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DNA fornece armas contra Chagas e outros males
REINALDO JOSÉ LOPES RICARDO BONALUME NETO Folha Online Três dos parasitas que mais infernizam as populações pobres do planeta tiveram o conjunto de seu DNA soletrado por um grupo internacional de pesquisadores. É o primeiro passo para descobrir brechas importantes na armadura dos três vilões de uma célula só: Trypanosoma cruzi, causador do mal de Chagas; seu parente T. brucei, responsável pela doença do sono; e Leishmania major, um dos causadores da leishmaniose. Os estudos que detalham e comparam os genomas das criaturas estão na revista ?Science? (www.sciencemag.org) de sexta-feira (15), e contaram com a participação de diversos pesquisadores brasileiros. Entre as instituições envolvidas estão a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Paulo (USP) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Disponibilizar de uma vez os três mapas genéticos tem uma vantagem: os cientistas já conseguiram comparar as moléculas do trio e descobriram que há numerosos pontos em comum entre eles. Não é impossível, portanto, que o futuro traga um medicamento ?guarda-chuva?, capaz de matar os três com uma cajadada só. ?Graças a esses estudos, os cientistas estão bem mais próximos de desenvolver remédios eficazes do que estavam cinco anos atrás?, afirmou em comunicado oficial Najib El-Sayed, do Instituto de Pesquisa Genômica em Maryland (EUA), que coordenou a decifração do genoma do T. cruzi. Carlos Renato Machado, biólogo do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG, preferiu ser mais sóbrio: ?É um alicerce. Agora você tem na mão um grande conjunto de dados que precisa ser mais estudado.? Chaga aberta O causador do mal de Chagas é, de longe, o que mais mete medo. Estima-se que 18 milhões de pessoas estejam infectadas com o T. cruzi. As mortes estariam por volta de 21 mil ao ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Não há medicamento conhecido que possa curar a infecção, nem vacinas disponíveis para barrar o parasita, que afeta de forma devastadora órgãos como o coração. A dificuldade não é por acaso: o genoma mostra que se trata de um participante bizarramente sofisticado do jogo da evolução. Segundo Machado, apesar do genoma, ainda não se conhece com certeza o número de cromossomos (as estruturas enoveladas que abrigam o DNA) da criatura. ?Aliás, o número e tamanho dos cromossomos pode variar em diferentes cepas do parasita?, completa o biólogo José Franco da Silveira, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Unifesp, outro brasileiro envolvido no estudo. A esquisitice não diminui a complexidade do T. cruzi. Estima-se que ele tenha cerca de 12 mil genes (mais ou menos a metade da atual conta para seres humanos), muitos dos quais parecem conter o ?código? para a fabricação de proteínas da mesma família, com algumas pequenas variações. ?Essa repetição é muito interessante, embora o que ela significa ainda não esteja muito claro?, afirma Machado, que trabalhou com Santuza Ribeiro Teixeira, também da UFMG, estudando os genes que o parasita usa para consertar o próprio DNA. Uma pista sobre isso pode estar nos tipos de gene ?multiplicados?. Muitos codificam proteínas da superfície das células do parasita, ?relacionadas com a virulência [capacidade de causar doença] e evasão do sistema de defesa do organismo?, afirma Silveira. Ou seja, estariam ligadas à capacidade de enganar as células humanas que o T. cruzi precisa invadir para sobreviver. Outros trechos de DNA muito abundantes poderiam ser chamados de ?genes-ladroeira?. Daniella Bartholomeu, bióloga mineira que faz pós-doutorado com a equipe de El-Sayed nos EUA, explica. ?O parasita, por exemplo, não é capaz de sintetizar ácido siálico. Por isso ?rouba? essa molécula do hospedeiro?, diz Bartholomeu. As substâncias do T. cruzi e do T. brucei que fazem esse serviço sujo, conhecidas como trans-sialidases, poderão ser alvos de drogas contra eles, conta a bióloga, uma vez que estão presentes nos parasitas mas não nos hospedeiros --ou seja, menos chances de efeitos colaterais. A equipe identificou vários outros alvos potenciais. O obstáculo para torná-los reais, contudo, não é só científico. ?O grande problema nessa área é que o desenvolvimento de drogas não é muito atrativo do ponto de vista econômico para as companhias farmacêuticas?, diz Daniella Bartholomeu. Ou seja: doenças que afetam pobres não parecem uma fonte muito promissora de lucros. Mas, ressalva a pesquisadora, ?o desenvolvimento de uma droga única capaz de combater os três parasitas seria mais atrativo?. É esperar para ver.