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DESASTRE

Cenipa: voo da Voepass com 62 mortes não poderia ter ocorrido

Inoperância do limpador de para-brisas impedia viagem em condições de chuva

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Tenente-coronel Paulo Mendes Fróes apresenta relatório do voo
Tenente-coronel Paulo Mendes Fróes apresenta relatório do voo | Foto: — Divulgação

O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) afirma que o avião da Voepass que matou 62 pessoas em 2024 não poderia ter decolado.

A aeronave viajava de Cascavel (PR) ao Aeroporto de Guarulhos (SP) e caiu em Vinhedo, no interior paulista. A divulgação do relatório aconteceu nessa quinta-feira (23) em Brasília.

Os técnicos do órgão da FAB (Força Aérea Brasileira) mapearam 19 fatores que contribuíram para o acidente, entre eles a degradação técnica, falhas de julgamento e uma cultura organizacional que priorizava a continuidade das operações em detrimento da segurança. Parte das conclusões foi antecipada pela coluna Mônica Bergamo no início do mês.

Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado da ocorrência, a aeronave possuía dez itens de atenção na lista de equipamentos mínimos, sendo um deles a inoperância do limpador de para-brisas.

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Para que o avião voasse com essa pane, a regulamentação impunha que não houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois do horário previsto para a decolagem, assim como para o pouso no destino ou alternativa.

"Não poderia ter sido despachada a aeronave nesse horário em virtude da falha do limpador de para-brisas", disse.

Segundo o tenente-coronel, devido às condições meteorológicas daquele momento, a aeronave não poderia ter decolado. Além disso, uma falha no sistema de climatização limitou a altitude, justamente onde se concentrava a formação de gelo severo, que pode ter provocado uma inclinação abrupta e involuntária do avião.

Além disso, a aeronave não era certificada para atuar com formação de gelo severo. Ela poderia apenas operar em área de formação de gelo comum.

Grande parte da gravação de voz mostra os pilotos conversando sobre assuntos pessoais. No momento de alertas críticos de gelo, o comandante estava fazendo o anúncio de rotina aos passageiros.

Segundo a investigação, os pilotos também estavam em alta carga de trabalho e, segundo o tenente-coronel, isso pode ter gerado cegueira ou surdez por desatenção aos avisos.

A análise de mais de 1.200 voos anteriores revelou uma prática sistêmica de não registrar panes no diário de bordo. Pilotos e mecânicos utilizavam comunicações verbais para evitar que o avião fosse retido para manutenção.

No voo do acidente, o copiloto chegou a comentar que a falha no sistema de degelo não estava reportada, evidenciando que a tripulação tinha ciência da precariedade técnica.

Como resposta, o Cenipa recomendou à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) a revisão dos processos de fiscalização e a garantia de que os checklists de todas as empresas incluam o ajuste correto de velocidades mínimas para condições de gelo.

O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando a aeronave do voo 2283 levava 58 passageiros e quatro tripulantes, no início da tarde.

O desastre é o mais letal do país desde 2007, quando um acidente com o voo 3504 da TAM nos arredores do aeroporto de Congonhas deixou 199 mortos, e um dos dez piores já registrados no Brasil.

Saindo de Cascavel (PR), o ATR 72-500 se preparava para pousar em Guarulhos, virando ligeiramente à direita, quando mudou repentinamente de direção e se inclinou fortemente à esquerda. Dados divulgados mostram avisos constantes de formação de gelo, perda de velocidade e acionamentos de sistemas pelos pilotos para tentar superar a situação.

Depois do acidente, a Anac cassou, sem possibilidade de recurso, a licença da Voepass, antiga Passaredo, não diretamente pelo acidente, mas pela incapacidade da empresa de corrigir falhas apontadas em fiscalizações anteriores.

Entre os 19 pontos que contribuíram para o acidente estão:

Capacitação e treinamento da tripulação: Embora os pilotos tenham passado por treinamentos de recuperação de atitudes anormais, não houve o reconhecimento da gravidade da situação.

Estado emocional (Indeterminado): Não foi possível confirmar se problemas pessoais afetaram negativamente o desempenho dos tripulantes.

Influências externas (Indeterminado): Fatores externos podem ter desviado o foco dos estímulos da operação, reduzindo a percepção de risco.

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