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Saque pode derrubar deputados do PT
FOLHAPRESS O secretário-geral do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), cobrou ontem a expulsão do partido do seu antecessor no cargo, Silvio Pereira, e do ex-tesoureiro da sigla Delúbio Soares e defendeu a abertura de processo na comissão de ética do PT para apurar se houve envolvimento de deputados federais petistas no escândalo do ?mensalão?. Documentos obtidos pela CPI dos Correios relacionam deputados petistas a saques efetuados nas contas das empresas do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do ?mensalão?. Na lista, estão o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (SP), o deputado Josias Gomes (BA) e o líder do PT na Casa, Paulo Rocha (PA), além de parlamentares de outras legendas. Conforme os documentos da CPI, o deputado Josias Gomes foi o único que sacou pessoalmente dinheiro das contas de Valério no Banco Rural. Os demais teriam usado familiares ou assessores. Ontem, Josias divulgou nota na qual confirma a operação bancária, mas diz ter agido por orientação de Delúbio. ?O meu nome consta como tendo recebido R$100 mil. Isso é verdade [...] Não agi em causa própria, mas como presidente do partido na Bahia. Recebi orientação do companheiro Delúbio Soares para ir ao Banco Rural receber uma contribuição para o PT da Bahia honrar seus compromissos?, disse Josias, que está em viagem no interior do seu Estado. De acordo com os papéis da CPI, a mulher de João Paulo, Márcia Milanésio Cunha, recebeu R$ 50 mil de uma empresa de Valério. Diante disso, integrantes da CPI dos Correios começam a defender a convocação do deputado. ?A situação do ex-presidente da Câmara João Paulo se complicou muito. O mandato dele corre risco?, afirmou o deputado Ônyx Lorenzoni (PFL-RS). Mas, dos papéis que chegaram à CPI, um deles sumiu na noite de terça: o documento que comprovava o saque feito pela mulher de João Paulo. No caso de Paulo Rocha, sua assessora Anita Leocádia Pereira fez saques próximos a R$ 470 mil. O líder do PT na Câmara não quis comentar o caso. Na semana passada, ele havia dito que a assessora esteve no prédio onde também funciona o banco para um exame numa clínica. Ontem, Rocha chegou a redigir uma nota para explicar as contradições, mas desistiu de divulgá-la. Parte da bancada petista defendeu a saída de Rocha da liderança do partido. Lista preliminar Uma lista preliminar da CPI dos Correios mostra que 46 pessoas sacaram recursos das contas das empresas de Marcos Valério. De uma das empresas, a SMPB, 36 pessoas foram à boca do caixa e retiraram mais de R$ 21 milhões em espécie. Na lista, além dos petistas, estão o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), que teria sacado R$ 150 mil da conta. Outro nome que consta da lista é o do ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas. De acordo com dados iniciais, ele teria retirado R$ 1,35 milhão da conta da SMPB. João Cláudio Genu, chefe de gabinete do líder do PP na Câmara dos Deputados, José Janene (PP-PR), está na lista e teria sacado R$ 1,15 milhão. Da conta da outra empresa de Valério, a DNA, R$ 4,2 milhões foram sacados em espécie. As outras pessoas que constam nos documentos ainda não foram identificadas. Uma delas, sozinha, retirou R$ 900 mil em dinheiro no Banco Rural. O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) anunciou que entrará nos próximos dias com uma representação no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar contra os deputados José Dirceu (PT-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), Sandro Mabel (PL-GO), Valdemar Costa (PL-SP) e José Janene (PP-PR). Se a representação for aceita, o processo pode culminar na cassação de mandato dos parlamentares denunciado. ### Governo garante controle da Comissão do Mensalão Repetindo o que fez na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, o governo conseguiu ontem assegurar controle absoluto na mais nova instância de investigação de corrupção, a CPI Mista do Mensalão. A comissão foi instalada tendo o senador Amir Lando (PMDB-RO) na presidência e o deputado federal Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG) na