Nacional
Escolta rel�mpago nas noites de balada
| Marcia Cezimbra Agência O Globo Rio de Janeiro - Os jovens de classe média alta do Rio de Janeiro, sob o domínio do medo que ronda a cidade, seguem o exemplo dos milionários e só saem para se divertir escoltados por um segurança particular. É o personal police, um profissional, regularizado ou clandestino, que se tornou indispensável em baladas da Zona Sul e da Barra da Tijuca. Por R$ 50 em média, o personal police pega o jovem por volta de 22h em casa e, com o carro dos pais, leva-o para shows, festas e boates. Entra nos lugares, muitas vezes armado e, se tiver pancadaria, retira o ?segurado? da linha de fogo. No fim da noitada, ao amanhecer, devolve-o intacto, com chaves e carro na garagem. O personal police foi a solução encontrada por mães e pais de adolescentes e jovens de 18 a 25 anos, apavorados não só com a violência das ruas, mas com a das próprias festas e shows, onde brigas e consumo de drogas são uma rotina inevitável. A uma semana do referendo sobre a proibição ou não da comercialização de armas, a classe média já mostra que vai para as ruas armada, mesmo sem comprar uma única pistola. Alívio O personal police foi um alívio, por exemplo, para os embalos de sábados à noite da empresária Luciana Santos, de 52 anos, que até chegou a bater com o carro, de madrugada, quando buscava, sonolenta, o filho, de 16, numa festa. ?Agora durmo em paz. Tremia de medo de dirigir de madrugada e da pancadaria que rola nos shows. Agora o personal police pinça o meu filho de qualquer briga e o devolve inteiro. Não tenho essa bola toda para ter segurança, mas R$ 50 por sábado nem acho caro?. Muitas amigas de Luciana adotaram a prática de escolta relâmpago para as noites dos filhos. A empresária Dayse Antunes Coimbra convenceu a filha Michelle Freitas Lima, de 24 anos, a aceitar um personal police à noite, depois que a garota foi assaltada, com arma encostada na cabeça. O serviço de personal police pode ser contratado em grupos de meia dúzia, por exemplo, para garantir uma festa num condomínio, evitando penetras que vão brigar, ?filmar? os convidados e passar informações para bandidos ou vender drogas. Para todos os gostos Quem tem carro blindado leva os amigos, quem não tem pode alugar um, em empresas como a J. R. Durand. Há seguranças de todos os tipos. Desde os ilegais (policiais civis ou militares que fazem bicos) aos regularizados, como os agentes da Forseg, do comandante Aécio Malaguti, que adverte para o perigoso outro lado da moeda da segurança privada. ?Além de inexperientes, essas babás armadas podem ser aliadas de bandidos. Nesses casos, o personal police é um risco?, alerta o comandante Aécio Malaguti. ### AGÊNCIA O GLOBO A jovem Michelle Chelle Frentias Lima, de 24 anos, sempre achou ?ridícula? a insistência da mãe, Dayse Antunes Coimbra, de contratar um segurança para levá-la a festas e shows. A briga vai-não-vai para a balada era semanal. Até que, há 15 dias, depois de Michelle sofrer um assalto à mão armada, de manhã, em Botafogo, a garota se rendeu: agora só vai para a night com um personal police. ?É muita invasão de privacidade. O cara ouve o que você fala, sabe com quem você quer ficar, vê tudo o que acontece. Para a noite, tudo bem, não tem jeito. De dia, não. É demais?, diz a garota. PENETRAS Há uma semana, Michelle e os amigos deram uma festa no condomínio onde moram, na Barra, para 200 pessoas, com meia dúzia de seguranças para proteger a turma. Exigência da mãe. ?O perigo são os que vêm para brigar e para roubar. O penetra que vem só para se divertir nem é mais problema?, conta Michelle. ?Os penetras perigosos hoje vêm bem vestidos para fazer contatos para venda de drogas e para fornecer informações sobre os convidados aos bandidos. O Rio está assim. Meus filhos dizem que eu sou estressada, mas, depois da filha assaltada e do filho atacado a pedradas na mesma semana, querem que eu acredite que está tudo bem? Vou blindar o carro e agora eles só saem à noite com seguranças?, declara Dayse. Casada com Antunes (Tunico), um dos irmãos do craque do futebol Zico, Dayse e sua família têm casas de