Nacional
Reale diz que renunciou ao cargo para n�o ser ministro meia boca
Brasília ? O ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, que pediu demissão do cargo segunda-feira à noite, afirmou, ontem, que a decisão do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, de não remeter pedido de intervenção no Espírito Santo para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi política e não jurídica. Visivelmente irritado, Reale Júnior disse que se sentiu desautorizado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso pelo fato de não ter recebido sequer um telefonema dele ou de Brindeiro sobre a decisão. ?Estranho inclusive que ele (Brindeiro) tome a decisão junto com o presidente da República porque o procurador manifesta-se nos autos. Se ele tinha a sua manifestação, que fizesse nos autos. Deixou de ser uma manifestação jurídica para ser política?, declarou Reale Júnior. ?Eu não posso ser desautorizado porque não terei forças para continuar dando ordens à força-tarefa implantada no Rio, à Polícia Federal, porque as ordens que eu dou hoje poderão ser desfeitas amanhã sem meu conhecimento?. Reale Júnior afirmou que, após a decisão de Brindeiro, seria um ministro ?meia boca? se continuasse no cargo. ?Não tinha mais ânimo para ficar no Ministério da Justiça. Eu seria um ministro ?meia boca?, sem gás, sem vontade, ouvindo o senhor José Carlos Gratz (presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo) dando aula de direito?. Traição O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Orlando Fantazzini (PT-SP), divulgou nota oficial qualificando de ?traição? a decisão do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, de arquivar o pedido de intervenção federal no Espírito Santo, formulado pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). A nota também manifesta solidariedade ao ex-ministro Miguel Reale Júnior. ?A fragilidade dos direitos humanos no Brasil foi consolidada com a decisão do procurador-geral da República de arquivar o pedido de intervenção federal no Espírito Santo?, afirmou Fantazzini. Na opinião do parlamentar, o crime organizado venceu no Espírito Santo em nome de interesses político-eleitorais, e o presidente Fernando Henrique e Brindeiro são agora os grandes responsáveis pela exposição das pessoas que vinham denunciando a ação dos criminosos naquele Estado. Integrante do CDDPH, órgão do Ministério da Justiça que decidiu pela intervenção capixaba, o deputado acompanhou de perto as investigações sobre o envolvimento de autoridades dos poderes Executivo e Legislativo do Estado com o crime organizado e com grupos de extermínio. Para Fantazzini, o arquivamento do pedido fortalece a impunidade no País: ?O relatório foi aprovado unanimemente no Conselho. Mesmo assim, infelizmente nós temos de continuar convivendo com essa realidade em que o crime organizado ganha espaço, tudo em razão da omissão do Poder Público constituído, que deveria tomar as providências e coibir o avanço dos criminosos?.