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Lula diz que cortar� da pr�pria carne

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Ana Paula Ribeiro Felipe Recondo Patrícia Zimmermann Folhapress Depois de quase três semanas sendo bombardeado por denúncias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que se necessário continuará demitindo funcionários envolvidos em supostos casos de corrupção. ?Independentemente do uso político-eleitoral que alguns estão fazendo, no meu governo, levarei as investigações até as últimas conseqüências. Por isso jurei a Constituição. Sou o principal guardião das instituições deste País, funcionário público número um?, disse o presidente, ao discursar na abertura do 4º Fórum Global de Combate à Corrupção. O presidente disse ainda que, se necessário, o governo cortará da ?própria carne?, em uma referência a novas possíveis baixas na base aliada e no próprio PT. ?Sem prejulgar ninguém e respeitando o direito a defender que todo cidadão e cidadã possui, não vamos vacilar um segundo na defesa do interesse da coisa pública. O que está em jogo não são alguns parlamentares, funcionários, ministros. O que está em jogo é a respeitabilidade das instituições das quais sou o principal guardião deste País?. Em uma referência ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Lula disse que ?privatizações inadequadas, sucateamento da máquina pública e terceirização da gestão estatal? facilitaram o aumento da corrupção no País. Transparência Desde o início do discurso, Lula citou diversas medidas tomadas em seu governo em favor da transparência dos gastos públicos e do empenho do governo em combater a corrupção. Lula também lembrou que na sua gestão esquemas de corrupção que duravam 12 anos - como a máfia do sangue, desmontada pela Operação Vampiro - foram descobertos por investigações da Polícia Federal. O presidente reafirmou que o combate à corrupção passa pelo comportamento ético dos que estão no governo. ?A corrupção é uma coisa crônica, ela está incrustada na alma. Ela muitas vezes está incrustada na consciência do corrupto. Ela está incrustada na impunidade?. Segundo ele, isso ocorre porque há impunidade. ?Nós queremos ser para o mundo exemplo de combate à corrupção e de fim da impunidade?. DEMISSÕES A crise iniciada com a divulgação das fitas revelando um esquema de corrupção nos Correios derrubou o presidente e toda a diretoria da estatal, que pediu demissão ontem. A decisão foi tomada após reunião à tarde entre o presidente Lula e os ministros Eunício Oliveira (Comunicações) e Antônio Palocci Filho (Fazenda). De acordo com a assessoria de Oliveira, o presidente teria pedido aos ministros uma solução definitiva para os problemas nos Correios e no IRB. A solução apresentada pelo ministro das Comunicações foi a demissão coletiva de todo o comando dos Correios. Quem mais perde com a mudança é o PMDB que, em abril de 2004, havia emplacado cargos na estatal em troca de apoio ao governo para evitar uma CPI no caso Waldomiro Diniz. Das seis demissões de ontem, quatro eram de cargos indicados pelo PMDB, incluindo o presidente da estatal, João Henrique de Almeida Sousa. Além do presidente, pediram demissão três diretores indicados pelo PMDB: Ricardo Henrique Suner Caddah (Econômico-Financeiro), indicado pelo líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR), Carlos Eduardo Fioravanti da Costa (Comercial), indicado pelo senador Hélio Costa (PMDB-MG), e Robinson Koury Viana da Silva (Recursos Humanos), indicado pelo senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Dois diretores ligados ao PT também pediram demissão: Maurício Coelho Madureira (Operações) e Eduardo Medeiros de Morais (Tecnologia). O diretor de Administração dos Correios, Antonio Osório Menezes Batista, indicado pelo PTB, já estava afastado e, segundo a estatal, pedira demissão na segunda. O presidente e os diretores do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) também pediram demissão. A presidência será ocupada por Marcos Lisboa, ex-diretor de Política Econômica do ministério. Em nota, o ministro da Fazenda Antonio Palocci, agradece a colaboração de todos, especialmente a do presidente da instituto, Luiz Appolonio Neto. Ele foi nomeado recentemente para o posto por indicação do Palocci. O IRB, junto com os