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Kirchner sai cedo e Ch�vez bate-boca
| Luciana Coelho, Ana Flor e Eduardo Scolese Folhapress Brasília - Assim como já havia ocorrido em maio passado durante a Cúpula América do Sul-Países Árabes, o presidente argentino, Néstor Kirchner, deixou ontem de forma antecipada a Primeira Reunião de Chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações, contribuindo ainda mais para o esvaziamento do evento. Kirchner, aliás, nem sequer participou da reunião. Sua passagem por Brasília se restringiu a um jantar na quinta-feira à noite com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o colega venezuelano Hugo Chávez, com quem assinou acordos bilaterais. Ontem, assessores do Palácio do Planalto tentaram minimizar a ausência do argentino. Irritado com o questionamento da imprensa e irônico em suas respostas, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou: ?Vocês [repórteres] escrevam o que vocês quiserem. O Kirchner voltou porque tinha compromissos eleitorais na Argentina?. Lula, porém, decidiu não poupá-lo de críticas, mesmo que de forma indireta e sem citá-lo nominalmente. Primeiro, na abertura de reunião da recém-criada Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), atacou os chefes de Estado que ficam ?confinados? em seus países. Mais tarde, em fala no encerramento da cúpula, foi mais direto em seus ataques. ?Nem sempre a gente consegue fazer o debate político, porque muitas vezes nós começamos uma reunião com 12 presidentes e a terminamos com quatro presidentes, cinco presidentes.? Outra alfinetada de Lula ao argentino ocorreu por meio de rasgados elogios a Eduardo Duhalde, presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul e um dos principais adversários políticos de Kirchner. Bate-boca O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deu início a um inesperado bate-boca durante o encerramento da reunião. Quando as delegações presentes estavam prestes a aprovar a declaração final do encontro, Chávez reclamou do documento, que, na opinião dele, definia a estrutura institucional da Comunidade sem que o assunto tivesse sido discutido na reunião. ?A Venezuela não dá como aprovado, e nem se debateu, a estrutura institucional da comunidade?, disse o líder venezuelano. ?Não aceitamos que se diga que há uma estrutura aprovada.? O motivo da insatisfação de Chávez era o fato de uma proposta apresentada em uma carta enviada por ele e pelo presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, aos outros líderes sul-americanos não ter sido discutida durante a cúpula. Chávez e Vázquez defendiam a criação de um órgão chamado Comissão Sul, com o objetivo de elaborar um plano estratégico para promover a integração da América do Sul entre 2005 e 2010. Em tom conciliador, o presidente Lula sugeriu que o líder venezuelano aceitasse a aprovação do documento e, em contrapartida, os outros países da Comunidade concordariam em se reunir dentro de 90 dias para discutir as propostas de Chávez e Vázquez. O líder venezuelano recuou e, finalmente, resolveu aceitar um acordo. ### Presidentes discutiram área de livre comércio na região Para a reunião de ontem, o governo brasileiro convidou 11 chefes de Estado da América do Sul. Cinco deles enviaram apenas representantes (Colômbia, Uruguai, Guiana, Suriname e Argentina), entre os quais vice-presidentes, chanceleres e embaixadores. Marcaram presença os presidentes de Peru, Bolívia, Chile, Equador, Venezuela e Paraguai, além do Brasil. O encontro de cúpula dos 12 países teve como principais enfoques a discussão em torno da criação de uma área de livre comércio na América do Sul e a coordenação política na região, além da chamada conexão física pela infra-estrutura (incluindo financiamentos do BNDES). Ontem, Alejandro Toledo passou do Peru ao Brasil o comando temporário da Comunidade Sul-Americana de Nações. Em diferentes falas, Lula disse que está na ?hora da ação, não da retórica?, que os chefes de Estado não podem ?perder a paciência? nas negociações e que atualmente é ?mais otimista que a média dos seres humanos?. Ao final de seu discurso de encerramento da cúpula, sugeriu que, em certos casos, tem viajado contrariado ao exterior. Neste mês, o presidente passará por Portugal, Espanha, Itália e Rússia. ?Entretanto, como eu acredito que a arte da política é a arte do diálogo, é a arte da conversa, é a arte da convivência, é o olhar, é o pegar na mão, é a divergência, é a convergência, eu, mesmo contrariado, tenho feito muitas viagens.? Lula deixa de ser líder Luiz Inácio Lula da Silva perdeu para o presidente chileno, Ricardo Lagos, o posto de ser reconhecido pela elite latina como o melhor presidente da região, segundo pesquisa do instituto Zogby International para a Universidade de Miami, divulgada esta semana. Lula recebeu 18% dos votos de 523 entrevistados - representantes dos setores públicos e privados, da mídia e do meio acadêmico - entre 17 de agosto e 15 de setembro, no México, Colômbia, Chile, Venezuela, Brasil e Argentina. Lagos teve 32% dos votos. Em outubro de 2003, em pesquisa similar, Lula, que estava no primeiro ano de gestão, foi considerado o melhor presidente latino-americano por 34% das elites dos países da região. Seu colega chileno ficou com 20% dos votos. Lagos é visto como um líder pragmático. Quase metade (46%) dos que votaram no chileno citaram sua capacidade de fazer as coisas acontecerem. Lula, por sua vez, foi mais apreciado (32%) por sua cooperação com líderes regionais e mundiais.