Nacional
Autoridades presas por desmatamento
FOLHAPRESS A Polícia Federal prendeu ontem o gerente-executivo do Ibama em Mato Grosso, Hugo José Scheuer Werle, o diretor de Florestas do órgão em Brasília, Antônio Carlos Hummel, e o secretário estadual do Meio Ambiente do governo Blairo Maggi (PPS), Moacir Pires, acusados de envolvimento num esquema de extração ilegal de madeira na Amazônia que funcionaria desde 2003 em Mato Grosso. A área desmatada, segundo a PF, atinge 43 mil hectares, equivalente a 52 mil campos de futebol. A quantidade de madeira extraída ilegalmente daria para encher 66 mil caminhões. O volume de madeira transportado movimentou em dois anos R$ 890 milhões. A Justiça Federal decretou a prisão de 127 pessoas supostamente envolvidas no esquema, sendo 93 em Mato Grosso, 2 no Distrito Federal, 2 no Paraná, 1 em Santa Catarina, 13 no Pará, 14 em Rondônia e 2 em destino incerto. A PF batizou a operação de Curupira, em referência ao personagem do folclore brasileiro que protege as matas. Em Mato Grosso, 450 policiais participaram das prisões e das buscas e apreensões. Só em Mato Grosso, sede da suposta quadrilha, 82 pessoas foram presas, entre madeireiros, servidores do Ibama e do governo estadual e despachantes. Isso até as 18h10 de ontem, segundo o delegado da PF Tardelli Boaventura, que comanda as investigações. O Mato Grosso responde por mais de 40% do desmatamento ilegal na Amazônia, que atingiu 26,1 mil quilômetros quadrados no período 2003-2004. O governador Blairo Maggi, conhecido como ?o rei da soja?? por ser um dos maiores produtores individuais do grão no mundo, já foi acusado por ONGs de favorecer o desmatamento com o avanço da lavoura. À tarde, chegou preso à sede da PF o secretário Pires, ex-deputado pelo PFL e que, além de secretário, é também diretor-presidente da Fundação de Meio Ambiente de Mato Grosso. ### Presidente do Ibama anuncia demissões Segundo o delegado Boaventura, o esquema de desmatamento ilegal foi montado por funcionários do Ibama e da Fema, envolvendo pagamento de propina para servidores públicos por parte de madeireiros. O presidente do Ibama, Marcus Barros, que acompanhou a operação ontem em Cuiabá, disse que 47 servidores estão envolvidos. Ele anunciou a demissão de 11 deles, que não são concursados, incluindo o gerente-executivo. Investigações Segundo Barros, as investigações da PF começaram em setembro de 2004, a pedido do Ibama. O superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso, Aldair da Rocha, confirmou. Um dos esquemas baseados no Ibama de Mato Grosso envolvia a venda de documentos Autorização para Transporte de Produtos Florestais (ATPFs). Os funcionários vendiam as guias em branco por R$ 1.000 a despachantes, afirmou Boaventura. Esses despachantes ou lobistas emitiam, por R$ 2.000, o documento em nome de 431 madeireiras fantasmas - que operavam, dentro do esquema, como fornecedoras das madeireiras responsáveis pelo desmatamento ilegal. As ATPFs serviam para as empresas comprovarem a origem da madeira. O procurador da República em Cuiabá, Mário Lúcio Avelar, disse que as árvores eram cortadas ilegalmente em terras da União e áreas indígenas em municípios localizados no norte do Estado de Mato Grosso. Barros anunciou ontem a intervenção no Ibama no Estado por dois meses. Foi nomeado como interventor o procurador da Advocacia Geral da União (AGU) Elielson Ayres de Souza. A emissão de ATPFs foi suspensa por um período de 30 dias. Ainda segundo Barros, o Ibama entrará com uma ação civil pública contra a Fema, órgão estadual, para impedir a emissão de ATPFs em 50% da área das propriedades. O desmatamento nessas áreas é defendido pelo governador Blairo Maggi. Reação Para as organizações não-governamentais ambientalistas, a ação da PF expõe a fragilidade e a corrupção nos órgãos ambientais da Amazônia. ?A corrupção envolvendo madeireiros e funcionários públicos em Mato Grosso não é um caso isolado. A Polícia Federal e o Ibama devem estender esse tipo de investigação para outros Estados, onde o desmatamento ilegal também ocorre impunemente, principalmente no Pará e em Rondônia??, disse o coordenador da Campanha Amazônia do Greenpeace, Paulo Adario.