Nacional
Donos da Schincariol s�o presos pela PF
Claudia Rolli Uma megaoperação da Receita Federal e da Polícia Federal prendeu ontem donos, diretores e advogados da Schincariol, segunda maior cervejaria do Brasil, e pelo menos outras 60 pessoas em 12 Estados envolvidas no que foi divulgado como sendo o maior esquema de combate à sonegação. Também foi preso um dos donos da cervejaria Petrópolis, Walter Faria, que fabrica a cerveja Itaipava, além de representantes de distribuidoras de bebidas e servidores públicos. Chamada de ?Operação Cevada??, a ação acusa os detidos de participar de uma quadrilha que teria sonegado ao menos R$ 1 bilhão nos últimos cinco anos em impostos federais, como Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), e estaduais, como o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias (ICMS). O grupo é acusado de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, evasão de divisas e corrupção de servidores públicos. Os acusados negaram as acusações e reclamaram de violência policial. Em São Paulo, foram presos os irmãos Adriano (diretor-superintendente) e Alexandre Schincariol (diretor de recursos humanos) - filhos do fundador da companhia, José Nelson Schincariol, assassinado em agosto de 2003. O vice-presidente Gilberto Schincariol e seus dois filhos José Augusto e Gilberto Schincariol Júnior, ambos diretores da cervejaria, também foram presos na sede da Polícia Federal em São Paulo. Outros três diretores da sede da empresa em Itu (interior de SP) também estão presos: José Domingos Franschinelli (planejamento), José de Assis (comercial), Alcides Vagas Porteiro (industrial) e Carlos Rafael, um dos diretores da fábrica no Rio. Também foram presos dois advogados da empresa - Gustavo Camargo e Vinícius Camargo Silva. PF e Receita afirmam que a operação já estava sendo preparada há meses e dependia de autorização da Justiça. No total foram 134 mandados de busca e apreensão e 77 mandados de prisão. A força-tarefa mobilizou 180 funcionários da Receita e mais de 600 policiais nos 12 Estados: Paraná, São Paulo, Rio, Minas, Espírito Santo, Goiás, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Tocantins e Pará. A investigação, feita também em parceria com o Ministério Público Federal, teve início em maio de 2004, quando o serviço de inteligência da Receita Federal identificou possível sonegação fiscal na fábrica do grupo Schincariol em Cachoeiras de Macacu, interior do Rio. As denúncias sobre a suposta sonegação chegaram de forma anônima à Receita Federal. ?Foi desmontada uma quadrilha que atuava como uma organização clandestina e criminosa??, afirmou o superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, José Ivan Guimarães Lobato. A Polícia Federal abriu inquérito criminal contra a direção da empresa e pediu a prisão temporária dos envolvidos no esquema. ### Em nota, empresa contesta acusações A ação policial contra o grupo Schincariol foi injustificada, ?pautada por um comportamento violento e sensacionalista contra cidadãos de bem, que não ofereceram nenhuma resistência [aos policiais]??, informou ontem, em nota, a empresa, que lamentou a forma como foi conduzida a operação. Segundo o comunicado, os dirigentes da cervejaria, ?com residência fixa e conhecida??, colaboraram com os policiais - ao contrário do que a PF afirmou. A companhia foi mais longe: em seu comunicado oficial, fez uma correlação entre o seu recente crescimento orgânico e as acusações de sonegação de impostos - que pipocaram recentemente e foram objeto da ação da PF. ?A história se repete. Em 1993, quando alcançamos 4% do mercado de cerveja, fomos alvo de acusações de que o nosso crescimento era fruto da sonegação de impostos. Passados 12 anos, quando o grupo Schincariol alcança 13% do mercado, após uma bem-sucedida estratégia de marketing, novamente as falsas denúncias vêm à tona??, diz a nota. Com 12,7% das vendas totais de cerveja em maio, o grupo é o dono da marca Nova Schin, um dos principais lançamentos do setor cervejeiro dos últimos dois anos. A cerveja abocanhou o mercado da Antarctica e da Kaiser após o seu lançamento, em 2003, numa ação de mídia que custou ao grupo R$ 300 milhões. Pelos dados apresentados pela empresa, o grupo cervejeiro pagou R$ 1,1 bilhão em impostos federais, estaduais e municipais em 2004. Como a empresa é fechada (não possui ações em Bolsa e não é obrigada a apresentar balanços financeiros), não há dados de anos anteriores. Na operação da PF, os policiais ameaçaram usar explosivos para entrar na casa do superintendente da empresa, Adriano Schincariol, e chegaram a afirmar que a casa tinha um sistema de segurança ?digno de uma embaixada ameaçada por terroristas??. Na nota, o grupo Schincariol refutou ontem as acusações feitas contra os dirigentes ?vítimas dessa ação??. A respeito das acusações de que teria montado um esquema com notas frias para burlar a Receita Federal, o grupo fez duas observações. Afirmou, em primeiro lugar, que ?os documentos fiscais sempre estiveram à disposição do fisco??. Em segundo lugar, citou na nota que sempre defendeu a instalação dos chamados medidores de vazão. Esse instrumento passou a ser instalado em 2004 em todas as fábricas de cerveja do país, num acordo firmado entre as indústrias e a Receita. O aparelho é instalado diretamente nas enchedoras de garrafas e latas. Ele informa os volumes líquidos envasados em cada linha de produção. Os dados são coletados automaticamente e transferidos para a Receita Federal, sem a possibilidade de qualquer interferência externa por parte do contribuinte. Em janeiro último, foi concluída a instalação de medidores em todas as unidades de produção da Schin, ?aguardando unicamente a homologação da Receita Federal para que entrassem em funcionamento??, diz a nota. Os medidores da AmBev já foram homologados. Os da Schin ainda não, informa o Sindicerv, o sindicato do setor. Mas todos estão em funcionamento desde o final de 2004. A reportagem apurou que as informações provenientes desses medidores neste ano foram coletadas pela Receita na tentativa de levantar dados que possam incriminar a Schin. Ao final de seu comunicado, a empresa se defende ao afirmar que ?sempre exerceu com consciência sua responsabilidade econômica e social, o que se traduz na geração de 7.000 trabalhadores diretos e 25 mil indiretos??.