Nacional
Lula cobra ofensiva de bancada do PT
Brasília - De olho nas eleições de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou em reunião ontem com a bancada do PT maior empenho na defesa e divulgação dos projetos do governo. Em três anos de governo, foi a primeira reunião do trabalho do presidente com a bancada. O presidente Lula saiu em defesa dos sete deputados federais do PT que correm o risco de perder o mandato devido à suspeita de envolvimento com o escândalo do mensalão. Em reunião com 67 dos 83 deputados da bancada, no Palácio do Planalto, Lula disse que não considera os ?companheiros? ?corruptos? nem portadores de ?doença contagiosa?. ?Não são corruptos? Apesar disso, o presidente reconheceu que o PT cometeu erros no episódio, o principal deles não ter assumido de início a história que hoje é sustentada como verdadeira pelos envolvidos - a de que os recursos provenientes do mensalão foram usados para despesas eleitorais não declaradas à Justiça, o chamado caixa dois. ?Vocês não são corruptos. Vocês cometeram erros, mas não de corrupção. Todos vocês são construtores do PT. Eu mesmo já sofri acusações injustas e sofri muito?, disse, em frase reproduzida por presentes ao encontro. O presidente, também segundo o relato de deputados, afirmou que ?eles [petistas ameaçados de cassação] são companheiros que não têm nenhuma doença contagiosa que nos impeça de conviver com eles?. Antonio Palocci (Fazenda), um dos quatro ministros que participaram de todo o encontro, também manifestou solidariedade aos correligionários acusados. ?Vocês estão pagando um preço muito alto por uma coisa que é reprovável, mas que foi feita por todos os partidos e, portanto, não pode significar o banimento da vida pública?, disse, também de acordo com os relatos. Na saída, o ministro Jaques Wagner (coordenador político do governo), explicou a fala de Lula. ?É natural que ele diga para aqueles que estão ameaçados de perder o mandato da [sua] solidariedade no sentido de que, mesmo quando alguns erram e vão ser condenados, nem por isso devem perder o respeito e a solidariedade. Não é no sentido de botar panos quentes.? ### Reunião foi marcada por formalidade O encontro do presidente Lula com os deputados da bancada do PT começou pouco depois das 10h e terminou às 13h30, e foi marcado pela formalidade - dos deputados, falaram apenas 11 sorteados entre os 67 presentes - e pelo constrangimento. Dos sete ?cassáveis?, só João Magno (MG) não compareceu. José Dirceu (SP), até junho um dos principais ministros de Lula, não trocou palavra com o presidente. Apenas recebeu um cumprimento, como todos os outros, mas foi citado uma vez por Lula durante sua fala. ?O Zé, que tá aqui, é prova que desde o início do governo eu sou o maior crítico da nossa política de comunicação?, disse o presidente, segundo os presentes, ao responder a avaliação de que o Planalto se comunica mal. Apesar de reconhecer erros do PT que contribuíram para a crise, Lula afirmou que o partido paga um preço desmesurado pelo que fez e centrou fogo em setores da oposição - dizendo que o PT não é igual a eles - e em uma CPI em especial, a dos Bingos, que convocou recentemente seu chefe-de- gabinete, Gilberto Carvalho. ?É a CPI do fim do mundo. Trata-se de tudo lá, menos de bingos?, disse o presidente, segundo os deputados. A CPI investiga nos últimos tempos a acusação de que a morte do prefeito Celso Daniel (Santo André), em 2002, teria relação com um esquema de corrupção do qual Carvalho participaria. A exemplo de encontros anteriores, Lula ouviu muita reclamação da bancada - que pediu mudanças nos rumos da política econômica, mais gastos com investimentos e maior interlocução - mas rebateu cobrando dos deputados maior defesa dos feitos do governo. Segundo Lula, seus dois anos e nove meses de governo resultaram em mais realizações do que os oito de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Outro alvo de Lula no encontro foi a imprensa, que teria, segundo o presidente, predileção exclusiva por assuntos relacionados à crise. Além de Palocci e Wagner, participaram do encontro Dilma Roussef (Casa Civil) e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Todas as frases de Lula foram relatadas pelos presentes pelo fato de o encontro não ter sido aberto à imprensa. ### Oposição ironiza declarações feitas por Lula Ex-integrantes da bancada do governo Fernando Henrique Cardoso receberam com ironia e desdém as comparações feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a reunião de ontem com a bancada do PT. No encontro realizado no Palácio do Planalto, Lula criticou os deputados petistas por não defenderem ?as realizações? do governo, que, segundo ele, são ?maiores do que os oito anos do Fernando Henrique?. ?Psicótico e nefelibata? O deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ) chamou o presidente Lula de ?psicótico?. ?Só Freud [Sigmund Freud, o pai da psicanálise] explica esse comportamento. É uma atitude típica de uma pessoa que sabe da sua culpa?, disse. ?Pois exagera nas mentiras para se convencer que são verdades?, completou. O deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) foi líder da bancada peemedebista durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Integrante da ala oposicionista ao atual governo, Geddel ridiculariza as declarações do presidente Lula. ?Cada vez mais, Lula assume a postura de um nefelibata [pessoa que vive nas nuvens]. Alguém precisa falar para o presidente que os petistas não defendem o governo porque a cota de mentiras está sendo toda gasta na CPI?, afirmou o deputado. Ex-líder do governo no Congresso durante do governo FHC, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) afirma que os petistas têm dificuldades para defender o governo porque acordos nunca são cumpridos por ministros. ?Isso não acontecia na época do Fernando Henrique. Hoje em dia, a palavra do líder do governo [Arlindo Chinaglia (PT-SP)] não vale nada.?, disse. CPI dos Bingos Durante a reunião com a bancada petista, Lula voltou a criticar as ações da CPI dos Bingos, chamando-a de ?CPI do Fim do Mundo?. A comissão é o principal alvo do presidente porque aprovou uma acareação entre o chefe de gabinete dele, Gilberto Carvalho, e dois irmãos do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel que denunciam esquema de corrupção naquele município. Autor da proposta da acareação, o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), criticou as declarações de Lula. ?Há três meses, o presidente disse que tinha de se ?apurar tudo doa a quem doer?. E está doendo nele [Lula] próprio, já que seu chefe-de-gabinete está envolvido?, disse. Lula também culpou o Senado por não ter aprovado a Medida Provisória que proibia o funcionamento de bingos no País. ?O presidente acha que a vitória na Câmara dos Deputados lhe deu novo fôlego, por isso resolveu dizer tudo isso agora. Mas ele se esqueceu que, na Mensagem do Governo ao Congresso de 2004, a Casa Civil propôs a legalização dos bingos?, disse Agripino. Mas a maioria dos deputados petistas considerou positiva a reunião com Lula. A estratégia do governo no último ano de mandato foi o principal tema da reunião. Conforme o deputado Luiz Sérgio (RJ), a renúncia dos deputados petistas que podem sofrer um processo de cassação não entrou na pauta de discussão. ?Em nenhum momento se tratou dessa questão. Esse tema não esteve em pauta?, afirmou. A bancada, de acordo com Luiz Sérgio, pediu queda na taxa de juros, mais diálogo com o governo e redução no número de medidas provisórias.