Nacional
Governo comandar� a CPI dos Correios
Felipe Recondo Folhapress O governo conseguiu sair vitorioso na sessão de ontem que definiu os nomes do presidente e do relator da CPI mista dos Correios, criada para apurar denúncias de haver um suposto esquema de corrupção na estatal. O líder do PT no Senado, Delcídio Amaral (MS), foi eleito presidente da CPI e o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) foi indicado para a relatoria, cargo mais importante da comissão. O senador Maguito Vilela (PMDB-GO) foi eleito vice-presidente. Apesar da boa notícia para a base aliada, o governo contabilizou duas traições, já que o placar previsto era de 19 a 13, mas o resultado final foi de 17 a 15. Portanto, dois governistas contrariaram a orientação do governo. ?Foi uma palidez total [no rosto dos governistas]?, comentou o senador José Agripino (RN), líder do PFL na Casa. Delcídio havia desistido de disputar o cargo, mas acabou sendo convencido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ficou preocupado com o depoimento do presidente do PTB, Roberto Jefferson, realizado na terçafeira passada no Conselho de Ética. A oposição teria direito a indicar um dos integrantes, mas o nome de César Borges (PFL-BA) desagradou os líderes governistas. Os parlamentares da base receavam que Borges poderia, por ser próximo ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), polemizar as investigações. Os governistas tentaram indicar o nome do senador Edison Lobão (PFL-MA), próximo a José Sarney (PMDB-AP). Os pefelistas não aceitaram a troca. Entendiam que um acordo com os governistas poderia ser visto pela opinião pública como um acerto para abafar as investigações. Diante do impasse, os governistas arcaram com o ônus político de manter sob seu controle absoluto uma investigação contra uma estatal federal. Na semana passada, o senador José Jorge (PFL-PE) havia dito que a escolha de dois governistas para os principais cargos da CPI era prenúncio de que as apurações acabariam em pizza. Denúncias A crise nos Correios começou com a divulgação de uma fita de vídeo em que o ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios Maurício Marinho detalha a dois empresários um esquema de pagamento de propina, supostamente gerido pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, e outro diretor da empresa, Antônio Osório Batista. O dinheiro arrecadado com o esquema de corrupção seria usado pelo dirigente do PTB para engordar o caixa do partido, de acordo com as denúncias. Na gravação, Marinho afirma também que as outras estatais federais teriam esquemas semelhantes. Diante dessas informações, as lideranças do PFL e do PSDB propuseram a criação de uma CPI mista para investigar as denúncias de corrupção. Inicialmente, a comissão teria os Correios como foco, mas alguns parlamentares oposicionistas admitiam que as investigações chegariam a outras estatais. O governo, enquanto isso, acelerou as investigações da Polícia Federal na tentativa de esvaziar o trabalho da comissão. No dia 24, a PF indiciou Marinho por fraude e corrupção passiva. Na mesma semana, a polícia ouviu Osório e Fernando Leite de Godoy, que também é citado na gravação. Coube ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e ao ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, reverterem o apoio da base à CPI. O trabalho começou tarde demais. O requerimento para a criação da CPI foi lido em sessão do Congresso Nacional no dia 25 de maio. O governo teria, portanto, até a meia-noite daquele dia para garantir a retirada de aproximadamente 85 assinaturas de deputados. Se a estratégia fosse bem sucedida, a CPI seria engavetada. Durante as negociações, o PTB, que ameaçava deixar os cargos do governo, retirou o apoio à comissão. O PL, PP e PSB também garantiram a retirada das assinaturas até a meia-noite. No entanto, o PT manteve as assinaturas e complicou o trabalho do governo. Pouco antes da meia-noite, num esforço inédito da base de apoio, os líderes governistas foram à Secretaria-Geral da Mesa com o número insuficiente de desistências. A oposição comemorou. ### Oposição acusa