Nacional
Aliados e oposi��o em clima de guerra
Silvio Navarro Ranier Bragon Folhapress São Paulo - Apesar de afirmarem publicamente que ainda buscam um nome de consenso para suceder Severino Cavalcanti (PP-PE) na presidência da Câmara, governo e oposição se atacam nos bastidores e já costuram apoios diante da perspectiva de um possível enfrentamento no plenário. Quase diariamente surgem nomes que poderiam reunir consenso, mas que acabam vetados por esse ou aquele grupo. Na oposição, PFL e PSDB anunciaram que caminharão juntos para escolher um candidato, que poderia ter ainda o aval de PDT, PPS e dos chamados partidos nanicos. MICHEL TEMER Embora considerem prematura a avaliação, eles não descartam se agrupar em torno do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), se seu nome ganhar força na próxima semana. ?Se não reunirmos maioria [para um nome do PFL], podemos compor com o Temer?, disse o líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ). ?Eu não rejeito essa hipótese não?, reforçou Alberto Goldman (SP), líder do PSDB. A avaliação dos oposicionistas é que Temer, cujo perfil agrada devido ao posicionamento crítico em relação ao Palácio do Planalto, angariaria votos com mais facilidade para derrotar um candidato do PT. O peemedebista presidiu a Câmara por dois mandatos no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) - de 1997 a 2000. O problema para emplacar Temer é que, além da rejeição de governistas, seu nome foi recusado pela ala do PFL ligada ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Na reunião suprapartidária de anteontem, os governistas sugeriram o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR) como alternativa a Temer. A ala pefelista ligada a ACM defende que seja seguido o critério da proporcionalidade das bancadas e, portanto, a indicação fique com o PT - maior bancada - sob o argumento de que apresentar um nome agora que não do PT poderá abrir um precedente perigoso para o caso de a oposição vencer as eleições de 2006. Baixo clero Paralelamente, parte do chamado baixo clero (deputados de pouca expressão política), que sustentou a eleição de Severino, sinalizou que apoiaria um candidato da oposição, mas desde que tenha um discurso mais moderado. Sugeriram o ex-governador de Pernambuco Roberto Magalhães (PFL), que já foi filiado ao PTB e ao PSDB. Amparado na questão da proporcionalidade, o PT resiste em negociar a candidatura de um deputado que não seja do partido, mas tem dificuldade para encontrar um nome na bancada que tenha o aval do Planalto e trânsito e aceitação na oposição. Por enquanto, o mais forte continua sendo Sigmaringa Seixas (DF), apesar de ele ser vetado pelo PFL. Temeroso de não conseguir apoio dos partidos da base e perder no voto, o governo admite como saída bancar outros nomes. Um deles pode ser o do primeiro-secretário da Mesa, Inocêncio Oliveira (PE), que trocou o PFL pelo PL recentemente. ?Entendemos que o que traz estabilidade ao Legislativo é o retorno à Mesa do partido que tem a maior bancada. Mas não vamos trabalhar com nenhum tipo de imposição?, afirmou Henrique Fontana (RS), líder do PT. Tanto o nome de Inocêncio quanto o de um petista, entretanto, enfrentarão rejeição da oposição. ?Se o PT insistir em lançar candidato vai contrariar o que o Tarso [Genro, presidente do PT] combinou comigo?, disse o tucano Goldman. ?No caso do Inocêncio, não tem acordo, a Mesa precisa de oxigênio, de alguém para romper os costumes.? ### Justiça pede aos EUA quebra de sigilo de Duda Mendonça O Ministério da Justiça brasileiro encaminhou anteontem à noite ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos o pedido de quebra de sigilo da conta bancária da empresa offshore Dusseldorf Company, do publicitário Duda Mendonça, naquele país e de outras 17 que a abasteciam. Essas contas são de pessoas físicas e jurídicas que faziam depósitos para a offshore. Entre elas, duas teriam sido usadas por doleiros de Minas Gerais. O governo brasileiro espera começar a receber as informações em um mês. Ontem, o governo norte-americano confirmou o recebimento do pedido, feito por fax, e já informou que o Departamento de Justiça se reuniu para tratar do caso. Outros documentos foram encaminhados pelo correio. A medida visa ajudar a identificar as fontes de abastecimento da conta da empresa de Duda Mendonça e verificar se existem outros brasileiros beneficiados indiretamente pelos depósitos. A quebra de sigilo havia sido autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, relator do inquérito criminal que investiga as denúncias do deputado cassado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre o pagamento de suposto mensalão a parlamentares de partidos aliados e empréstimos do publicitário Marcos Valério de Souza ao PT. A quebra de sigilo telefônico de investigados pela CPI dos Correios mostrou que a empresa de Duda Mendonça recebeu oito ligações da SMP&B e cinco da DNA Propaganda, de Marcos Valério. Entre os argumentos para o pedido da quebra de sigilo estão indícios de corrupção, de remessa ilegal de dinheiro para o exterior e de sonegação fiscal. No mês passado, Duda Mendonça disse, em seu depoimento à CPI dos Correios, que usou conta no exterior para receber do PT, por meio de caixa-dois, pagamentos por serviços prestados durante a campanha de 2002, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito. Roberto Jefferson O ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello informou ontem, por meio de sua assessoria, que se manifestará na segunda-feira sobre o mandado de segurança impetrado pelos advogados do ex-deputado Roberto Jefferson pedindo a anulação do processo que deu início à sua cassação. ### Valério movimentou R$ 17,9 milhões em 2003, diz CPI A análise dos dados bancários dos últimos cinco anos de Marcos Valério Fernandes de Souza concluiu que o empresário movimentou mais dinheiro em 2003. Segundo a CPI dos Correios, foram movimentados R$ 17,9 milhões das contas do empresário. No mesmo período, a movimentação financeira de Renilda Santiago, mulher de Valério, foi de R$ 11 milhões. A comissão informou ainda que no mesmo ano as empresas de Valério faturaram quase R$ 5 bilhões. Nos últimos três anos, as empresas apresentaram maior índice de movimentação bancária. A SMP&B, por exemplo, passou de um faturamento de R$ 84,6 milhões em 2000 para R$ 586,1 milhões em 2003, ano de maior movimentação. Em 2004, a empresa movimentou R$ 578,6 milhões e, em 2005, R$ 246,6 milhões. Em 2004, a DNA propaganda movimentou mais que o triplo do que em 2000 - passou de R$ 223,3 milhões para R$ 767,4 milhões. ?Valério teve um aumento substancial na movimentação bancária a partir de 2003 e um aumento no valor de contratos com órgãos públicos, com novas empresas públicas e com empresas particulares que têm interesses junto ao governo federal?, disse o sub-relator de movimentação financeira da CPI, Gustavo Fruet (PSDB-PR). O irmão de Palocci A oposição vai reapresentar semana que vem, na CPI dos Correios, o requerimento de convocação de Ademar Palocci, irmão do ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda). A proposta, que irritou o ministro, foi rejeitada anteontem pela base do governo. Atual diretor de engenharia e planejamento da Eletronorte e ex-secretário de Finanças da Prefeitura de Goiânia, Ademar Palocci é acusado de envolvimento em suposto uso de caixa dois do PT na cidade e tráfico de influência. Parlamentares da própria base aliada estão defendendo que se aprove a convocação de Ademar, para evitar mais um desgaste, mas sem definir uma data. A medida, no entanto, não é consenso. Para parte dos governistas, ela representaria uma derrota política. Outro motivo da resistência à convocação é a contrariedade do ministro da Fazenda. Deputados do PT disseram que Palocci ficou irritado com a possibilidade de a CPI convocar seu irmão.