Nacional
CPI quebra sigilo de Val�rio e Wascheck
Felipe Recondo Folhapress Os membros da CPI dos Correios, criada para investigar denúncias de corrupção na estatal, aprovaram na tarde de ontem a quebra dos sigilos fiscal, telefônico e bancário do empresário e sócio de agência SMPB e DNA, Marcos Valério de Souza, e de Arthur Wascheck Neto, um dos donos da Comercial Alvorada de Manufaturados (Comam), que fornecia material de saúde e informática para os Correios. A CPI terá acesso a dados retroativos a cinco anos. Com a medida, a CPI dos Correios quer comprovar as declarações de Wascheck prestadas em seu depoimento à comissão em que admitiu a responsabilidade pela gravação em que o ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material Maurício Marinho recebe R$ 3.000 e revelou que operava na estatal com o aval do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que depõe hoje a partir das 10h30, na CPI. Em depoimento à CPI dos Correios, Wascheck alegou que encomendou a gravação porque ?sentiu? que algo ?andava errado? nas licitações feitas durante a gestão de Marinho. Valério, apontado por Jefferson como um dos operadores do ?mensalão?, suposta mesada dada a deputados do PP e do PL em troca de apoio político, tem contrato de publicidade com os Correios. Junto ao requerimento de quebra de sigilos dele, a CPI aprovou outros dois pedidos que podem levar a comissão a encontrar vínculos do empresário com o pagamento de mesadas. Um deles obriga o Banco Rural a identificar em 15 dias todos os saques realizados em dinheiro nas agências de Belo Horizonte superiores a R$ 100 mil, desde janeiro de 2003, a partir das contas da empresa de Marcos Valério -SMPB Comunicação, de suas coligadas e seus sócios. Nos depoimento de Roberto Jefferson, o deputado dizia que Valério sacava grandes somas em dinheiro nas agências do Banco Rural da capital mineira. Os integrantes da CPI aprovaram também um requerimento para que os Correios remetam à comissão a lista de pessoas que entraram na sede da empresa desde janeiro de 2003. Outro requerimento aprovado pede que as investigações da CPI prossigam durante o recesso parlamentar. ### Comissão vai funcionar no recesso O presidente da CPI dos Correios, Delcídio Amaral (PT-MS), divulgou ontem a agenda da comissão para as duas próximas semanas. A CPI vai tomar depoimentos às terças e às quartas, a partir das 9h. Os outros dias serão destinados à análise de documentos e a investigações. Com a aprovação da autoconvocação, a comissão vai funcionar durante o recesso parlamentar em julho. O requerimento de autoconvocação, que permite o funcionamento da comissão durante o recesso parlamentar em julho é uma medida é preventiva, para evitar futuros questionamentos sobre a legitimidade do funcionamento de uma CPI mista durante o recesso. Se a CPI tivesse sido instalada apenas na Câmara ou no Senado, não haveria dúvidas sobre a validade de suas deliberações durante o período. Segundo o presidente da comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS), a convocação extraordinária não implicará custos adicionais para o Congresso. O senador reconheceu que a CPI não conseguiu disponibilizar ainda documentos importantes sobre os contratos dos Correios, mas garantiu que todos os parlamentares terão acesso a esses contratos. No dia 5 de julho, serão ouvidas outras pessoas que participaram, direta ou indiretamente, das gravações clandestinas que flagraram o ex-chefe de departamento dos Correios Maurício Marinho recebendo propina. São esperados Jairo Martins, José Fortuna Neves, Edgar Lange e Casser Bittar. No dia 6, será a vez do publicitário Marcos Valério e da ex-secretária dele, Fernanda Karina Somaggio. Valério é apontado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) como o principal operador do suposto esquema de mensalão. Fernanda Karina foi secretária da agência de Valério e fez denúncias contra o ex-patrão. A ex-secretária depôs na terça no Conselho de Ética da Câmara, mas negou as acusações que havia feito em