governo de blindar CPI Logo após a eleição do senador Delcídio Amaral (PT-MS) para a presidência da CPI dos Correios, a oposição acusou o governo federal de ter montado uma estratégia para ?blindar? os trabalhos da Comissão. O senador José Jorge (PFL-PE) disse que o governo recuou no acordo que começou a ser firmado na terça-feira, quando o senador Delcídio Amaral teria aceitado desistir de concorrer à presidência da Comissão. ?Essa CPI começa em pizza. O senador Delcídio ontem (terça) no plenário disse que a CPI não devia ser chapa branca, que deveria ter gente do governo e da oposição na Mesa. Mas hoje (ontem) ele foi chamado pelo presidente Lula e foi pressionado para aceitar a presidência da CPI mesmo contra a sua vontade?. O senador Delcídio Amaral rebateu as acusações e disse que chegou a abrir mão da candidatura na tentativa de criar um consenso com a oposição. Diante a negativa, afirmou que a bancada governista decidiu disputar no voto o comando da CPI. O ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, Maurício Marinho, será o primeiro depoente a ser ouvido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios. Os deputados e senadores decidiram convocá-lo na próxima reunião da comissão, que será na terça-feira (21), às 18 horas. O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), deve apresentar no mesmo dia o cronograma de trabalhos da comissão, que tem 84 requerimentos para apresentação de provas, quebra de sigilo e convocação de depoentes. Serraglio afirmou que além das investigações de fraude em licitação nos Correios vai apurar as suspeitas de corrupção no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e de recebimento do mensalão. ### Parlamentares alagoanos comentam depoimento Parlamentares da bancada federal alagoana reagiram às declarações do deputado federal e presidente do PTB Roberto Jefferson (RJ), dadas na última terça-feira, na Comissão de Ética da Câmara. A maioria acredita que o parlamentar não mentiu quando falou sobre o possível pagamento de um mensalão de R$ 30 mil a parlamentares do PP e PL para favorecer o governo Lula. O deputado federal José Thomaz Nonô (PFL) classificou a sessão da Comissão de Ética como ?pornográfica? e ?deplorável?: ?Ele não mentiu?, resumiu o deputado, que é vice-presidente da Câmara. ?Acho que ele tem absoluta consciência de que será cassado. Com a serenidade de quem vai morrer politicamente, ele deu um testemunho com ares de verdade?, classificou Nonô. O PFL é da bancada de oposição ao governo Lula. Nonô disse que até o começo da tarde de ontem Roberto Jefferson não tinha sido ?muito desmentido?. Uma parte da bancada federal alagoana participou ontem pela manhã de uma reunião com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), que ocorreu a residência de Severino, em Brasília. O encontro durou duas horas e meia. Na reunião, a maioria decidiu que contribuiria para a votação da reforma política, na Câmara dos Deputados no mais breve espaço de tempo possível. Nonô disse ser contra a reforma ?no momento atual?. ?Ela não vai curar a crise?, considerou. Outro membro da oposição que acreditou no depoimento de Jefferson foi o deputado Jorge VI (PSDB): ?Ninguém inventa uma história como essa sem ter testemunhado?. O senador Teotonio Vilela Filho (PSDB) apontou um desgaste no governo. ?Ele [Jefferson] foi muito verossímil. Nós vamos saber se ele falou ou não a verdade com as provas?. O deputado Givaldo Carimbão (PSB) considerou o depoimento ?ótimo, excelente. É preciso abrir a caixa-preta?. O PSB é da base aliada do governo federal. O deputado Jurandir Bóia (PDT) filosofou: ?Começa uma nova etapa na política brasileira?. Rogério Teófilo (PPS) defendeu a reforma política, mas foi cuidadoso nas palavras sobre o discurso de Jefferson: ?Acho que devemos refletir sobre a reforma política no Brasil?, afirmou. O deputado João Caldas (PL) foi cuidadoso e, como o seu partido foi diretamente atingido pelas denúncias de Jefferson, disse que a legenda faria uma reunião ontem para discutir o assunto. ?Não vou entrar nessa seara. As lideranças do partido estão rebatendo as acusações?. OR