Correios, é um dos órgãos citados em denúncias recentes de corrupção no governo federal. ### PT resiste em afastar Delúbio Soares Sob forte pressão do governo -especialmente do chefe da Casa Civil, José Dirceu - o comando do PT resistiu ontem à proposta de afastamento do secretário nacional de Finanças e Planejamento, Delúbio Soares. Pivô da crise do governo, Delúbio foi acusado pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ), de distribuir mesada a deputados do PL e PP. Segundo um dos participantes da reunião de ontem na sede nacional do PT, Dirceu telefonou para sugerir o afastamento de Delúbio. A Executiva reagiu, alegando que essa seria uma demonstração de desconfiança. ?O que aconteceu com o Delúbio? Uma denúncia falsa e mentirosa??, argumentou o presidente do PT, José Genoino, dedicando ?apoio e confiança?? a Delúbio. ?O PT vai para ofensiva para se defender perante seus filiados, seus militantes e perante os eleitores do PT??, disse. O secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, também atacado por Jefferson, descartou até a idéia de remeter a denúncia ao comitê de ética do PT: ?Não há necessidade. Não há nada contra ele??. Esse não foi o único ponto de discórdia entre PT e governo. A cúpula do partido discordou do apoio da bancada à CPI dos Correios. Ferreira deixou evidente esse desconforto na saída reunião, afirmando que a ?bancada já decidiu e, diante da situação, a executiva apoiará a CPI??. Genoino, por sua vez, disse que, ?mesmo mantendo a avaliação que a CPI é palanque político eleitoral da oposição, vamos enfrentá-la??. Repetindo que Jefferson ?adota a tática gambá??, Genoino disse que a denúncia do ?mensalão?? é restrita ao Congresso e que cabe à bancada do PT se manifestar sobre as investigações. Em reunião permanente desde a noite de domingo - quando já circulavam rumores sobre a entrevista de Jefferson à Folha- Genoino convocou para hoje, em caráter de emergência, um encontro da Executiva do partido. De lá, deverá sair uma resolução em repúdio às denúncias de Jefferson e de convocação do diretório nacional. A Executiva deverá estudar medidas judiciais contra Jefferson. A expectativa, no entanto, é de que a esquerda do partido proponha a investigação rigorosa do caso. A intenção, segundo Genoino, é iniciar uma ?ofensiva em defesa do PT, do patrimônio ético?? do partido. O comando do PT está preocupado com a repercussão das denúncias entre os militantes do partido. ?Eles estão sentindo na pele o que está acontecendo??, lamentou Sílvio Pereira. Genoino acusou os tucanos de tentar transformar a CPI num palanque eleitoral. Em reposta aos governadores Aécio Neves (MG) e Geraldo Alckmin (SP) -segundo os quais Lula deve explicações- disse que ?essa crise não é do presidente Lula?? nem do governo. E atacou: ?Esses dois governadores estão apressados e um pouco angustiados para precipitar o debate sucessório. O governador Geraldo Alckmin poderia explicar, por exemplo, por que 44 CPIs da Assembléia não foram instaladas até hoje. O Aécio poderia explicar por que engavetou a CPI da saúde na Assembléia de Minas??. ### PL protocola pedido de cassação O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), afirmou ontem que o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), tem de apresentar ao Congresso, ?o mais rápido possível?, provas das denúncias feitas ao jornal Folha de S. Paulo. Mercadante disse que só assim poderão ser tomadas providências. As informações são da Agência Brasil. Da tribuna do Senado, Mercadante advertiu que os parlamentares que porventura estiverem envolvidos nesse suposto esquema de corrupção ?vão pagar caro?. O senador ressaltou que, se o presidente do PTB não tiver provas das acusações que fez, também terá de receber a punição devida. Mercadante disse que é preciso aguardar as investigações da Corregedoria Geral da Câmara dos Deputados para analisar se as denúncias têm fundamento para que se possa dar início a uma investigação, ?com todo o rigor?. O líder do governo afirmou que, se o deputado Roberto Jefferson tinha conhecimento dessas irregularidades, tinha, como homem público, o dever de encaminhar denúncia à Corregedoria da Câmara para que pudessem ser feitas as devidas investigações. O líder do PL no Senado, Marcelo Crivela (RJ), foi à tribuna pedir a abertura de processo de