Nacional
O maior ator do Brasil sai de cena
O ator carioca Paulo Autran morreu ontem aos 85 anos. A informação foi confirmado pelo hospital Hospital Sírio Libanês, onde ele estava internado. Nascido no Rio de Janeiro e formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo) em 1945, Paulo Autran chegou a abrir um escritório antes de assumir a carreira artística. Ele estreou em um palco (ainda amador) em 1947. Na TV, seu último trabalho foi na minissérie ?Hilda Furacão? (1998), da Globo. Entre seus trabalhos nesse veículo se destacam ?Pai Herói? (1979), ?Guerra dos Sexos? (1983), ?Sassaricando? (1987) e ?Brasileiras e Brasileiros? (1990). ### Artistas falam de Autran Marília Pêra (atriz): ?Minha última visita ao Paulo foi há cerca de um mês e meio. Ele já tinha tido o enfarte, mas, ainda pensava em voltar ao palco para seguir com a temporada do ?Avarento?. Quando me despedi, o beijei e tive a sensação de que aquela poderia ser a última vez que o via. A minha história com o Paulo começou quando eu era muito novinha. Aos 18 anos, fui bailarina no musical ?My Fair Lady?, com o Paulo e a Bibi Ferreira. Ele sempre gostou muito de mim. Eu prestigiava as estréias dele e o Paulo as minhas. Estou muito triste.? Domingos Oliveira (dramaturgo): ?Nunca mais o teatro brasileiro será o mesmo. Um artista como o Paulo é único e insubstituível. Era um ótimo sujeito. Não tive o prazer de trabalhar com ele, mas é como se tivesse trabalhado porque queria muito bem a ele. Era uma pessoa transparente, honesta. Pessoas como ele deveriam ser imortais.? Sérgio Brito (ator): ?A última vez que eu vi Paulo foi no início do ano. Ele parecia estar sofrendo. Quando o sofrimento é maior do que a vida, é hora de deixar o corpo descansar. Paulo tinha um grande amor pelo teatro. Tanto que fazia ?O Avarento?, aos 85 anos. Quem tem amor ao teatro tem amor à vida. Esse drama que eu senti nos olhos dele foi a luta entre a vontade de viver e a luta contra o câncer. Adorava vê-lo no palco fazendo comédia. Lembro dele numa cena de ?Uma certa cabana?. Ele sentado de cuecas, mas ?elegantérrimo?, com uma taça de bebida na mão. Ele era um ator tão fantástico que não se fixava em nenhum gênero. Estava maravilhoso em ?Terra em Transe?, em ?Rei Lear?, na novela ?Guerra dos Sexos? Bete Mendes (atriz): ?Nunca tive a felicidade de trabalhar com o Paulo. Fiz aula de canto e impostação de voz com ele e éramos amigos. Lamento muito esta perda, é uma perda muito grande para o Brasil.? Marcus Caruso (ator): ?É uma tragédia para o teatro, no sentido de ter perdido o maior de nossos atores. Paulo é o norte de todos nós, um homem que transmitia em suas interpretações a paixão que temos de ter pelo teatro. Era um homem estudioso até o último minuto, que, aos 85 anos, sentia frio na barriga antes de entrar em cena. Ele tinha uma galeria de personagens invejável, passou por todos os gêneros, não permitindo que sua personalidade se sobrepusesse ao personagem. O personagem estava em primeiro lugar.? Cao Hamburger (dIretor) ?Vi a estréia do Paulo em 1949, ao lado da Tônia Carrero, em Um Deus Dormiu Lá em Casa. Foi um espetáculo encantador. Paulo sempre foi um defensor do bom teatro? Bárbara Heliodora (crítica de teatro): ?Como todo bom guerreiro, ele não cedeu. Continuou fumando seu cigarrinho, continuou suas leituras, continuou fiel a seus princípios e à sua paixão de atuar, sempre buscando retratar o belo, buscando o gesto perfeito. O único detalhe que me entristece é que, quando um diretor se vai, ficam os filmes; quando um escritor se vai, ficam os livros. Quando um ator morre seu trabalho nos palcos não fica para as novas gerações.? ///