Nacional
Empresa usa m�o-de-obra adolescente
São Paulo - Empresas de empreendimentos imobiliários de São Paulo estão usando adolescentes para fazer propaganda, após proibição do uso de placas e cavaletes com anúncios de imóveis nas calçadas. A medida foi imposta pela prefeitura em setembro para coibir esse tipo de poluição visual que escondia placas de sinalização de trânsito e causava até atropelamentos. Nos fins de semana, principalmente, é comum encontrar menores de idade nas esquinas das principais ruas e avenidas da cidade - a maioria meninas - segurando cartazes, banners e distribuindo folhetos, muitas vezes usando fantasias. A jornada de trabalho é de sete horas, sob sol ou chuva, em pleno trânsito. As empresas que contratam esses adolescentes pagam, em média, R$ 20 por dia. Os jovens não recebem refeições e nem água ao longo do dia. Para usar o banheiro recorrem aos comerciantes das redondezas e até a hospitais. A rotina de trabalho foi flagrada pela reportagem no último fim de semana. O dia de serviço permite 15 minutos de descanso e uma hora de almoço. As refeições quase sempre são feitas nas calçadas, sem condições de higiene. Os jovens que trazem comida de casa guardam a marmita dentro de bolsas e sacolas. O jornal flagrou um grupo de 12 meninas - duas de 15 e dez de 16 anos - que trabalhavam no último fim de semana na divulgação de um edifício na Lapa, na zona oeste. Era hora de almoço e elas estavam deitadas no chão de uma praça. Algumas usavam o banner para não sujar roupa. Indagada sobre o trabalho, T. C., de 16 anos, disse que quase todas as meninas já estão nessa atividade há vários meses. ?Meu chefe é um ignorante. Outro dia sentei um pouco para descansar com a minha colega e ele passou de carro. Quando me viu começou a me xingar e a gritar do outro lado da rua. Eu não sabia que não era permitido duas meninas descansarem juntas. A gente tem de revezar?, contou. Empresas que fazem esse tipo de propaganda afirmaram que terceirizam o serviço e negam a contratação de menores de 16 anos, prática proibida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Duas empresas do setor se manifestaram sobre a contratação de adolescentes. As construtoras Schahin e Cyrela disseram que a contratação de pessoal para a distribuição de panfletos é feita por empresas terceirizadas, mas que têm como regra não utilizar mão-de-obra de jovens com idades abaixo de 16 anos. Em nota oficial, a Cyrela afirmou que irá apurar a contratação de funcionários para a distribuição de folhetos. ?A Cyrela Brazil Realty repudia o trabalho infantil e compromete-se a descredenciar de seu quadro de fornecedores e prestadores de serviços toda e qualquer empresa que venha a desrespeitar a legislação em vigor.? Segundo a construtora, no último fim de semana, a divulgação de seus imóveis era feita pelas empresas Eventos e Triefe Promoções. Procurada, a Schahin disse que já enviou à empresa Eventos, responsável pela divulgação de seus empreendimentos, um comunicado pedindo explicações sobre a contratação de mão-de-obra infantil e condições de trabalho, mas adiantou que não há a contratação de menores de 16 anos. A Eventos afirmou que só contrata maiores de 16 anos, como prevê a legislação. ?Além disso, temos a preocupação com as condições de trabalho previstas em lei?, disse Luiz do Nascimento, um dos diretores da Eventos e representante do Sindvulgue, sindicato que representa as empresas do setor.