cassação do deputado Roberto Jefferson. O presidente do partido, deputado Waldemar Costa Neto (SP), protocolou, na tarde de ontem, no Conselho de Ética da Câmara, pedido de cassação do mandato de Jefferson. O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) advertiu Crivela de que pedir a cassação de Jefferson, neste momento, seria precipitado. Para ele, é necessário, primeiro, saber se o parlamentar tem condições de provar suas acusações ou, então, a CPMI comprová-las por meio de investigação. Se foram verdadeiras, disse o senador baiano, não haveria razão para cassar o mandato do presidente PTB. Já o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) afirmou que há uma ?corrupção sistêmica dentro de todos os escalões e setores do governo federal com o objetivo de retirar dinheiro público?. Para Jereissati, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ?está encurralado? pelas denúncias de corrupção em seu governo. Investigação Duas frentes de investigação foram abertas ontem pela Câmara com o objetivo de investigar o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). O Conselho de Ética vai abrir amanhã processo de cassação do mandato, a pedido do PL. Além disso, o corregedor-geral da Casa, Ciro Nogueira (PP-PI), anunciou a criação de uma comissão de sindicância que ouvirá Jefferson e todos os deputados citados por ele na entrevista à Folha de S.Paulo. O propósito das duas ações é esvaziar a criação de uma CPI para investigar só o ?mensalão?? citado pelo presidente do PTB. O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), disse ter acolhido o pedido do PL porque ele ?está muito bem embasado?? e convocou para amanhã a sessão de instalação do processo de cassação por quebra de decoro. Jefferson teria duas opções. A primeira é renunciar antes da instalação do processo, como forma de evitar a perda dos direitos políticos. A segunda é enfrentar o processo. Se cassado, o deputado ficará inelegível até 2015. O pedido de abertura do processo foi assinado pelo presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP). ?É uma chantagem que ele está fazendo com o Congresso e com o governo Lula??. ### Jefferson diz ter provas de denúncias Ameaçado de destituição da presidência do PTB e de cassação de seu mandato, o deputado federal Roberto Jefferson (RJ) disse a uma série de deputados que possui muito mais denúncias de corrupção no governo e ameaçou apresentar gravações que teria feito de conversas que comprometeriam deputados e ministros, incluindo José Dirceu (Casa Civil). ?O Brasil vai saber o que está acontecendo??, disse Jefferson segundo relato do deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), que foi ontem ao apartamento do presidente do PTB. Segundo Capixaba, Jefferson ?fala que tem provas sobre o que disse e que o que ele tem nas mãos é muito maior do que ele falou??. ?Ele é advogado criminalista, sabe o que fala e tem condições de provar. Ele disse ter plena consciência sobre o que falou??, afirmou o deputado. Capixaba não confirmou as informações sobre supostas novas fitas e disse que o presidente do PTB só revelará o que sabe na CPI dos Correios, ainda a ser instalada no Congresso. Caixinha de maldades Mas outros deputados do PTB que conversaram com Jefferson confirmaram que ele estaria dizendo que tem ?muita gente na mão??, entre petebistas e governistas. Segundo os relatos, Jefferson conta que o mandato não lhe interessa, que não é candidato à reeleição e que tem uma ?caixinha de maldades?? contra pessoas dentro e fora do partido. O presidente do PTB é o centro da atual crise política que atinge o governo. Primeiro foi acusado de comandar um esquema de corrupção em estatais. Depois disse em entrevista à Folha que o PT paga mesada de R$ 30 mil a deputados para que eles votem com o governo. Lideranças do PTB tentavam forçar o deputado a se afastar da presidência, mas Jefferson resistia. O PTB voltou a apoiar a CPI dos Correios e deve colocar à disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva os cargos que possui no governo, incluindo o ministério e a liderança no Congresso. Segundo petebistas, os cargos importantes seriam em torno de uma dezena, entre eles a vice-presidência da Caixa Econômica Federal e uma diretoria da BR Distribuidora.

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