relatoria. O deputado petista Paulo Pimenta (RS) ficou com a vice-presidência. Em tese, a CPI investigará também outras acusações de compra de votos de deputados, como a da emenda da reeleição, em 1997. Por isso, é chamada de CPI da Compra de Votos pelos governistas. Na prática, no entanto, deve focar no mensalão. Lando, um dos mais fiéis peemedebistas ao Planalto, ocupou o Ministério da Previdência até o início do ano. Teve o nome bancado pelo líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Abi-Ackel, também indicado pelo governo, acabou escolhido por sua formação jurídica. Ministro da Justiça no governo de João Batista Figueiredo, entre 1980 e 1985, pertence ao PP, partido que tem deputados acusados de recebimento do mensalão. Mas sua indicação foi justificada com base no fato de não ter havido até agora nenhuma acusação contra ele. ?É um deputado acima de qualquer suspeita?, afirmou Mercadante. Não houve acordo entre governo e oposição para a escolha dos postos-chave. A oposição lançou o nome do deputado Raul Jungmann (PPS-PE) para presidir a CPI e aceitava dar a relatoria ao governo. Os governistas não aceitaram, e a disputa foi a voto. Lando venceu por 22 a 14. O presidente disse que a nova CPI não tomará nenhum depoimento nas suas primeiras duas semanas de trabalho. A CPI do Mensalão vai solicitar hoje à dos Correios todas as informações já levantadas para, a partir de então, definir sua agenda de trabalho. Segundo Lando, pode haver a reconvocação de testemunhas importantes, como o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). ?Nosso enfoque é diferente.? ### Ex-mulher de Costa Neto diz ter ouvido falar do mensalão Em um depoimento marcado por revelações de detalhes íntimos, a publicitária Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse ter presenciado conversas que atestariam a existência do suposto esquema do ?mensalão? no Congresso e afirmou ter ouvido o ex-marido pedir por diversas vezes ao ex-tesoureiro da legenda Jacinto Lamas para ir a Belo Horizonte buscar ?várias malas?. ?Aquelas que têm andado por aí ultimamente?, detalhou. Caldeira possui um tumultuado processo de separação com Valdemar, a quem acusa de diversas irregularidades, além de caracterizá-lo como uma pessoa que movimentaria altas somas em dinheiro. Valdemar também processa a ex-mulher por tentativa de extorsão. Segundo ela, Valdemar teria um ?cofrão? lotado de dólares -?não era um cofre de porquinho??- pagaria tudo em ?cash? e teria perdido só em uma noite US$ 500 mil em um cassino de Punta del Este, no Uruguai. De onde viria tanto dinheiro? ?Do governo não, do PT não, do Delúbio, sim?, afirmou, em referência ao ex-tesoureiro do PT. A publicitária, que conviveu com Valdemar entre o início de 2003 e meados do ano passado, prestou depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. Ela disse ter presenciado pelo menos uma entrega de dinheiro de Valdemar a um deputado do PL, Remi Trinta (PL-MA). Mala vazia Segundo ela, Valdemar entregou ao deputado uma mala de dólares em um flat de São Paulo. ?Uma mala dessas que vocês recebem aí?, disse, em referência à valise que a Câmara concede - ?vazia?, ressaltou o deputado Edmar Moreira (PL-MG) - aos deputados. O presidente do PL é acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser um dos beneficiários do ?mensalão?, o suposto esquema de pagamento de mesada pelo PT a deputados do PL e do PP. ?Acho que o PT não tem nada a ver com isso [operação mensalão], mas acredito que tenha sido uma coisa montada pelo Bispo Rodrigues, pelo Valdemar e pelo Delúbio?, afirmou. Caldeira se refere ao deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), também conhecido como ?Bispo Rodrigues?, que é igualmente acusado de integrar o esquema. Saíram das contas da empresa do publicitário Marcos Valério, apontado como o ?operador? do ?mensalão?, R$ 150 mil para Rodrigues. Segundo ela, Valdemar teria comentado sobre o esquema em telefonemas a Rodrigues. O presidente do PL e Delúbio encontrariam-se em hotéis para tratar do esquema. Ela teria visto Delúbio apenas uma vez, em uma festa na fazenda do pai do ex-tesoureiro, ocasião em que foi presenteada com uma garrafa de pinga por Delúbio.