Nacional
Tesoureiro do PT nega compra de apoio
AGÊNCIA O GLOBO O tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pivô do escândalo provocado pela entrevista do presidente do PTB, Roberto Jefferson, ao jornal ?Folha de S.Paulo?, falou publicamente sobre o assunto pela primeira vez ontem. Acusado de ser o responsável pelo pagamento de R$ 30 mil, o mensalão, a deputados de PP e PL para votarem a favor do governo, ele disse em entrevista coletiva que foi caluniado e massacrado e que o ?PT não aceita este tipo de chantagem?. Sobre a possibilidade de ser investigado pela CPI do Congresso, Delúbio respondeu. ?Não tenho medo de qualquer investigação. O PT não participa de esquema de compra de deputados. O PT não se rende e não se vende?, disse Delúbio, ao lado do presidente nacional do PT, José Genoino. Delúbio disse que não vai deixar o cargo de tesoureiro do PT. Genoino garantiu que nenhum ministro do governo Lula pediu a cabeça de Delúbio e que a executiva não discutiu se ele deveria sair ou não da direção do PT, dizendo que as denúncias do mensalão são inverídicas e fantasiosas. ?O que existe são ofensas e agressões?, afirmou Genoino. Demonstrando um certo nervosismo, Delúbio disse que só ouviu falar em mensalão pelos jornais e que não tomou conhecimento das denúncias feitas por Jefferson ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Perguntado se tinha recebido em sua casa algum presidente de partido da base aliada, o tesoureiro do PT inicialmente negou, mas depois afirmou que já se encontrou com dirigentes partidários, como o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. ?Conheci o presidente na campanha em 2002, para fazer a coligação PL-PT. Fizemos a campanha eleitoral e o Valdemar da Costa Neto continua presidente do partido. Nunca tive problemas com ele?, garantiu. QUEBRA DE SIGILO Sobre uma possível acareação com Roberto Jefferson, o tesoureiro do PT disse que não se negaria a participar, caso fosse convocado. Delúbio Soares afirmou que colocou à disposição da Justiça seus dados bancários e fiscal, para uma eventual quebra de sigilo. Delúbio recusou-se a dizer se em algum momento deu dinheiro para partidos ou políticos da base aliada, preferindo dizer que nas campanhas do ano passado e de 2002 o PT tinha compromissos com os partidos aliados, mas não disse se eles se referiam a dinheiro. Evitando citar o nome de Jefferson, Delúbio afirmou seis vezes que o PT ?não compra votos nem apoio?? de deputados. Utilizou pelo menos 15 vezes a palavra chantagem, mas não disse o nome de quem seria o chantagista. ### Iniciada cassação de Jefferson O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados instaurou ontem processo de cassação de mandato contra o deputado Roberto Jefferson (RJ), presidente nacional do PTB. A ação tem como base uma representação do PL, que acusa Jefferson de ter quebrado o decoro parlamentar. Caso seja cassado, o petebista ficará inelegível até janeiro de 2005. A primeira sessão do Conselho para tratar da questão ocorre hoje. Jefferson foi notificado ontem para apresentar sua defesa e, segundo o presidente do conselho, Ricardo Izar (PTB-SP), avisou que irá pessoalmente se defender, o que poderia acontecer a partir de hoje. O relator será o deputado Jairo Carneiro (PFL-BA). A Corregedoria da Câmara também iniciou ontem a sindicância para apurar as denúncias feitas por Jefferson, de pagamento de mesada a deputados, e acertou para a próxima terça-feira o depoimento do petebista, que será tomado em seu apartamento em Brasília e terá caráter sigiloso. Apesar disso, a principal investigação deve ocorrer no Conselho, já que o trabalho da Corregedoria serve, em tese, de base para a investigação do Conselho. A motivação do PL para pedir a cassação de Jefferson se deve ao fato de o petebista ter acusado o partido e o PP de receberem R$ 30 mil de mesada do PT para apoiar o governo no Congresso. PP e PL negam a acusação. Na sessão de hoje, os integrantes do conselho farão um roteiro de trabalhos e definirão quem irá ser convocado a depor. Um dos possíveis nomes é o do deputado Miro Teixeira (PT-RJ), que confirmou ter ouvido de Jefferson a história sobre o ?mensalão?? no Congresso. O Conselho de Ética tem 90 dias para concluir os trabalhos, mas, segundo Izar, a intenção é encerrar antes o processo. Caso o Conselho considere que Jefferson quebrou o decoro parlamentar, o parecer