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Severino diz que renuncia amanh�
| Folhapress Brasília O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), reuniu-se ontem no início da noite com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comunicar que renunciará ao mandato de deputado federal amanhã. Lula recebeu Severino com a disposição de manter o ministro Márcio Fortes (Cidades), indicado pelo deputado na cota do PP. A respeito do filho de Severino, José Maurício Cavalcanti, que tem um cargo federal em Pernambuco, a tendência é mantê-lo pelo menos num primeiro momento. Seu futuro, porém, dependeria das pressões políticas para tirá-lo do posto. O presidente da Infraero, o ex-deputado Carlos Wilson, hoje no PT, conversou no domingo com o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais), e foi como emissário do Planalto, ontem, conversar com Severino. Basicamente, foi estabelecer uma espécie de ?manual? para a conversa com Lula, que não aceitou um encontro informal. Entre as regras, a principal era discrição. Carlos Wilson, pernambucano como Severino, explicou ao conterrâneo que Lula não queria ser pressionado a apoiá-lo nem admitiria que a conversa enveredasse pelos cargos que o atual presidente da Câmara mantém no governo. Mudança de categoria Conforme a reportagem apurou, o Planalto pretende manter Márcio Fortes no ministério na ?cota do PT?, alegando que ele tem bom conceito interno e que já era do governo antes de ser alçado ao cargo. O governo não deseja carimbar Fortes como apadrinhado de Severino, apesar de o presidente da Câmara ter sido decisivo na sua nomeação. O mesmo não ocorre com o filho de Severino, que tem um cargo no Ministério da Agricultura. Lula não vai retirá-lo imediatamente, mas também não quer assumir nenhum compromisso. Em resumo, conforme a reportagem ouviu ontem, a intenção é manter José Maurício num primeiro momento, mas já sabendo que devem começar imediatamente as pressões dos aliados do PP, do PTB, do PL e talvez até do PT. Trata-se, portanto, de uma questão em aberto e de tempo. Outros acertos prévios para a conversa Lula-Severino: o deputado não deveria pedir o que o presidente não poderia lhe dar, caso de um apoio público, nem discutir nomes à sua sucessão. ### Lula quer ficar longe de crise na Câmara O presidente Lula quer ficar o mais longe possível da crise que, neste caso, é exclusiva da Câmara. Nem quer se vincular com Severino, nem quer mergulhar ostensivamente nas articulações para sucedê-lo. O Planalto tem candidato e atua, mas, quanto mais por trás dos panos, melhor para Lula. Desde a semana passada, interlocutores de Severino passaram a sondar o Palácio do Planalto sobre a possibilidade de um encontro do presidente da Câmara com Lula. A princípio, Lula resistiu, pois não queria uma conversa sem caráter institucional. O deputado João Caldas (PL-AL), que esteve ontem com o presidente da Câmara, disse que o discurso-despedida de Severino não deverá fazer ataques contra o governo, mas servirá como prestação de contas de sua passagem-relâmpago (de sete meses) pela presidência da instituição. ?Ele vai lembrar dos avanços que promoveu na Câmara e dos projetos que foram aprovados sob sua liderança?, disse Caldas, quarto-secretário da Mesa Diretora. ?Ele não tem ódio nem mágoa,? disse. Segundo Caldas, o discurso de despedida ainda não estava concluído. ?Dependendo da conversa, ele pode até adiantar sua manifestação pública?, afirmou. Em sua defesa, Severino falará que não é corrupto e que não pegou mensalinho, como acusou o empresário Sebastião Buani. Sucessão O presidente do PMDB, Michel Temer (SP), afirmou ontem que só falará sobre a sucessão da presidência da Câmara depois que o atual presidente, Severino Cavalcanti (PP-PE), anunciar sua decisão. Severino deverá renunciar ao mandato amanhã. ?Essas coisas dependem da conjuntura, dos ajustamentos que se fizerem, das necessidades que a Câmara tiver em relação ao novo presidente. Só falo quando o presidente atual anunciar sua decisão.? Sobre a adoção da tradição de a maior bancada ficar com a presidência da Casa, Temer disse que o critério deve ser quem representar ?globalmente? a Câmara. O presidente do PMDB disse que já conversou com o vice-presidente José Alencar, mas que ele não tomou nenhuma decisão. Recém-saído do PL, legenda envolvida nas acusações de mensalão, Alencar tem até o próximo