Nacional
Silvio nega nomea��es e mensal�o
Fernanda Krakovics Leila Suwwan Chico de Gois Folhapress Em depoimento à CPI dos Correios, o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira atribuiu ontem a responsabilidade pelas finanças do partido ao ex-tesoureiro Delúbio Soares e afirmou desconhecer o repasse de empréstimos bancários do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza para a sigla. Ele também disse desconhecer o ?mensalão?. ?Nunca ouvi falar desse assunto.? À Procuradoria Geral da República, na semana passada, Marcos Valério afirmou que ouviu de Delúbio Soares - que deve depor hoje na CPI dos Correios - que tanto Silvio Pereira quanto o ex-ministro José Dirceu tinham conhecimento dessa operação, da ordem de R$ 39 milhões. Primeiro petista a depor na CPI dos Correios, Silvio Pereira admitiu que fez indicações a cargos, mas que as nomeações eram sempre de responsabilidade do governo. ?Nunca nomeei ninguém no governo federal. Quem nomeou foi o governo?. Mesmo sabendo das dificuldades financeiras por que passava o partido, o ex-secretário-geral afirmou que seu conhecimento sobre o saneamento das dívidas se limitava ao fato de Delúbio estar buscando recursos na rede bancária. ?No PT as decisões são coletivas e as responsabilidades, individuais?, afirmou Silvinho, como é conhecido, ressaltando que sua função era apenas político-eleitoral. Silvio foi o responsável durante muitos anos pelo Grupo de Trabalho Eleitoral do PT e sempre foi ligado ao ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Apesar de não ter cargo no Executivo, Silvinho admite que era procurado por empresários para tratar de questões de governo, embora negue ter dado encaminhamento a esses pleitos. ?Nunca fiz mediação de interesses de empresários no governo?, disse ele, que se encontrou, por exemplo, com um dos sócios da Skymaster, Luiz Otávio Gonçalves. Essa empresa é acusada de ter superfaturado contrato com os Correios. O ex-secretário-geral poupou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chegou a dizer que não o vê ?há anos?. Classificando sua relação com ele como de respeito e admiração, Silvinho disse não ter ficado magoado com a declaração de Lula de que os problemas do PT devem-se ao fato dos melhores quadros do partido terem ido para o governo. Divergência O ex-secretário-geral afirmou que coordenava as indicações do PT para o governo federal, tentava resolver divergências entre os petistas e os aliados em torno dos cargos e ainda cobrava o cumprimento de acordos firmados entre o Palácio do Planalto e sua base de sustentação. Esse trabalho começou, segundo ele, no governo de transição, quando a pedido do secretário de Comunicação do Governo, Luiz Gushiken, montou um banco de dados com cerca de 5.000 cargos de confiança. Segundo ele o PT ficou com aproximadamente 1.400 desses postos. Silvinho afirmou ter sido apresentado a Marcos Valério em 2003, no PT, por Delúbio, e ele tinha interesse em fazer campanhas eleitorais do partido. Segundo o ex-secretário-geral, sua relação com Valério terminou com divergências em torno da estratégia de marketing nas campanhas das prefeituras paulistas de Osasco e São Bernardo do Campo. ?Optamos por contratar a agência de Duda Mendonça?, disse ele. Com a garantia de um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, que o impedia de ser preso caso não respondesse a perguntas ou caísse em contradição, o ex-secretário-geral do PT não conseguiu se lembrar das indicações feitas por ele. O ex-secretário-geral recusou-se a falar sobre seu patrimônio e suas despesas. ### CPI divulga lista de quem sacou dinheiro Integrantes da CPI dos Correios divulgaram, extra-oficialmente, a primeira lista de pessoas ligadas a políticos da base do governo que fizeram saques em dinheiro das contas das empresas SMP&B Propaganda e DNA Publicidade, do publicitário Marcos Valério de Souza, no Banco Rural. Os valores foram conseguidos por meio de quebra de sigilos bancários. Os nomes são: Anita Leocádia da