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Bras�lia esconde obras-primas em gabinetes

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GERSON CAMAROTTI Brasília - Os principais gabinetes de ministérios, palácios e sedes de bancos estatais na capital federal guardam um tesouro desconhecido da grande maioria dos brasileiros. Esse tesouro não está escondido em gavetas ou cofres. São preciosidades que enfeitam dezenas de paredes na Esplanada dos Ministérios e arredores. São raridades do modernismo e abstracionismo que impressionam visitantes ilustres que circulam nos gabinetes de poderosos instalados no centro das decisões do país. Algumas dessas obras começam a ser expostas ao público comum na chamada casa do povo, a Câmara dos Deputados. Entre os destaques das artes plásticas do poder estão telas de Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Alberto da Veiga Guignard, Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Para esta reportagem, as principais autoridades da República abriram seus gabinetes e apresentaram algumas dessas relíquias da arte brasileira. No Palácio do Planalto, a primeira-dama Marisa Letícia apresentou o seu painel favorito, Mulatas, de Di Cavalcanti, que tem grandes dimensões (343cm x 120cm) e está localizado no Salão de Audiências. Ainda no Planalto, o ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) posou ao lado de uma rara paisagem de Guignard. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, mostrou o famoso estudo de Guerra e Paz, de Portinari , da década de 50. Duas telas importantes do modernismo: Garimpeiros, de Tarsila, e Mulata em fundo verde, de Di, estão expostas no gabinete do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Já o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, impressiona suas visitas com duas telas de Manabu Mabe, sendo Apotheosis a mais representativa do pintor. Enquanto isso, o ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), resolveu inovar e inaugurou exposições itinerantes no seu gabinete, abertas ao público. Pouco antes de deixar o cargo, tirou fotos ao lado de um dos trabalhos mais recentes de Tomie. Valioso acervo Durante décadas, o valioso acervo de telas e esculturas localizado em Brasília foi praticamente ignorado não só pelo público, mas também pelas autoridades. Só nos últimos anos, a capital federal começou a perceber que uma parcela importante do patrimônio artístico brasileiro estava sucumbindo ao descaso e à falta de conservação. Nesse resgate da memória foram encontradas obras que estavam jogadas e esquecidas atrás de móveis, em depósitos e até mesmo toaletes. Gravuras Recentemente, uma gravura de Pablo Picasso foi localizada, quase que esquecida, numa sala do INSS. Nos palácios do Planalto e da Alvorada também aconteceram casos semelhantes. Agora, todo o acervo está sendo recatalogado. As principais telas e esculturas serão remanejadas para os gabinetes e corredores estratégicos do Palácio do Planalto. A Diretoria de Documentação Histórica da Presidência da República analisa um projeto para transformar esses locais numa espécie de galeria de arte para visitação pública nos fins de semana. Para isso, foi criada uma Comissão de Curadoria do Palácio do Planalto, que será responsável pelo acervo. ?Vamos disciplinar o uso das obras de arte e colocá-las em exposição permanente ao público. Isso é um acervo valioso que pertence ao país?, diz o diretor de Documentação Histórica da Presidência, Cláudio Soares Rocha. *** Palácio do Itamarati estampa Guerra e Paz, de Portinari O mesmo encantamento é demonstrado pelo ministro Celso Amorim com o estudo de ?Guerra e Paz?, duas telas com dimensões de 165cm x 125 cm, que hoje estão em seu gabinete, no Palácio do Itamaraty. Em 1953, Portinari foi convidado a fazer o famoso mural para a sede da ONU, em Nova York. Foi a partir desse estudo que o pintor de Brodósqui criou uma de suas obras mais importantes, que ficou pronta em 1957. ?Convivi com a obra de Portinari na adolescência, em exposições no Rio. Quando servi o Brasil na ONU, sempre me encantava ao ver ?Guerra e Paz?, que fica na entrada dos delegados. A imagem me inspirava. Era uma maneira de lembrar o Brasil?, conta Celso Amorim. No Ministério da Fazenda, a maior parte das telas é de propriedade da Receita Federal, como os quadros de Mabe que estão no gabinete do ministro desde 1993. Boa parte das obras que está nos prédios públicos tem a mesma origem: foi incorporada ao patrimônio da União como parte de pagamento de dívidas de empresas e bancos. Algumas obras foram doadas, como a coleção que o pintor paraibano Tomás Santa Rosa entregou ao antigo Ipase, na década de 50, e que depois foi transferida para o INSS. As poucas obras localizadas do acervo original estavam acumulando poeira em gabinetes de Brasília. Cinco anos depois de redescobertas, elas ainda não estão expostas ao público. ?Podem estar perdidos muitos outros quadros da coleção do pintor, inclusive um Portinari. O poder público tem o péssimo hábito de não cuidar do seu patrimônio?, diz o historiador Francisco Orru, contratado para levantar o acervo do INSS. *** Lula põe quadro com bandeiras de Volpi em sala discreta: marca de FHC Quem anda pelos gabinetes do Planalto pode apreciar óleos de Alfredo Volpi, Antonio Maia, Carlos Scliar, Djanira da Motta e Silva, Francisco Brennand, Francisco Rebolo, Glênio Bianchetti, além de gravuras da fase inicial de Gilvan Samico, o maior gravador brasileiro da atualidade. Várias das telas já fazem parte da história do Palácio. A famosa com bandeirolas azuis de Volpi, que foi a marca do gabinete presidencial do governo Fernando Henrique Cardoso, está hoje numa sala discreta de uma assessora da Casa Civil. Lula não quis ficar identificado com a imagem do seu antecessor. Em seu lugar, entrou uma paisagem verde de Rebolo. Já o painel Orixás, de Djanira, chegou a ser retirado do Planalto e transferido para o Alvorada depois que funcionários evangélicos da Presidência fizeram pressão. Não queriam uma tela que reverenciasse os santos da religião afro-brasileira. Quando Dona Marisa soube, mandou reinstalar o quadro numa área de visibilidade no terceiro andar do Planalto. Enquanto algumas telas foram rejeitadas, outras foram adotadas por seus inquilinos. Mineirice Foi o caso da paisagem de Guignard no gabinete da Secretaria Geral da Presidência. O ministro mineiro Luiz Dulci teve uma grata surpresa e uma identificação imediata ao reconhecer a tela do criador da Escola de Belas Artes de Belo Horizonte. Dulci visitou o gabinete ainda no período de transição, quando ele era ocupado pelo ex-ministro tucano Euclides Scalco. ?Foi uma agradável coincidência. A tela chama a atenção de todos que chegam. Quando era deputado, tinha no meu gabinete um pôster de Guignard. É um privilégio poder conviver com uma obra original?, conta Dulci.

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