Opinião
Um cardeal chin�s
Entre os 92 salesianos bispos do mundo inteiro presentes em Turim, na última semana de maio, para estudos e reflexões sobre o tema ?Carisma salesiano e ministério episcopal?, sobressaía a figura humilde e bem recolhida, como é próprio da índole chinesa, do cardeal José Kiun Zen, eleito cardeal por João Paulo 2º. Em 1970, o então padre Zen participou do Capítulo Geral dos Salesianos, quando o conheci de perto, naquele mais longo Capítulo Geral de nossa Congregação, da primavera de 1970 ao inverno de 1971. Em 1966, pe. Zen foi eleito bispo coadjutor de Hong-Konk e começou a ter notável projeção na Igreja da China, por sua corajosa oposição a medidas anti-democráticas do governo de Pequim. Entre 28 e 30 de abril de 2004, o governo de Pequim fez uma ?gentileza? a Dom Zen, permitindo-lhe visitar Shangai, sua terra natal, naturalmente acompanhado por funcionários do governo. Esperava ele calar a voz do cardeal, incômoda aos chefes políticos da China. Tal não aconteceu. Poucos dias antes, 26 de abril daquele ano, a Assembléia do Povo Chinês (um arremedo de parlamento) havia negado o pedido de sufrágio universal apresentado por amplos setores da sociedade civil de Hong Konk. Há um ano, número crescente de cidadãos da antiga colônia inglesa exigia poder eleger diretamente o ?Chef Executive?, que é o administrador local, nomeado por Pequim. Também a sociedade civil da Ilha queria poder eleger todos os deputados do Conselho legislativo, que agora são eleitos segundo processos que subtraem do povo a liberdade de escolha de seus representantes. Todas essas reivindicações de liberdade de seu povo têm encontrado no intrépido bispo Zen o mais amplo apoio. Em 2 de maio daquele mesmo 2004, ele declarava: ?Estão nos ignorando, insultando-nos e privando-nos de nossos direitos?. A 4 de junho daquele ano, na comemoração do massacre da praça Tiananmem, a cerca de 800 católicos, reunidos em oração, denunciou o bispo: ?Nós também tivemos o nosso 4 de junho, sem derramamento de sangue. Pediram-nos para sermos tolerantes para salvaguardar a harmonia e a paz. Mas, se renunciamos ao nosso direito de falar enquanto ainda podemos, então merecemos mesmo ser escravos!?. Em carta enviada a 22 de novembro de 2004 esclareceu o bispo que não é seu propósito afrontar o governo, mas sim salvaguardar a liberdade educativa e a tradição católica na educação. Ele adverte que a lei aprovada no Parlamento desmonta o sistema educativa de Hong Kong, que se demonstrou tão eficaz no passado e destrói a colaboração e a relação de confiança entre os responsáveis escolares e o Governo. Em maio passado, em Turim, o cardeal Zen tratou da situação da educação católica em Hong Kong, expondo com vigor e clareza a situação da educação na ex-colônia britânica. (*) É arcebispo emérito de Maceió.