Nacional
Severino renuncia a mandato, mas promete voltar
Brasília - O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), renunciou ao cargo e ao mandato parlamentar em discurso na tarde de ontem. Ele é o primeiro presidente da Câmara na história a renunciar e o quarto deputado que perde o mandato desde o início da série de escândalos, em maio deste ano. Os outros são Valdemar Costa Neto (PL-SP) e Carlos Rodrigues (PL-RJ), que renunciaram, e Roberto Jefferson (PTB-RJ), cassado. O ex-presidente da Câmara atribuiu ontem à ?elitezinha? da Câmara, chamada por ele de ?os donos do Congresso?, a responsabilidade por arregimentar forças ?antagônicas, poderosas e destruidoras? e insuflar seus ?cães de guerra? para apeá-lo do cargo. Segundo Severino Cavalcanti, isso se deu porque ele deu voz a deputados que eram alijados das decisões da Casa e ?desdenhosamente chamados baixo clero?. Encerrou seu discurso mostrando seu principal objetivo com a renúncia, evitando uma quase certa cassação: ?Voltarei. O povo me absolverá?, indicando que será candidato a deputado federal no próximo ano. No instante em que Severino encerrava sua fala, foi ouvido um grito que partiu das galerias: ?Vai embora, Severino!? Ele iniciou seu discurso de renúncia citando sua infância pobre em João Alfredo (PE) e dizendo que não precisou de livros para conhecer as ?agruras do Nordeste?. Apesar disso, abriu a fala fazendo referência à obra Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909): ?O sertanejo é, antes de tudo, um forte?. ?O menino pobre de João Alfredo tornou-se o presidente da Câmara dos Deputados. Presidente depois de uma eleição disputadíssima, limpa, democrática?, afirmou. Severino atacou bastante a imprensa e chegou a reclamar da forma como acha que a liberdade de imprensa é exercida. ?Em nosso País, liberdade de imprensa tem sido a porta aberta para suspeitas sem comprovação, para acusações sem provas, para a destruição de reputações?. Severino disse que deixa a Câmara como político endividado e que não tem aposentadoria, porque sacou o saldo de sua contribuição previdenciária na Câmara para pagar dívidas de campanha. ?Senhores e senhoras, diante de tantas falsas acusações, falo a verdade: Severino Cavalcanti empobreceu com a política?. Por fim, disse que determinou ao filho José Maurício que abandone ?imediatamente? a função de superintendente regional do Ministério da Agricultura em Pernambuco. ?Para me antecipar às eventuais acusações de fisiologia?, argumentou. Com a renúncia de Severino Cavalcanti (PP-PE), o inquérito que investiga seu envolvimento no suposto mensalinho pode voltar para a primeira instância. O procurador-geral da República, Antônio de Souza, havia enviado ao Supremo Tribunal Federal, há uma semana, um parecer pedindo que o tribunal instaurasse o inquérito. Ele solicitou também a quebra de sigilo bancário e telefônico de Severino. ### Tumulto marca final de discurso O final do discurso de renúncia do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) à presidência da Câmara foi marcado por tumulto e manifestações nas galerias da Casa. No plenário, no entanto, os parlamentares não se manifestaram da mesma forma que o ?discurso de despedida? do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que foi aplaudido. Severino foi recebido com frieza por parte de seus colegas. Nas galerias, uma professora de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Vilma Pessoa, de 44 anos, gritou: ?Vai embora, Severino, corrupto, já vai tarde?, em meio à ofensas ao presidente da Casa e aos demais parlamentares. Vários estudantes que estavam do outro lado da galeria começaram a se manifestar e a gritar: ?sem mensalinho, sem mensalão. Solta o dinheiro para educação?. Devido às manifestações, o primeiro vice-presidente da Casa, o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL), assumiu os trabalhos e pediu o esvaziamento das galerias. A partir desse momento, começou um tumulto generalizado nas galerias, com troca de socos entre seguranças e manifestantes. Três estudantes foram detidos e liberados, em seguida encaminhados ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito. Nesse meio tempo, Severino deixou discretamente o plenário pela saída reservada somente a parlamentares, por trás da Mesa Diretora.