Opinião
As m�os do trabalhador
Um amigo me escreveu pedindo opinião sobre um assunto. A babá do seu filho estava no sofá da recepção do prédio quando o síndico mandou que ela saísse. Esse amigo contactou o síndico, o qual lhe respondeu que ali era um corredor de passagem; que não se tratava de discriminação, pois a proibição se estendia aos moradores, já que o sofá era destinado aos visitantes; e que só queria evitar baderna na recepção, pois já encontrara até uma camisinha ali. Prezado amigo, ? respondi-lhe ? não consegui aquilatar a relação entre o preservativo e a babá e seu filho. Haveria um affair entre ambos? Teria o bebê deixado a camisinha cair quando surpreendido pelo síndico? Tampouco entendi a relação entre baderna e o quadro de uma babá sentada num sofá com um bebê. Quanto à justificativa de que ali é local de passagem, creio que local de passagem é corredor e ninguém em sã consciência adornaria um corredor com um sofá! Já se viu sofá em corredor? Eu vi, admito, mas só em repartição pública. Mas foi a proibição de sentar no sofá que me deixou perplexo! Para que serve um sofá, senão para sentar? E a proibição se estende aos moradores! Só os visitantes podem fazê-lo. Por que haveria alguém de receber suas visitas na recepção do edifício? Imagine-se recebendo visitas. Você desce pra recebê-las na recepção e, como só aos visitantes é dado sentar-se, você as recebe em pé. Suprema indelicadeza: a visita, já ressabiada por não ter sido convidada a subir, sentada no sofá e você em pé, empedernido, resoluto. Deve ser excepcional o tal sofá. Apressar-me-ei em visitar-te. Espero que não me convides a subir. Já me vejo refestelado naquele opulento sofá, abestado de prazer, e você em pé, resignado. E não ouses sentar porque o síndico tem olhos de Argos e passo seguro. Mas devemos ficar de atalaia! Quis custodiet istos custodes? Quem vigiará o síndico, o qual, à primeira distração nossa, passa as tardes deleitando-se no sofá, a soltar suspiros maviosos. É evidente que a proibição é para os empregados. O que penso disso? Recordo-me da história de Fausto Luiz chamada Mãos de trabalhador, que li no blog ?Domingo à noite?. O navio em que ele trabalhava estava em Montreal. Ele estava saindo da praça de máquinas quando os turistas passavam e uma senhora estendeu-lhe as mãos em cumprimento, o que o deixou deveras constrangido porque tinha as suas sujas de óleo. A senhora não recuou, apertou-lhe as mãos e disse: ? As mãos de um trabalhador nunca estarão sujas! (*) É promotor de Justiça.