vai a voto no plenário. A cassação só ocorre com o apoio de pelo menos 257 dos 513 deputados, em votação secreta. Paralelamente à ação do Conselho, a sindicância da Corregedoria da Câmara se reuniu pela primeira vez terça e, além de marcar o depoimento do presidente do PTB, decidiu que pode ouvir Miro Teixeira e também pode requisitar a gravação da entrevista concedida por Jefferson à Folha de S.Paulo no domingo (reportagem publicada na segunda-feira). A sindicância é chefiada pelo corregedor, Ciro Nogueira (PP-PI), e por quatro deputados -Robson Tuma (PFL-SP), que será o relator, Odair (PT-MG), Osmar Serraglio (PMDB-PR) e Léo Alcântara (PSDB-CE). ### PTB entrega cargos ao governo Lula Chico de Gois Uma reunião das bancadas do PTB na Câmara e no Senado, ontem à tarde, deliberou que o partido deve entregar os cargos que tem no governo, incluindo o Ministério do Turismo. O mesmo encontro também serviu para ?reafirmar?? o apoio das bancadas ao presidente Roberto Jefferson (RJ), que em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada na segunda-feira, afirmou que o PT paga um ?mensalão?? de R$ 30 mil a deputados do PL e do PP, o que ocasionou uma crise. Uma reunião do diretório do partido foi convocada para os próximos dias 16 e 17 para definir se Jefferson deve continuar à frente do partido ou não. O secretário-geral do PTB, deputado Luiz Antônio Fleury Filho (SP), esclareceu que a entrega de cargos não significa um rompimento com o governo. ?A decisão é de abrir mão dos cargos, mas não de sair da base.?? Fleury se reuniria ontem à noite com o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, para lhe informar da determinação da bancada. ?Pelo que conheço do Walfrido, ele deverá seguir a orientação da bancada??, declarou o deputado federal. Porém, fez uma ressalva: ?Se o presidente [Luiz Inácio Lula da Silva] não aceitar [o pedido de demissão], ele [Walfrido] pode permanecer, não como indicação do partido, mas na conta pessoal do presidente??. O líder do PTB na Câmara, José Múcio (PE), disse que a reunião de ontem serviu para reafirmar o apoio ?irrestrito?? do partido a Roberto Jefferson. ?Conhecemos seus propósitos, sua determinação e coragem??, testemunhou. Na reunião de ontem também foi feita uma avaliação da situação política atual, e da ?agressão e desdém como o partido é tratado?? por setores do governo e do PT. O PTB ficou muito incomodado quando, há cerca de 15 dias, o presidente nacional do PT, José Genoino, disse que o governo devia ?requalificar?? a base. Os petebistas entenderam a afirmação de Genoino como um recado ao PTB. ### Presidente defende reforma política No momento em que enfrenta uma série de denúncias de irregularidades em seu governo e o desgaste de sua base de apoio no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou a defesa da reforma política como forma de tentar esfriar as recentes acusações contra o governo. Um relatório sobre o tema será encaminhado ao Congresso em 45 dias. Ontem, em discurso em cerimônia de nomeação de integrantes dos conselhos nacionais do Ministério Público e da Justiça, Lula rotulou a reforma política de uma ?palavra mágica?? e disse que o atual ?momento político?? do País deve ser aproveitado para discutir a aprovação de tal reforma no Congresso. DISPOSIÇÃO O presidente cobrou ?disposição?? do Congresso para aprová-la e admitiu que o relatório do Palácio do Planalto sobre a reforma é uma forma de ?insinuar?? e ?provocar?? deputados e senadores. ?Eu acho que é extremamente importante a gente aproveitar esse momento político para discutir esse tema que de vez em quando se transforma em tabu dentro do Congresso Nacional??, disse. Lula determinou ao ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) que coordene a elaboração do texto, com o auxílio dos ministros Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência), Aldo Rebelo (Coordenação Política) e Jaques Wagner (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). A reforma está sendo discutida no Congresso há mais de uma década. Entre outros itens estão em discussão a fidelidade partidária (os congressistas não poderiam mudar de sigla livremente como hoje), financiamento público de campanha e voto em lista. Engresso, aproveitando as inúmeras propostas que existem tanto na Câmara como no Senado. Apesar de ser a favor da reforma política, Lula é a favor do fim da verticalização.