tirar satisfações com o líder da bancada tucana, Alberto Goldman (SP), o que provocou o primeiro bate-boca da sua gestão. Irritado com a avaliação de que o PP estaria usando a ameaça de processo a Lula nas negociações da reforma ministerial, Severino reagiu: ?Tenho que pedir uma atenção especial ao nobre líder Goldman quando ele ocupa a imprensa para dizer que o presidente da Casa não havia tomado providência porque estava barganhando. Barganhando cargos?, disse Severino, elevando a voz. ?Eu não admito, porque ele deveria olhar o seu passado, o passado dele. Eu posso chegar em qualquer região..., mas está aqui: ?Critérios duvidosos na privatização da Via Dutra?. Não sou eu quem estou dizendo?, afirmou o presidente da Câmara, balançando uma cópia de uma coluna do jornalista Janio de Freitas publicada em 1993 na Folha de S. Paulo. Goldman respondeu de um dos microfones do plenário: ?Eu não ofendi Vossa Excelência em momento nenhum. Em momento nenhum fiz declarações de que Vossa Excelência está barganhando?, disse o tucano, aparentando calma. ?Está na imprensa?, retrucou Severino. ?O senhor não tem prova nenhuma disso. Vossa Excelência deveria ter tomado o cuidado para verificar se isso é verdade?, continuou Goldman. ?Está nos jornais?, insistiu Severino. ?Vossa Excelência faz uma afirmativa que não sei de onde tirou?, tentava continuar o tucano. ?Está na imprensa?, repetia o presidente da Câmara. Nesse momento, o tucano explodiu em berros: ?Da imprensa? Da imprensa? De um jornalista que um dia falou alguma coisa contra alguém? Quantas vezes foi falado contra Vossa Excelência, quantas vezes foi falado contra deputados dessa Casa? Vossa Excelência não respeita a dignidade dos deputados?, disparou a gritar o tucano, enquanto Severino tentava, sem sucesso, desligar seu microfone. ?Eu nunca fui convocado na minha vida, nunca fui indiciado na minha vida. (...) Vossa Excelência tem que ter mais cuidado na presidência dessa Casa?, continuou a gritar Goldman. Após encerrada a discussão, Severino deixou a sessão para que o vice, José Thomaz Nonô (PFL-AL), presidisse. O PSDB pediu que o bate-boca fosse retirado dos registros taquigráficos. Nonô disse que iria analisar o pedido.