Costa, secretária do líder do PT, Paulo Rocha (R$ 320 mil); Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL (R$ 200 mil); Márcia Regina Milanesi Cunha, mulher João Paulo Cunha, deputado de PT-SP (R$ 50 mil); Raimundo Ferreira, dirigente nacional do PT e assessor de Paulo Delgado, deputado do PT-MG (R$ 100 mil); Josias Gomes da Silva, deputado do PT-BA (R$ 50 mil); Carlos Rodrigues, deputado do PL-RJ (R$ 150 mil). Parlamentares da oposição e do governo disseram que quem está na lista precisa se explicar, especialmente João Paulo Cunha. ?Ele terá que vir para a CPI explicar. É bom para ele. Vai ter que justificar a origem. Se for caixa 2, é mais grave ainda e pode deixar muito mal o PT?, afirmou o senador Heráclito Fortes (PFL-PI). O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) disse que vai esperar a explicação de João Paulo Cunha. ?Vou aguardar o posicionamento de João Paulo. Não devemos prejulgá-lo. Vamos ter que fazer uma avaliação desse caso?, afirmou. O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) disse que o caso de João Paulo é mais grave porque ele foi presidente da Câmara. Inicialmente, João Paulo informou que sua mulher fora à agência do Banco Rural para pagar a conta de uma TV por assinatura. Mas na sexta-feira passada, o deputado retirou da CPI dos Correios o ofício em que dava esta informação. A documentação do Banco Rural chegou à CPI ontem e ainda não foi analisada detalhadamente pelos parlamentares. ### João Paulo confirma saque da esposa no Banco Rural O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) não quis comentar ontem a divulgação de que sua mulher, Márcia Milanesio, fez um saque de R$ 50 mil nas contas das empresas do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza. A deputados que conversaram com ele, porém, confirmou a história, mas disse que ?tudo tem explicação?. O fato é que João Paulo não negou oficialmente a informação, publicada na edição de ontem do jornal ?O Globo?, apesar de ela diferir da que ele deu para justificar a ida da mulher na agência do banco Rural de Brasília, em 4 de setembro de 2003. TV a cabo Segundo João Paulo, ela foi por três vezes naquele dia à agência para resolver uma pendência relativa à fatura da cobrança da TV a cabo do deputado. Segundo essa explicação, a fatura conteria valores já pagos. João Paulo chegou a encaminhar essa explicação por escrito na semana passada à CPI dos Correios, mas a retirou minutos depois. Funcionários da comissão disseram que o assessor que levou os papéis disse que eram necessários acréscimos, mas nenhuma nova explicação chegou desde então. A assessoria de imprensa do deputado disse que ele estava no interior de São Paulo e que, informado da divulgação do saque, afirmou que não falaria. Uma das assessoras de João Paulo, Silvana Paz Japiassu, também esteve na agência do Banco Rural, mas até ontem não tinham sido detectados saques no nome dela. Japiassu esteve na agência por duas vezes em abril de 2004. João Paulo tinha relação com Marcos Valério. Foi o publicitário que fez a sua campanha à presidência da Câmara, em 2003. Depois que João Paulo assumiu o mandato, encerrado em fevereiro, a agência de publicidade SMPB, controlada por Valério, ganhou a conta da Câmara, em um contrato que perdura até hoje (o valor atual é de R$ 8,2 milhões), mas que deve ser cancelado em breve. Mont Blanc Além disso, consta na agenda de Fernanda Karina Somaggio, ex-secretária de Valério, encontros entre os dois e anotações de que era preciso comprar uma caneta Mont Blanc para que o publicitário presenteasse o deputado. A mulher de João Paulo é assessora de imprensa do Sesi, mas funcionários disseram ontem que ela está de férias. A assessora de João Paulo, Silvana Paz Japiassu também está de férias, de acordo com o gabinete do deputado. ?Infelizmente não sou ele, não ganho nada de mensalão?, ironizou uma pessoa que possui atualmente o mesmo número de telefone celular que pertencia a João Paulo. Petistas evitaram comentar o caso.