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�gua vai jorrar este ano na passarela
PAULA AUTRAN DANIEL PEREIRA O Globo e Globo Online Para conseguir o tetracampeonato, a Beija-Flor precisa dar um banho na Sapucaí. Água não vai faltar: serão 30 mil litros em quatro carros alegóricos para inundar a avenida com ?Poços de Caldas derrama sobre a terra suas águas milagrosas: do caos inicial à explosão da vida - Água, a nave-mãe da existência?, que fala sobre a necessidade de preservação deste importante recurso natural. Iniciando o desfile sob o impacto do big bang do carro abre-alas, a escola de Nilópolis vai deixar para o final outros dois trunfos. No sétimo carro, o vulcão extinto que teria dado origem às águas sulfurosas terapêuticas da cidade mineira homenageada no enredo expelirá água, fogo e fumaça. Em seguida, no último carro - o da necessidade de preservação da natureza - dez habitantes de Atlântida jogarão água no público da arquibancada através de mangueiras embutidas em suas fantasias. Segund Fran-Sérgio, da comissão de carnaval, também haverá água no carro Lendas de Atlântida, onde um rio escorre do cabelo de uma sereia; e no Brasil de Todas As Águas, que tem seis chafarizes jorrando em Iara. Na bateria, os 250 ritmistas baterão fortemente os instrumentos no meio do samba, criando um efeito arrebatador de explosão. O desfile da Beija-Flor está definido para acontecer entre 3h30 e 5h. A escola conta com um total de 4.275 componentes neste ano. Mangueira Se a transposição do Rio São Francisco não flui com facilidade em Brasília, no Rio promete desaguar um carnaval caudaloso. No enredo Das águas do Velho Chico nasce um rio de esperança, o carnavalesco Max Lopes aborda o árido tema entre as lendas, a religiosidade, a culinária e o artesanato da população que vive às margens do antigo Rio Opará. Além do balanço das águas ? 174 bailarinos coreografados por Regina Sauer simularão o balanço das águas, carregando peixes coloridos de acetato para representar a piracema ? a verde-e-rosa colocará na avenida uma espécie de barca do Mississipi lotada. A margem do rio também estará representada, com festas populares, como a carvalhada, e uma procissão, com direito a um carro alegórico em forma de ostensório e um integrante fantasiado de bispo. Qualquer semelhança não passa de mera coincidência: Max esclarece que o bispo não é dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), que em outubro de 2005 fez greve de fome contra o projeto de transposição das águas do São Francisco. ### A maior festa do Brasil canta história Da homenagem inicialmente prevista à Santa Catarina, sobrou o verso ?a santa e bela catarina? do refrão do samba. O que a Imperatriz de Rosa Magalhães levará para a avenida a história, como foi narrada pelo escritor Alexandre Dumas, da passagem pela América do Sul de Giuseppe Garibaldi, italiano que lutou pela liberdade no Brasil. ?Esta história de ?é sal, é céu, é mar? não dá! Começo com o encontro de Dumas e Garibaldi, na Itália. Garibaldi veio para o Brasil porque foi expulso de lá e condenado à morte. Aqui encontrou Anita, que era casada, mas foi viver com ele?, explica a carnavalesca. ?Nosso desfile acaba com Garibaldi voltando para casa como herói. Ele é o quinto mosqueteiro.? Não por acaso, o nome do enredo é ?Um por todos e todos por um?. O ator Murilo Rosa será o Garibaldi da escola, que também levará para a avenida personagens de livros de Dumas, como ?O Conde de Monte Cristo?, ?O homem da máscara de ferro? e o próprio ?Os três mosqueteiros?. Unidos da Tijuca Conhecido como a maior ópera popular do mundo, o desfile das escolas de samba do Rio vai receber a ilustre visita de Wolfgang Amadeus Mozart no ano em que se completam 250 anos de seu nascimento. A Unidos da Tijuca o levará ao palco do Sambódromo para acompanhar ?Ouvindo tudo que vejo, vou vendo tudo que ouço?, uma ópera em sete atos. Segundo o carnavalesco da escola duas