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Val�rio usou fantasma para fazer saque de R$ 152 mil
FOLHAPRESS Brasília Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) entregue à CPI mista dos Correios informa que, três anos e sete meses depois de sua morte, o ferroviário mineiro Jonas de Pinho aparece como responsável por um saque de R$ 152.875 da conta da SMPB, do publicitário Marcos Valério, na agência Assembléia do Banco Rural, em Belo Horizonte. Segundo reportagem publicada ontem pelo jornal ?O Globo?, o ferroviário morreu no dia 31 de dezembro de 1999, aos 81 anos, de choque séptico, pneumonia e doença pulmonar obstrutiva crônica. Em espécie O documento do Coaf informa que, no dia 16 de julho de 2003, um cidadão que se apresentou como Jonas de Pinho forneceu o CPF do ferroviário e sacou o dinheiro em espécie da conta da SMPB. Como o valor era elevado, ele teve de declarar a razão do saque. Alegou que os recursos seriam destinados ?ao pagamento de folha de pessoal?. A reportagem diz ainda que a conta da agência de publicidade foi aberta no dia 31 de março de 2000, três meses depois da morte do ferroviário. A CPI dos Correios vai investigar a suspeita de que documentos de Jonas foram usados em saques de dinheiro. O ferroviário deixou dois filhos, um deles também chamado Jonas, que trabalha na agência de publicidade mineira I-3. Quebra de sigilo Ontem, a CPI dos Correios aprovou uma série de requerimentos que pedem a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de funcionários das empresas do publicitário Marcos Valério de Souza, dessas empresas e de seus sócios. O empresário também será reconvocado, para prestar esclarecimentos sobre as informações que surgiram nas últimas semanas e à luz dos novos documentos que chegaram à comissão. Os integrantes da comissão quebraram os sigilos bancários, fiscal e telefônico das duas secretárias de Valério: Geyza Dias dos Santos e Adriana Fantini Martins -e de seu sócio Alexandre Vasconcelos Castro. ### CPI quer saber origem dos valores acima de R$ 20 mil As empresas de Marcos Valério terão ainda de determinar para a CPI dos Correios para que pessoas ou outras empresas foram feitos pagamentos em espécie. Em seu depoimento à CPI, o empresário afirmou que o dinheiro dos saques vultosos de recursos tinham como destino o pagamento de fornecedores das empresas. Ao mesmo tempo, as pessoas e empresas que receberam dinheiro de Valério terão de apresentar o comprovante dos pagamentos. Os integrantes da CPI querem ainda saber qual é a origem dos valores acima de R$ 20 mil, depositados nas contas de Marcos Valério. Serão convocados também todos os gerentes da agência do Banco Rural em Brasília, de onde teriam saído os recursos para o suposto pagamento do ?mensalão?. Ainda devem depor na CPI Telma dos Reis Menezes da Silva, diretora da empresa Multi Action Entretenimentos, também com participação de Marcos Valério. Marco Antônio da Silva, casado com Telma dos Reis e diretor de eventos da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom), subordinada a Luiz Gushiken. Banco Rural A CPI também quebrou o sigilo bancário da conta-caixa do Banco Rural, especialmente a de Belo Horizonte (MG), diretamente ligadas a Marcos Valério. Com isso, a Comissão Parlamentar de Inquérito pode detectar um saque simulado em Belo Horizonte, sem a retirada de dinheiro, e a efetivação da operação em Brasília, onde seria paga a suposta mesada a deputados do PP e PL. A possível estratégia de Valério evitaria o transporte de recursos em malas. ### Sigilos do PT e de amigo de Lula não são quebrados O governo impediu ontem a votação, na CPI dos Correios, da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do PT, da cúpula do partido e do empresário Mauro Dutra, amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além da convocação do secretário de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, e do ex-presidente petista José Genoino. O ex-ministro José Dirceu, o tesoureiro afastado Delúbio Soares, o secretário-geral afastado Silvio Pereira, Genoino e o PT já autorizaram as quebras de sigilo, mas a oposição queria votá-las, alegando ser uma segurança jurídica. A