Nacional
Lula defende autonomia da Palestina
FOLHAPRESS Brasília O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reservou para o encerramento da Cúpula América do Sul-Países Árabes uma defesa à autonomia do Estado palestino e um reforço à condenação à invasão comandada por Estado Unidos e Reino Unido no Iraque. Por outro lado, diferentemente do que contém a declaração final do encontro, ele defendeu a democracia e fez uma alusão positiva a Israel. Lula falou no encerramento da cúpula. As posições críticas vinham sendo defendidas pelos árabes. ?Nasci na política brasileira defendendo o Estado palestino, mas também nunca neguei a necessidade do Estado de Israel. Penso que o ser humano é muito inteligente para aprender que a paz é a única coisa que pode permitir a construção de um mundo harmonioso, democrático e socialmente justo?, disse ele, num discurso de improviso. Depois, comparou a comunidade de nações a uma árvore. ?Essa árvore pode ser muito alta, mas seus galhos serão frágeis e poderão quebrar com a falta de democracia, com o terrorismo existente por causa da má distribuição da riqueza?. O presidente da Argélia e da Liga Árabe, Abdelaziz Bouteflika, agradeceu o apoio da América do Sul na cúpula: ?Estamos muito satisfeitos com a posição tão clara de apoio ao presidente da Autoridade Palestina (Mahmoud Abbas) e a seus direitos inalienáveis?. Segundo Bouteflika, ?todos sabem que o objetivo é acabar com as políticas de defesa desmedidas nas quais Israel sempre se beneficiou em detrimento dos países árabes?, afirmou o presidente da Argélia. Lula elogiou particularmente o presidente palestino: ?Eu fiquei impressionado com a conversa que tive com ele, pela sua sabedoria e pela sua tranqüilidade em saber que a paz será, sobretudo, um jogo de paciência, como um jogo de xadrez. Ao mesmo tempo que temos pressa de conquistá-la, temos que ter paciência para construir as oportunidades políticas para alcançá-la?. O discurso de Lula, logo depois da aprovação simbólica da ?Declaração de Brasília?, encerrou dois dias de reuniões de chefes de Estado, chanceleres e importantes representantes de 34 países - 22 árabes e 12 sul-americanos. Foi uma reunião sobretudo política. ### Democracia foi citada somente uma vez Em 15 páginas e 13 itens, a ?Declaração de Brasília?, documento final da Cúpula América do Sul-Países Árabes, encerrada ontem, contém a palavra ?democracia? uma única vez, ao defender a reformulação da Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, há uma referência às eleições no Iraque com vistas ao estabelecimento de um ?governo democrático?. Na entrevista coletiva no final do encontro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atrapalhou-se para responder à pergunta dos jornalistas brasileiros e explicar a falta do termo: ?Seria falta de democracia se nós tentássemos, num documento plural como esse, definir democracia sem respeitar o conceito dos outros?. Foi nessa tentativa de relativizar o conceito de democracia que o presidente brasileiro, principal articulador da cúpula, expôs uma grave questão dos países árabes: justamente a falta de democracia sem adjetivos. As monarquias da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, do Catar e da Jordânia concentram poderes inquestionáveis. Em outros países, como na Líbia e na Síria, prevalece uma ditadura. Lula disse que os países representados no encontro têm ?culturas e hábitos políticos diversificados?. Por isso, ?o que colocamos num documento é aquilo em que é possível estabelecer consenso?. Consultado pela reportagem sobre a falta de ênfase na democracia, comum em documentos subscritos pelo Brasil, o chanceler Celso Amorim pensou alguns segundos e respondeu: ?É?! Sabe que eu nem tinha percebido?. Ele foi um dos principais negociadores do documento final. O documento dos 34 países -22 árabes e 12 da América do Sul- contém a defesa explícita de reformulação da assembléia geral, do Conselho de Segurança e do Conselho Econômico e Social da ONU. O objetivo é o multilateralismo e a implementação ?não seletiva? das resoluções da ONU, numa provocação indireta ao governo dos EUA, que invadiu o Iraque sem prévia autorização da entidade. Os EUA, aliás, foram diretamente citados no item 2.11, que condena as sanções unilaterais americanas contra a Síria, porque ?violam princípios do direito internacional e constituem uma transgressão dos objetivos e princípios das Nações Unidas, na medida em que estabelecem um grave precedente nas relações entre Estados independentes?. Os 13 itens tratam de relações multilaterais e bi-regionais, cooperação cultural econômica e comércio, sistema financeiro, desenvolvimento sustentável, cooperação Sul-Sul, ciência e tecnologia e informação, ações contra a fome e a pobreza. No tema ?Fortalecimento da paz e da Segurança?, o documento reforça mais uma vez o papel da ONU, defende os tratados de não-proliferação nuclear e contemporiza os dois lados ao falar sobre terrorismo. O item 2.16 do texto condena o terrorismo, ?em todas as suas formas e manifestações?. Já o item 2.17 contempla indireta, mas inquestionavelmente, a questão do território palestino, ao reafirmar ?a não-aceitação da ocupação estrangeira? e reconhecer ?o direito dos Estados e dos povos de resistir à ocupação?. ### Néstor Kirchner usa tom ameno para falar do Brasil Em entrevista a uma rádio, o presidente argentino, Néstor Kirchner, afirmou que o presidente Lula, durante o encontro que ocorreu entre ambos na noite da última segunda-feira, ?entendeu com toda clareza que não pode haver na América do Sul um país com indústrias e outros países sem indústrias?. Kirchner usou um tom ameno em suas declarações à imprensa argentina sobre as relações com o Brasil. Ainda em Brasília, questionado por jornalistas sobre seu retorno antecipado a Buenos Aires, respondeu: Só restavam questões protocolares?. De acordo com Kirchner, Lula teria reconhecido que há ?assimetrias econômicas? favoráveis ao Brasil na relação comercial com a Argentina.