Opinião
O homem, segundo Hobbes e Bobbio
A olho nu, vemos que o nosso país carrega um imenso rosário de injustiças. Como seres racionais, nosso grande desafio é tentar evitá-las. Inicialmente, é necessário lembrar que as injustiças não surgem por acaso; alguém lucra com elas. A culpa, porém, não é da democracia nem do neoliberalismo. Seguramente, também não seria do comunismo. Para surpresa dos ideólogos políticos, o grande beneficiário das injustiças é o próprio homem. Qual, então, a causa que leva esse homem ao fracasso, a ponto de cometer injustiças? O filósofo Thomas Hobbes tem, a meu ver, uma resposta bastante realista: ?O desígnio dos homens, causa final ou fim último ? que amam a liberdade e o domínio sobre os outros ? leva à guerra e à insegurança?. Assim sendo, uma sociedade que busca aprimorar a civilização não pode permitir que o homem se torne dono absoluto das suas vontades. Seria muito perigoso, pois, assim independente, ele esqueceria a sociedade para pensar apenas no seu umbigo. Posso afirmar, em síntese, que, sem exigir limites bem delineados, a própria sociedade leva o homem ao fracasso. Neste sentido, noto que o nosso sistema político-democrático-jurídico conspira contra a civilização. Ele é anacrônico e falho; é protelatório e cínico. Tanto isso é verdade, que vários crimes cometidos contra a sociedade são impunemente perdoados. Além Hobbes, recorro ao filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio: ?A paixão do homem pode ser imaginada como uma imensa torrente fluvial, que passa por cima de tudo e de todos, e só uma represa poderia conter sua fúria devastadora?. Por analogia, a lei seria a represa inibidora das paixões excessivas do homem. Ótimo, nós temos a lei! Tudo resolvido, então? Não. A fim de realizar seus desejos, o homem cria um sistema no qual o povo é elevado a soberano, mas, ao mesmo tempo, sub-roga-se seu representante e legislador. Aqui chegamos ao xis da questão. Sem vigilância permanente da sociedade, o homem produz um sistema cujas sinuosidades podem isentá-lo de pecados. Hobbes e Bobbio estão a nos dizer que o nosso sistema democrático precisa ser aperfeiçoado. Assim, se realmente sonhamos com um país mais justo, não podemos permitir que leis tipificadoras e reguladoras de eventuais crimes cometidos pela classe política sejam por ela criadas. Se não construirmos essa represa, ao invés de inibir, estamos exacerbando os instintos individuais do homem e, como corolário, aumentando as contas do nosso rosário de injustiças. (*) É contador.