base aliada, no entanto, acusou a oposição de querer criar um fato político. ?A tática oposicionista é levar a CPI para um embate eleitoral?, disse o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Após a aprovação de 11 quebras de sigilo consensuais, a oposição apresentou um pedido de inversão de pauta para votar 85 requerimentos polêmicos, entre eles as quebras de sigilo da cúpula petista e de Dutra, dono da Novadata, empresa de informática acusada de favorecimento nos Correios. A tropa de choque do governo derrotou a proposta por 15 a 11. ?Vamos votar e cada um coloca a sua cara, a sua digital. Eu quero o jogo às claras, sem subterfúgios?, disse o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), defendendo que o governo derrubasse os requerimentos em vez de impedir sua entrada na pauta. ?É a primeira vez que o governo assume aqui a operação abafa.? Após a vitória governista, a CPI voltou a apreciar requerimentos em torno dos quais havia acordo, aprovando 37 deles em bloco. Ao esgotá-los, a base aliada impediu novamente a votação da pauta polêmica, apresentando um requerimento de inversão de pauta, que não chegou a ser votado. A sessão foi suspensa devido ao acirramento dos ânimos. Quase aos tapas O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), suspendeu a sessão quando o desentendimento entre o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e o senador Sibá Machado (PT-AC) caminhava para a agressão física. O deputado chegou a dar um empurrão no senador. Faria de Sá insistia que a assinatura de Silvio Pereira na autorização de quebra de sigilo era falsa e que o texto enviado por Dirceu não permitira a abertura das informações. ?Está me chamando de moleque!?, reagiu Sibá, que foi o portador dos documentos. ### Ex-diretor da Abin mantém ataque a metodologia de CPI Ao deixar o cargo de diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) por conta de ataques aos integrantes da CPI dos Correios, o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva manteve ontem suas críticas à forma como a comissão colheu o depoimento do agente do órgão Edgard Lange, na semana passada. Mauro Marcelo, porém, disse que não teve a intenção de atacar a imagem dos parlamentares ao usar o termo ?bestas-feras em pleno picadeiro? em mensagem interna da agência que vazou ontem à comissão. Em nota divulgada na madrugada de ontem na página da Abin na Internet, o delegado afirma que a convocação de Lange ?constitui fato inusitado na história da atividade de inteligência do Brasil?. A demissão do diretor-geral do órgão ocorreu por conta da repercussão no Congresso de mensagem interna da Abin na qual Mauro Marcelo ataca e ironiza os integrantes da CPI, numa crítica direta ao formato em que ocorreu o depoimento de Lange à comissão. A Abin queria que o agente fosse ouvido a portas fechadas, para que a figura de Lange não fosse exposta, o que, na prática, coloca em xeque a carreira do servidor. A atual crise política surgiu pela atuação de ex-agentes da Abin na gravação em vídeo que flagra um funcionário dos Correios quando embolsava propina. ?Sua exposição [de Lange] ao público, da forma que foi feita, causou grande comoção interna, chocando todos os profissionais de inteligência, tanto os ativos quanto os que já se aposentaram e mesmo aqueles que trabalham em outros órgãos congêneres da administração pública?, diz trecho da nota da Abin, redigida pelo seu agora ex-diretor-geral. Mauro Marcelo, ciente de que sua saída havia sido autorizada pelo Planalto, se antecipou, e pediu sua exoneração no final da noite de quarta. De pronto, o presidente interino José Alencar e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Jorge Félix, aceitaram o pedido. Por ora, José Milton Campana (adjunto de Mauro Marcelo) ocupará o cargo. O nome do novo titular será definido após o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva da França. O indicado terá de ser sabatinado no Congresso. No texto na Internet, Mauro Marcelo afirma que não teve a intenção de atacar a imagem de parlamentares: ?Em nenhum momento houve a intenção de atingir a imagem dos parlamentares que compõem a CPI ou o Congresso Nacional?, afirma.