dia 30 para se filiar a um partido se quiser disputar as eleições de 2006. Os mais prováveis destinos dele hoje são o PSB e o PMDB, partido pelo qual entrou na política há 11 anos. Temer disse que não acha que haverá um grande número de filiados para o PMDB. ?Dez a 15 deputados não acredito, mas é muito provável que mais quatro ou cinco deputados venham para o partido?, avaliou. ### Conselho adia processo contra Severino O presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), adiou para amanhã a abertura da representação contra o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE). ?Vamos aguardar, já que existe a possibilidade de renúncia?, disse o deputado Ricardo Izar, que iria abrir o processo hoje. Com a renúncia, o presidente da Câmara Severino Cavalcanti ficaria livre do processo e, com isso, preservaria seus direitos políticos em uma eventual candidatura no ano que vem. Discurso O presidente da Câmara passou o domingo reunido com assessores e correligionários fazendo anotações para seu discurso de renúncia ao mandato, na quarta. Severino disse anteontem a vários correligionários que pretende disputar a eleição de 2006 e espera voltar a ser deputado federal em 2007. Severino dá como certa a sua cassação agora se ficar no cargo. Por isso, renunciará para não ficar inelegível - quem é cassado fica banido da vida política por oito anos. No discurso de amanhã, vai se dizer perseguido politicamente. O texto do discurso será redigido por seus assessores. Vários estiveram no domingo durante todo o dia na residência da presidência da Câmara. Severino Cavalcanti deve fazer uma recapitulação de toda a sua trajetória política, iniciada há 42 anos. Severino também dedicará um trecho de sua fala a refutar a acusação de que recebia propinas de um empresário do ramo de restaurantes. Para a abertura da representação, a Mesa Diretora ainda deve encaminhar o processo ao conselho. O encaminhamento depende da assinatura de Severino. O presidente da Câmara havia declarado que enviaria o processo no início desta semana. ### Lula sabia do mensalão, afirma Gabeira O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) disse ontem não ter dúvidas de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha conhecimento da prática do mensalão - pagamento em troca do apoio de parlamentares. Gabeira, 64, afirmou também que irá defender em plenário a cassação do ex-ministro José Dirceu (PT-SP). ?Claro que o presidente Lula sabia [do mensalão]. Ele está escondido, agarrado no braço de Juscelino [Kubitschek], mas é claro que ele sabia?, disse o deputado, em referência a recentes declarações de Lula sobre ser vítima de conspirações semelhantes às sofridas por Juscelino. Gabeira foi o sétimo sabatinado pela Folha de S.Paulo neste ano. Participaram do debate a colunista da Folha e vereadora em São Paulo Soninha Francine (PT), o editor de ?Cotidiano?, Rogério Gentile, e a diretora da Sucursal do Rio, Paula Cesarino Costa. O colunista Clóvis Rossi coordenou o evento. Questionado sobre um eventual impeachment de Lula, Gabeira afirmou que, só em três ou quatro meses, após a conclusão de todas as investigações, haverá base legal para discutir isso no Congresso. Quanto a Dirceu e aos demais parlamentares citados no escândalo, ele defendeu a cassação. ?Nenhum Parlamento pode aceitar que um dirigente político organize um processo de compra de deputados e de transferência de deputados. Dessa maneira, acho que foi um crime contra a democracia?, disse. Ao defender a cassação de Dirceu, o deputado foi aplaudido pela platéia. ?Acredito que ele [Dirceu] se perdeu pelo caminho. E, pelos dados que eu tenho, votarei pela sua cassação.? O deputado falou dos ?momentos trágicos? que teria presenciado antes de se desfiliar do PT, em outubro de 2003. ?Eu vi a ocupação partidária. Não denunciei à época porque isso não era muito claro. Foi horrível. Tiraram muita gente competente para colocar gente menos competente. Começaram a desviar dinheiro para campanhas do PT. Foi horrível?, disse. Um dos momentos trágicos citados por ele foi a substituição da antiga direção do Inca (Instituto Nacional do Câncer) por um aliado petista. No início da gestão de Lula, em 2003, entrou Jamil Haddad (PSB) para dirigir o hospital - cargo que ocupou apenas quatro meses. ?É verdade que ele [Haddad] foi médico, mas câncer ele só conhece o do horóscopo?, ironizou Gabeira.