espetáculos, entre elas o Olimpo, no Méier, e o Via Show, na Via Dutra, além de pizzarias, Mister Pizza, na Ilha do Governador. TRECHOS PERIGOSOS Os filhos, que freqüentam esses lugares, atravessam trechos considerados de alto risco de madrugada: Linha Vermelha, Linha Amarela, Túnel Rebouças. Dayse contratou seguranças indicados pela equipe que trabalha em suas casas noturnas e por policiais amigos de seu marido. O filho Fábio, de 25 anos, ainda resiste a sair escoltado e, no sábado passado, acabou levando as sobras de uma briga numa festa em Botafogo e terminou com pé quebrado e vários amigos hospitalizados. ?Isso é vida??, queixa-se Dayse, esgotada. ### Quem é o personal police da noite? Para o presidente do Sindicato dos Vigilantes do Estado do Rio, Fernando Bandeira, o segurança clandestino ? geralmente um policial ou ex-policial que está fazendo um bico ? pode representar um risco ainda maior que enfrentar a guerra civil das madrugadas cariocas. ?Este segurança clandestino tem capacidade para enfrentar uma situação difícil? A arma dele é registrada? O mais grave é que ele pode ser um facilitador de seqüestros, um sujeito conivente com os assaltos?, alerta Bandeira, instrutor da empresa de transporte de valores Brinks. Os seguranças clandestinos, segundo ele, representam o triplo ? cerca de 150 mil ? dos 50 mil registrados em 120 empresas em todo o Estado, segundo levantamento feito pelo sindicato no final do ano passado. Eles trabalham em residências particulares, em condomínios, em restaurantes, em ruas desertas abandonadas pelo poder público. Logo são conhecidos e se tornam camaradas da vizinhança e indicam ?colegas? para escolta de jovens na noite. ?O próprio PM que toma conta de uma rua, que é conhecido no bairro, contrata uns dez homens para essa segurança. Esses homens muitas vezes nem são da polícia, muito menos treinados para fazer escolta. As pessoas que estão contratando segurança particular devem se lembrar que há este outro lado da moeda?, diz Bandeira. O sindicato, segundo ele, luta com a Polícia Federal para que fiscalize o personal police irregular, evitando assim que a violência se agrave cada vez mais. Um escolta relâmpago credenciado, segundo Bandeira, custa de R$ 80 a R$ 150 por noite, dependendo do carro, se é da empresa ou da própria família contratante. Já o empresário J. R. Durand, da empresa de segurança que leva o seu nome, com 12 anos no mercado, diz que o preço mínimo de um personal police por noite é R$ 150, à parte o preço do carro, que varia de acordo com o modelo e com o tipo de blindagem. Ele trabalha com 80 funcionários contratados e vários free lancers oriundos das polícias Civil e Militar, do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal. Para ele, o vigia da night a R$ 50 é piada. ?Essa segurança é insegurança. É preciso cuidado na hora de contratar uma escolta, mas vejo que essa mania aumentou demais este ano. E, enquanto as autoridades competentes não derem um jeito nessa situação terrível, as pessoas só podem sair de casa à noite fazendo um mapa, um plano para onde ir e por onde ir, sempre acompanhadas por seguranças?, diz o empresário, que tem uma filha de 15 anos que só sai com dois seguranças no carro. ?Eu moro na Avenida Oswaldo Cruz, no Flamengo, e ouço tiroteios todo fim de semana. Até que as autoridades mudem essa situação, as pessoas vão pagar R$ 150 para voltar para casa vivas?. ### Segurança particular causa polêmica AGÊNCIA O GLOBO Qual é o personal police mais seguro? Esse é outro tema bastante polêmico entre os empresários de segurança e as famílias ameaçadas pela violência sem precedentes do Rio de Janeiro. Se o empresário J. R. Durand garante a segurança da filha adolescente e de duas ou três amigas com uma escolta armada dentro de um carro, o comandante Aécio Malaguti, da empresa Forseg, que atua no mercado há dez anos, e com 750 funcionários contratados, traça o perfil do melhor personal police: ele não vai dentro do carro do jovem, mas em motocicletas ou em carros logo atrás, sem andar grudado, para não dar na vista. ?