vezes vice-campeã carioca, Paulo Barros, o que se verá na Sapucaí será um pot-pourri que passa por marchinhas, pagode e trilhas sonoras, entre outros. O rock marcará presença num dos três carros com alegorias humanas característicos do carnavalesco: em um piso de vidro iluminado à la John Travolta, telão eletrônico ao fundo e forro de malha de lâmpadas, 120 pessoas vão lotar uma discoteca que vai entrar na avenida. O carnaval se fará presente ao longo de todo o espetáculo, especialmente em menções a marchinhas como ?Olha a cabeleira do Zezé?. As baianas, por exemplo, vêm de ?disseram que eu voltei americanizada?. Mozart tem tudo para gostar. PA/DP ### Salgueiro batuca entre vida e morte Num desfile que promete ser cheio de vida, e de morte, o Salgueiro levará ao Sambódromo o enredo Microcosmos: o que os olhos não vêem, o coração sente. O samba já é de sacudir o esqueleto (?A academia do samba chegou?, lembra?). Que o diga a rainha de bateria Carol Castro, cuja beleza, dizem, levanta até defunto. No último carro tem inclusive uma boate no subsolo de um cemitério. ?Não dá para não falar no fim. O cemitério é a única certeza que temos. Nós mesmos nos consumimos, pois os micróbios e as bactérias dentro de nós nos destroem. Só não sabemos se seremos um bom ou mau adubo?, diz a carnavalesca Márcia Lavia, que trabalha ao lado do marido, Renato Lage. Inspirado no documentário Microcosmos, sobre a vida de pequenos animais num bosque, o desfile começa com um olho gigante e telescópios que dão efeito de caleidoscópio ao abre-alas. No carro do milagre da vida será mostrada a luta do espermatozóide para fecundar o óvulo. ?Pode deixar que ninguém vai fazer sexo. O espermatozóide vai circular entre as trompas de falópio?, adianta Márcia. Império Serrano Reconhecido pela crítica como um dos melhores do ano, o samba do Império Serrano vai soar como oração. Para que Deus, os jurados e o público olhem pela escola da Serrinha, os integrantes farão do Sambódromo uma espécie de templo, por onde passarão diferentes formas de cortejo e procissão, romeiros e beatos. No enredo O império do divino também haverá espaço para cultos afro-brasileiros. No sexto carro, imagens de orixás se confundirão com santos barrocos. Fechando o desfile vem um segredo guardado a sete chaves até as vésperas do desfile para evitar problemas com a Igreja: São Jorge, o protetor do Império. Num carnaval bancado somente com a subvenção da Liga das Escolas de Samba, o carnavalesco Paulo Menezes usará a simplicidade para mostrar a fé do brasileiro. ?Este tema eu queria fazer há tempos. Será um desfile movido a emoção?, diz ele que, entre outras coisas, prepara um carro alegórico decorado com duas mil fitas do Senhor do Bonfim em tamanho gigante, lembrando a famosa igreja de Salvador, e uma escultura de Padre Cícero. Portela Com enredo inspirado numa pesquisa feita ano passado com turistas que apontaram a simpatia e a receptividade do carioca como o melhor no Rio, a Portela entra na avenida para mostrar que o melhor do Brasil é o brasileiro. E começa o desfile valorizando a prata da casa: desta vez, somente a tradicional águia virá à frente da velha guarda ? que ano passado mal pôde desfilar, por problemas na armação. ?A velha guarda estará no abre-alas, que representa o brilho que os astronautas dizem que o Brasil tem, visto de cima, assim como o brilho da Portela. A velha guarda é o brilho da escola?, diz o carnavalesco Ilvamar Magalhães, de volta após nove anos, quando pela última vez a escola esteve no desfile das campeãs. Este ano ele trabalha com Amarildo Melo. Em Brasil, marca a tua cara e mostra para o mundo, Ilvamar e Amarildo creditam a alegria do povo à grande miscigenação do País. ?Desde os assírios e fenícios, que teriam vindo antes dos portugueses, passando pelos invasores holandeses e franceses, assim como por italianos, alemães, japoneses... Fora indígenas e negros, claro!?, diz Ilvamar. PA/DP