Opinião
Pierre Chalita: o hippie dos cavaletes
Pierre Chalita alimentou o apetite do seu viver no sabor da paleta. Nalguma coisa, ele foi um Leonardo Da Vinci alagoano, porque viu algo de superior na pintura, capaz de fixar em pinceladas os extremos dos sentimentos. Daí o seu desabafo resignadamente poético: ?A verdadeira arte habita o sofrimento e é lá onde quase sempre a encontramos, assim como flores do campo que nos surpreendem às vezes, claras e perfumadas, na lama?. Para tal, Pierre não se contentaria com os ?ismos?. Anticartesiano, pouco academicamente um castiço, renúncia para com o matematicamente arquitetônico, quis-se um transgressor estético no seu transexpressionismo. E a sua expressão não se poderia exprimir sem as transgressões com que tanto se afinava. Pierre foi um rebelde que submeteu a técnica ao coração. Transmitiu-nos a lição de em nada ser um provinciano. Estava provinciano de há muito, é verdade, mas pelo berço, pelo colo, pelo solo, pela ligação fraterna e orgânica à companheira devotada e inseparável que nunca lhe faltou: a sua fada Solange. A sofisticação sugestiva e autêntica de sua obra dramática e lasciva acentuou os meios-tons dos segredos da dor, do amor, da corrupção, da aflição, dos ciúmes, dos traumas, da solidão, das misérias, das saudades, dos soluços, das glórias e dos prazeres. Assim Pierre escancarou o domínio psicológico: ao diluir os contornos dos seus anjos e dos seus demônios. Nele confunde-se o continuum do espaço e do tempo pela exteriorização da interioridade da condição involuntariamente humana. Daí que seus personagens são nuvens e espectros que se remexem na exaltação saltitante da pele e da alma. Suas pastas grossas, quais súbitos fôlegos, crepitam buliçosamente a voluptuosidade das linguagens estéticas. E seus milhares de filhos de plástico, esfumados, ganham carne, porque ele os ensinou a magia de transpassar o movediço de sua própria condição maleável. Além de mestre devoto de seu credo secular, Pierre nunca abandonou em si o aventureiro de mundos. Os libaneses, já mesclados arabemente, juntaram-se à bela confusão plural das culturas daqui. Navios se deram as mãos. Cá seu espírito libertariamente herético reclamou sempre ir além da subordinação e do subdesenvolvimentismo. Ousado o seu espírito, não se permitiu, porém, ser apenas plasmado pelas matrizes metropolitanas madrilenses ou parisienses. Um pedaço de nós mesmos se extingue com a morte de Pierre Gabriel Najm Chalita. Pedaço de nós mesmos porque a cultura de Alagoas acaba de perder um seu quase embaixador; aquele cuja vontade idealisticamente teimosa, de uma teimosia que poderia ser confundida às vezes com soberba, soube não ceder às estereotipagens, às espetacularizações, às subserviências, aos mexericos, aos ócios não criadores, aos ódios acidulados a inveja. Pedro Gabriel foi um ?hippie dos cavaletes?, porque era bem ele um sadio desertor das aspirações alheias no afã das suas inspirações pulsantes; talvez por sabedor de que não poderá haver traição que exceda a da gente mesmo. (*) É sociólogo