entrevistas nas semanas anteriores. Em seu depoimento, ela desmentiu, por exemplo, que sabia da origem do dinheiro que teria visto em malas na agência de publicidade No dia 12, outros diretores dos Correios envolvidos nas acusações de corrupção vão prestar depoimento à CPI. No dia seguinte, os parlamentares deverão ouvir o presidente da Skymaster - empresa de transporte aéreo citada nas denúncias. O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) disse que a oposição está satisfeita com a ordem dos trabalhos previstos na agenda. Ele afirmou que o cronograma de trabalho foi decidido conjuntamente por parlamentares da base do governo e da oposição. ?Foi bom para todo mundo?, disse. ### Múcio desmente Jefferson e Genoino O líder do PTB na Câmara, deputado José Múcio Monteiro (PE), em seu depoimento ontem ao Conselho de Ética da Casa, levantou mais dúvidas sobre a credibilidade das informações prestadas pelo ex-presidente nacional de seu partido, o deputado Roberto Jefferson (RJ). Além de desmentir várias informações prestadas por Jefferson em seu depoimento, José Múcio afirmou que o PTB ?não recebeu nenhum tostão? dos R$ 4 milhões que o deputado carioca afirma ter recebido do PT, a título de ajuda nas eleições do ano passado. Ele afirmou que foi testemunha de pelo menos duas reuniões entre membros do PT e do PTB para acertar uma aliança com repasse de recursos financeiros. Na primeira, em junho de 2004, teria sido acordado um montante de R$ 20 milhões. Na segunda, em março deste ano, Jefferson se queixou não houve o repasse da totalidade dos recursos não foram repassados. O deputado confirmou em pelo menos dois momentos que não teve conhecimento de repasses para a bancada dos recursos supostamente já transferidos para o PTB. ?Estive nas duas reuniões. Na primeira, quando o acordo foi acertado. Na segunda, em março deste ano, na qual Jefferson cobrou do PT pelo menos o pagamento de mais R$ 4 milhões?, disse o deputado. Segundo o deputado, Jefferson teria dito numa dessas reuniões: ? ?Preciso oficializar o dinheiro que já recebi?. E foi aí que eu percebi que ele havia recebido algum dinheiro?. Na terça, o tesoureiro informal do PTB, Emerson Palmieri, disse à Corregedoria da Câmara dos Deputados que os R$ 4 milhões que teriam sido repassados pelo PT ao PTB em 2004 ainda podem estar no cofre do partido, em Brasília. Em seu depoimento José Múcio afirmou que nunca foi tratado oficialmente dentro da bancada do partido a questão do ?mensalão?. Segundo ele, nunca houve uma consulta à bancada para saber se o partido queria ou não aceitar o mensalão, como afirmou Jefferson em seu depoimento no Conselho. José Múcio negou também que tenha sido pressionado por qualquer integrante de outro partido para que o PTB viesse a receber dinheiro de mesada. Segundo ele, nunca nenhum parlamentar fora do PTB tratou deste assunto com ele. As declarações de José Múcio desmentiram não só a Roberto Jefferson, como ao próprio presidente do PT, José Genoino e ao tesoureiro do partido, Delúbio Soares. Os dois negaram diversas vezes terem tido qualquer contato com o PTB para tratar de dinheiro. Em entrevista à imprensa, há quase um mês, Delúbio afirmou nunca ter estado na casa de Roberto Jefferson. Esta declaração foi desmentida por José Múcio, que confirmou que o tesoureiro do PT ouviu o pedido de mais dinheiro e afirmou: ?me liguem mais para o final de semana, quinta ou sexta-feira, que vamos tentar resolver.? Na avaliação de Múcio Monteiro, Roberto Jefferson o levou a este encontro para que ele pudesse retransmitir à bancada do PTB que o acordo financeiro com o PT não foi cumprido e que o presidente do partido estava cobrando dos petistas uma providência. O deputado afirmou que seu partido atravessa dificuldades financeiras, que podem inclusive ameaçar a existência da sigla. Ainda de acordo com Múcio, alguns parlamentares teriam ameaçado sair do partido devido a essas dificuldades. José Múcio negou ter ficado constrangido com o fato de o PTB não ter recebido os R$ 4 milhões.