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Opinião

Deus e Abra�o

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Na primeira leitura da missa deste domingo passado, nosso pai Abraão negocia com Deus. Como bom nômade oriental, sabe negociar: pechincha a salvação de Sodoma e Gomorra. Mas, por que nosso pai intercede por essas cidades? É que Abraão era amigo de Deus ? fora se tornando amigo, de espera em espera, de sofrimento em sofrimento, de provação em provação, de oração em oração, de confiança em confiança! Assim se fazem os amigos de Deus: não no improviso, não na superficialidade, mas na carne profunda e dolorida da vida! Abraão tornara-se escolado no caminho com Deus e, assim, seu velho coração fora se dilatando e ele aprendera a prestar atenção nos outros, a preocupar-se com todos. Quando o nosso coração se abre de verdade para Deus, que é infinito, torna-se como uma casa ampla, espaçosa, na qual cabem todos aqueles que encontramos! Nosso pai na fé, de tanto conviver com esse Deus bom, misericordioso, justo, cheio de compaixão, foi aprendendo a sincronizar as pulsações do seu coração com as do coração do Senhor! Por isso se preocupa com os outros, por isso intercede, por isso, da profunda consciência de nada merecer, eleva-se à certeza de estar diante de um Deus bom e justo: ?Destruirás o justo com o pecador? Longe de ti fazeres tal coisa: fazer morrer o justo com o pecador! Longe de ti! Não fará justiça o juiz de toda a terra?? (Gn 18,23-25). Quanta confiança, quanta delicadeza, quanto enamoramento de Abraão para com o Senhor Deus! ?Eu me atrevo a falar ao meu Senhor, eu que sou poeira e cinza! Que meu Senhor não se irrite e que eu possa falar! Que meu Senhor não se irrite e falarei uma última vez!? (Gn 18, 27-32). Pó e cinza ousados! Pó e cinza tão preciosos, tão amados, tão queridos pelo Senhor! Pó e cinzas de grande dignidade! E Abraão ? fino negociante, como o bom adrão que roubou o céu! ? consegue abaixar as exigências do Deus Santo: se houvesse dez justos em Sodoma e Gomorra elas seriam poupadas! Quanto foi generoso nosso pai na fé! Quanto foi misericordioso o nosso Deus! Mas, se Abraão soubesse... se Abraão conhecesse o que nós conhecemos! Se ele ao menos suspeitasse que Deus, por causa de um único justo e santo, seu filho unigênito, amado e bendito, poupou da morte eterna o mundo inteiro! Sim, a misericórdia amorosa de Deus chegou a tal extremo: ?não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós? (Rm 8,32). Eis o nosso Deus: o Deus de Abraão e, mais ainda, o Deus e pai de Nosso Senhor Jesus Cristo! Deus cheio de misericórdia, Deus que tem pena de suas criaturas! ?Pois teu grande poder está sempre a teu serviço, e quem pode resistir à força de teu braço? O mundo inteiro é diante de ti como o grão de areia na balança, como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. Mas te compadeces de todos, pois tudo podes, fechas os olhos diante dos pecados dos homens, para que se arrependam. Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a tivesses querido? Como conservaria sua existência, se não a tivesses chamado? Mas a todos perdoas, porque são teus: Senhor, amigo da vida!? (Sb 11,21-26). (*) É bispo auxiliar de Aracaju (SE).

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