É um risco botar o segurança dentro do carro. A escolta mais simples é feita com dois agentes de motocicleta, logo atrás do carro. Eles passam despercebidos na moto e estão prontos para agir?. É assim que Malaguti faz com a sua própria filha adolescente de 14 anos. Ela só sai com as amigas acompanhada por dois seguranças numa motocicleta. ?Minha filha adora os shows do MC Marcinho. Ela pode ir, desde que acompanhada por dois agentes de motocicleta atrás dela e das amigas. Eles entram no show, ficam à distância e ela fala com eles o tempo todo pelo rádio Nextel. Eles sabem de tudo, mas se ela tem namorado ou se dá uns beijinhos, isso não quero nem saber?, diz o pai zeloso. Para Malaguti, a onda de escoltas relâmpago de R$ 50 a noite agrava os riscos da violência da cidade. ?Essa escolta relâmpago que leva um jovem a uma festa por R$ 50 é na verdade uma babá armada. Isso não é segurança e pode agravar a situação. Alguém armado onde há jovens não é aconselhável. Fora que esse policial ou ex-policial que faz esse trabalho pode ter virado um bandido?, afirma acrescentando: ?Felizmente a Polícia Federal está fiscalizando bastante as boates para evitar essa segurança informal que, muitas vezes, é responsável pelos casos de pancadaria. Hoje não há boate sem uma pancadaria?, comenta. A escolta relâmpago da Forseg, com dois agentes numa moto, custa R$ 210 a hora. Se for uma escolta mais reforçada, de três agentes num carro, o preço sobe para R$ 290, segundo Malaguti. Se o carro for blindado, os preços podem subir para R$ 800 a R$ 1.500. A Forseg faz em média 12 escoltas relâmpago nos fins de semana e, durante a semana, uma média de uma a duas por dia. Os clientes de fim de semana são jovens que vão para noites perigosas. Os da semana são empresários de São Paulo que vêm ao Rio trabalhar ou se divertir com segurança, estrangeiros que querem passear pela cidade sob a proteção de escoltas armadas e carros blindados ou simplesmente mulheres ricas que querem ir em paz ao cabeleireiro ou ao shopping. ?O Rio, depois das 22h, é dos bandidos. Seja na Tijuca, na Barra, em Ipanema ou em Copacabana. E depois da 1h, o terror é ainda pior. Você pode encontrar com um bando de bandidos armados de fuzis. A situação do Rio é muito triste?. ### Serviços são usados pela classe média Todo esse clima de guerra poderia mudar, segundo Malaguti, com uma segurança efetiva na cidade. Ele acredita que os cariocas terão mais uma prova de que é possível um Rio de Janeiro seguro e em paz em 2007, durante os Jogos Pan-Americanos. ?Vamos ver em 2007. Vão chamar o Exército e o Rio de Janeiro ficará novamente em paz. Depois, infelizmente, a violência voltará?. Até 2007, porém, as famílias de classe média só contam mesmo é com o personal police, seja ele arriscado ou não. Afinal, os pequenos empresários e profissionais liberais dizem que não têm rendimentos milionários para contratar um segurança ?de verdade?. Mas para impedir que ?vândalos? ataquem o playground de um edifício da Zona Sul durante uma festa de 15 anos, o personal police indicado pelo segurança do clube, do restaurante ou do PM da esquina até que quebra um galho. Foi o que fez Juliana Garcia, gerente de uma loja de roupas em Ipanema, para garantir a festa de 18 anos da filha, num play do Humaitá. Ela não chega a contratar segurança para levar a filha nas festas e shows, mas, a conselho das amigas, que acharam ?um absurdo? ela dar uma festa sem seguranças, ela contratou dois ?colegas? do segurança da loja onde trabalha por R$ 60 cada um. A dentista Míriam Lopes, no entanto, teme que o personal police se torne uma ameaça de assédio sexual. ?Vou deixar minha filha sair todo sábado com um ?armário? saradão? Nem pensar! Ela vai acabar grávida do personal police?. Essa idéia, porém, pareceu simpática para sua amiga, a fisioterapeuta Silvia Martins. ?Ih, se o personal police for bonito vou querer um para sair comigo aos sábados?, planeja. Para a executiva Claudia Ribeiro, a onda de sair com personal police a tiracolo é mais um dos absurdos da violência do Rio. ?Você pagar impostos para que o Estado garanta a segurança nas ruas e, ainda, pagar um segurança particular para sair à noite! Que Estado é esse??