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Dilma Rousseff vai substituir Jos� Dirceu na Casa Civil
Kennedy Alencar Folhapress O presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializou ontem a escolha de Dilma Rousseff para substituir José Dirceu na Casa Civil. Dilma toma posse às 16h de hoje, em cerimônia no Palácio do Planalto. Lula antecipou ontem a sua volta do Paraguai para discutir com petistas a reforma ministerial. Dilma foi convidada por Lula na quinta-feira passada, no mesmo dia em que José Dirceu anunciou que sairia da Casa Civil. Maurício Tolmasquim, ex-secretário-executivo das Minas e Energia e hoje presidente da Empresa de Pesquisa Energética, responderá interinamente pela pasta. Lula pretende negociá-la com o PMDB - o senador José Sarney (AP) teria preferência na indicação e tende a sugerir o nome de Silas Rondeau (Eletronorte). O presidente pediu a Dilma que mantivesse segredo até segunda-feira [ontem]. Queria deixar a sexta e o final de semana ?livres? para que Dirceu fosse o personagem central do governo e dos assuntos do PT. Nesse período, houve um ato de desagravo a Dirceu na sexta. No sábado, ele participou de reunião do partido. O ministro demissionário foi determinante na escolha de Dilma - Lula o ouviu antes. Dirceu telefonou para a ministra das Minas e Energia na quinta-feira para dizer que ela era a escolha certa. Os dois são amigos e, em comum, têm um passado de combate à ditadura militar de 1964 em organizações clandestinas de esquerda. Com a volta da democracia, Dirceu fez carreira na política, tornando-se o principal estrategista da inflexão do PT ao centro (moderação econômica e política), o que levou o partido ao poder central em 2002. Já Dilma, de carreira técnica, foi do PDT até 2001, quando ingressou no PT. Lula gosta do estilo ?trator? de Dilma, característica que ela tem em comum com Dirceu. Não raro rude com auxiliares, a ministra tem fama de durona e trabalhadora. Ganhou pontos com Lula em dois anos e meio de governo por, na visão do presidente, ter colocado o setor energético ?em ordem? após o apagão de 2001 (governo FHC). O ministro demissionário da Casa Civil avalia que Dilma tem um perfil ?desenvolvimentista? e que pode manter um contraponto ao ?monetarista? ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, que chegou a ser cogitado para a Casa Civil. Apesar de esses rótulos serem uma definição grosseira, Dirceu e a cúpula do PT avaliaram que a escolha de Dilma evitaria uma concentração de poderes em Palocci. ### Presidente não quer cabo-de-guerra O presidente Lula já pediu que Dilma atue afinada com o ministo da Fazenda, Antonio Palocci. Ele deseja acabar com o clima de cabo-de-guerra que existiu entre Dirceu e Palocci, apesar de o ministro demissionário da Casa Civil ter se aliado ao colega na maioria dos assuntos do governo e vice-versa. A divergência era sobre o grau da ortodoxia monetária e fiscal. Havia também diferenças de estilo. Palocci, discreto e sempre consultando Lula antes de seus movimentos. Dirceu, mais distante e independente do presidente. Com Dilma, Lula deseja dar à Casa Civil um perfil eminentemente técnico, retomando o modelo do governo Fernando Henrique Cardoso, que teve dois gerentes na pasta - os ex-ministros Clóvis Carvalho e Pedro Parente. choque de gestão Lula já pediu a Dilma um ?choque de gestão? na Casa Civil, onde há projetos e medidas paralisadas ou em lenta tramitação devido ao bombardeio sofrido por Dirceu nas últimas semanas e às missões políticas que o ministro demissionário desempenhava. Dirceu, apesar de ter perdido formalmente as atribuições políticas na reforma ministerial de janeiro de 2004, nunca deixou a área, o que o sobrecarregava. O presidente disse à ministra das Minas e Energia que deseja que ela acelere cinco ou seis grandes projetos que estão patinando, especialmente as Parcerias Público Privadas (PPPs). Coordenação Política Lula teve reuniões ontem com Dilma, Dirceu e os ministros Antonio Palocci Filho (Fazenda), Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Jaques