Opinião
A sociedade de espet�culos
Guy de Maupassant é considerado um dos maiores contistas de todos os tempos, junto com Turgueniev, Tcheckov e Hemingway. Entre os contos de Maupassant, A Pensão Tellier que versa sobre uma casa de recursos administrada por Madame Tellier, respeitável camponesa normanda, que a gerenciava como uma hospedaria ou um colégio interno, é emblemático. Nele as operárias do sexo são descritas com muita atenção e carinho e o autor enfatiza a paz que predominava no estabelecimento. Em uma noite de maio, os frequentadores habituais da casa decepcionam-se diante de uma placa: Fechado para Primeira Comunhão. Madame Tellier e suas funcionárias haviam saído para assistir à Primeira Comunhão de uma sobrinha, afilhada de Madame. A Primeira Comunhão torna-se um evento extraordinário, pois a emoção das prostitutas ao relembrar a própria infância é contagiante, e leva toda a congregação a se debulhar em lágrimas. O padre proclama a descida do Santo Cristo e agradece, enfaticamente, a presença de Madame Tellier e sua equipe. Após uma alegre viagem de volta ao bordel, mais dedicadas do que nunca, Madame e suas pupilas retomam as costumeiras atividades noturnas com a declaração de Madame: ?Não é sempre que temos o que celebrar?. Este conto enterneceu a França de então, pela singeleza e pureza de sentimento das envolvidas, que embora sobrevivessem do sexo e dele fizessem mercado e fonte de sobrevivência, o faziam com dignidade e até pudor. Esta semana um jovem casal de adolescentes promoveu uma cena de bizarro exibicionismo em Porto Alegre: fez sexo transmitido ao vivo pela internet para 26 mil pessoas, numa cena de exposição pública banal, do que deveria ser somente doação e intimidade, sem o que perde a aureola de magia e entrega que só a privacidade pode propiciar. Nesta sequência infinda de episódios da sociedade de espetáculos, destaca-se o evento midiático ocorrido dentro de um túnel no Rio de Janeiro. Alguns poucos dias após o atropelamento do jovem filho da atriz global, a família e os amigos, a pretexto de homenagear o inditoso jovem, promoveram uma fuzarca onde o sax do pai foi acompanhado não só por eufóricas cantorias, como por exuberante dança da mãe e demais presentes. Ao fim, a atriz declarou que precisava volta a sorrir. A sociedade de espetáculos ganha mais aficionados a cada dia que passa. Até o luto que segundo os estudiosos deveria ser devidamente vivenciado para poder se superar a perda de um ente querido, passa a ser apenas mais um grotesco esquete no espetáculo público que vale mais do que o verdadeiro sentimento. (*) É médico e professor da Uncisal.