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Cinema com lugar marcado, moda em SP
| SILVANA ARANTES Folhapress São Paulo - Quando uma lei ameaçou obrigar os cinemas de São Paulo a vender ingressos com lugares numerados, o presidente da Cinemark, Valmir Fernandes, levantou sua voz contrária e se tornou o principal opositor da medida. A idéia, originalmente do vereador José Mentor (PT), surgiu em 1993 e se arrastou até 2002, quando outra lei excluiu os cinemas da relação de estabelecimentos obrigados a manter venda numerada de ingressos ao público. Hoje, Mentor está ameaçado de cassação de seu mandato - em análise no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. E Fernandes inaugurou, na semana passada, em São Paulo, o primeiro complexo Cinemark no País com venda numerada de ingressos (Cine Iguatemi). Como diz a palavra cantada do ministro da Cultura, Gilberto Gil, ?e-ê, mundo dá volta, camará?. Fernandes afirma, porém, que não houve mudança em sua opinião sobre o tema. ?Continuo achando a lei da venda numerada uma estupidez. O governo não tem que cuidar disso?, diz. A discordância do exibidor, líder no mercado brasileiro com 310 salas, é quanto à obrigatoriedade da medida. ?O mercado vai evoluir para isso [a venda numerada] naturalmente. Mas temos que ter o direito de voltar atrás se não der certo?, afirma. A ?evolução? que permite ao espectador escolher o seu lugar na sala parece ser mesmo tendência no mercado paulistano. No mês passado, a rede Playarte de cinemas passou a adotar o método em dois de seus complexos - os cines Iguatemi e Market Place. O Cine Bombril, atualmente ocupado com a programação da 29ª Mostra de Cinema de São Paulo, será o próximo adepto da novidade. As duas salas (que já foram Cinearte e renasceram com o patrocínio da Bombril) pertencem a Adhemar Oliveira e Leon Cakoff, organizadores da Mostra. Oliveira planeja testar uma regra particular para o sistema da venda numerada: ?Apagou a luz, a numeração não vale mais?. A intenção é evitar que o espectador retardatário perturbe os demais, procurando seu lugar. Afinal, o objetivo dos exibidores com a venda numerada é ampliar o conforto do freqüentador de cinema, não o contrário. O curioso na venda numerada de ingressos é que ela contraria um preceito fundamental do mercado exibidor: o de que o consumo de cinema é determinado por impulso. Desse princípio surgiu e se multiplicou o formato de salas multiplex, com sua oferta pródiga de títulos em horários não coincidentes. A base da fórmula multiplex é garantir alternativas para que o espectador decida a que filme irá assistir no momento de comprar o ingresso. É o contrário disso o que a Cinemark espera do público de seu novo complexo no Iguatemi. Supõe-se que o espectador chegará ao local com seu ingresso (numerado) já adquirido pela Internet ou nos chamados totens - terminais eletrônicos. ### Numeração não convence executivos Se o espectador, porém, deixar para comprar seu bilhete na bilheteria, provavelmente não conseguirá mais escolher o seu lugar. Será informado de que ?o sistema? identificará os melhores assentos entre os disponíveis. É um eufemismo para dizer que os bons lugares já têm dono. Essa é a razão por que a venda numerada de ingressos não convence a todos no mercado cinematográfico. ?Para mim, não funciona. Quem vai querer aquelas quatro primeiras fileiras [do Cinemark Iguatemi], por exemplo? Essas você já sabe que não pode vender?, diz Francisco Pinto, diretor de planejamento e expansão da rede Severiano Ribeiro (vice-líder no País, com 210 salas). Pinto afirma que pretende observar a experiência de seus concorrentes com a venda numerada em São Paulo. ?Mas, se fizermos isso [venda numerada], será criando uma zona especial dentro do cinema, com poltronas diferenciadas?. E preços também. Mudança paulatina Para Oliveira, a venda numerada de ingressos será incorporada ao hábito do espectador brasileiro, como ?uma mudança paulatina?. ?Não se faz nada por decreto?, diz, ecoando o argumento antiobrigatoriedade de Fernandes. No futuro, a mudança poderá ir além e se aproximar, por exemplo, do que já é comum em cidades como Buenos Aires. Na capital argentina, os assentos numerados ajudam os atendentes do serviço de bar (mantido em alguns cinemas durante o intervalo de trailer e publicidade na sala, que dura cerca de 20 minutos) a localizar os clientes para a entrega de pedidos feitos anteriormente. |SA