Wagner (Conselhão) e Aldo Rebelo (Coordenação Política). O presidente recebeu ainda o prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, que na semana passada esteve cotado para a Casa Civil. Ontem, auxiliares de Lula disseram que Déda poderia substituir Aldo na Coordenação Política. Assim, ele teria uma Casa Civil técnica, com Dilma, e um articulador político com trânsito no PT, na oposição e no Congresso. O presidente hesita entre acabar com a pasta da Coordenação Política, transferindo toda essa área para o Congresso, ou colocar um petista no posto. Quando Aldo pediu demissão no começo de maio, ele sugeriu o nome do prefeito de Aracaju para o seu lugar. Déda, porém, teria que deixar o mandato de prefeito e desistir de concorrer a governador de Sergipe no ano que vem. Prefeito bem-avaliado, Marcelo Déda aparece como líder nas pesquisas a respeito da sucessão sergipana. Lugar de Aldo Outras opções petistas para o lugar de Aldo são Jaques Wagner e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (SP). Wagner, amigo de Lula e Dirceu, já foi deputado e tem trânsito no PT. João Paulo sempre foi defendido por Dirceu para a Coordenação Política. Lula estuda trocar dos ministros da Saúde, Humberto Costa, e das Cidades, Olívio Dutra, abrindo espaço para composições políticas com o PMDB, ainda que essas pastas não sejam especificamente dadas a esse partido. Lula avalia dar mais duas pastas ao PMDB, que já tem Comunicações e Previdência. O presidente Lula deverá intensificar negociações com os diversos grupos do PMDB nos próximos dias. Avalia ainda dar uma pasta ao PP do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PE). Lula analisa nomear um ou dois nomes de peso da sociedade. O empresário Abílio Diniz (grupo Pão de Açúcar) e o ex-ministro da Saúde Adib Jatene são cotados. ### Dilma: pouco jogo de cintura para política Ao longo de dois anos e meio à frente do Ministério de Minas e Energia, Dilma Rousseff cultivou a fama de dama de ferro. Foi firme ao negociar com empresários a reestruturação do setor elétrico e nunca demonstrou inclinação para acordos políticos. Dilma tem desafetos no PMDB e é considerada até mesmo pelos petistas com pouco jogo de cintura para política. O presidente Lula, no entanto, quer um perfil mais gerencial para a Casa Civil, alguém com capacidade de coordenação de projetos. O presidente gosta muito de Dilma, uma petista considerada durona. Para Lula, ela é perfeita para ser a ?gerentona? do governo. Na primeira sondagem feita a Dilma, a ministra teve uma reação negativa. ?Deus me livre?, disse. O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, defendia reservadamente a nomeação do governador do Acre, Jorge Viana. Dirceu confidenciou a amigos que gostaria de ver no seu lugar o titular da Educação, Tarso Genro. Mineira de 57 anos, Dilma viveu intensamente o período da ditadura militar, integrando movimentos de esquerda como o Política Operária (Polop) em 1967 e, a partir de 1969, o Comando de Libertação Nacional (Colina), que pregava a luta armada contra a ditadura e mais tarde se tornaria a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Naquela época, ela usou codinomes como Estela, Luiza, Patrícia e Wanda, o que não foi capaz de livrá-la de interrogatórios, prisão e tortura. Economista, com mestrado em Teoria Econômica, e doutoranda em Economia Monetária e Financeira, Dilma militou no PDT, antes de ingressar no PT. Foi no Rio Grande do Sul que começou no setor energético, ocupando por duas vezes a Secretaria Estadual de Minas e Energia: em 1993 e 1994, durante o governo de Alceu Colares (PDT), e de 1999 a 2002, no governo de Olívio Dutra (PT). Em outubro de 2002 foi convidada para compor a equipe de transição do governo Lula. Assumiu o Ministério de Minas e Energia com o compromisso de expandir o setor, garantir o abastecimento energético, com tarifas mais baixas, e evitar o fantasma do racionamento. Desde então vem costurando o novo modelo do setor elétrico com geradores, distribuidores, transmissores de energia, com quem teve vários embates.