Opinião
Moscou, a capital da R�ssia
Satisfeitas todas as exigências, da imigração e da alfândega, fomos encaminhados ao ônibus que nos aguardava fora do prédio do aeroporto. Acostumados aos transportes sofisticados, confortáveis e limpos da Europa, chocamo-nos com a rusticidade e pouca higiene do russo. A guia, muito jovem, vestida com extrema simplicidade, parecia uma gazela amedrontada; tímida, falava somente o necessário e respondia a nossas perguntas, por vezes um tanto indiscretas, com evasivas ou guardava o silêncio. Percorremos por algum tempo campos de cereais e plantações de girassóis que ainda não haviam iniciado a floração, e depois começamos a cruzar as ruas de Moscou, superlotadas de gente vestindo ?manteaux? de pele barata, botas e chapéu também de pele. A temperatura estava em 8° negativos. Ninguém pode deixar de ter um bom abrigo para o inverno, mesmo que isso lhe custe um salário ou mais. Apesar de frio, estava um dia de sol e era um domingo. Todos aproveitavam para circular nas ruas, fugindo ao desconforto dos lares exíguos e sem atrativos, pois cada pessoa só tem direito a nove metros quadrados de morada, e os banheiros e cozinhas são coletivos, o que se torna um dos maiores problemas que o povo enfrenta. Além do mais, iam, também, às ruas para aproveitar o calor do grande astro. O inverno na Rússia é inclemente, e poucos se aventuram a fazer lazer ao ar livre nessa época. Uns dias antes, a temperatura esteve em 20° negativos. As ruas ainda continuavam amontoadas de gelo, numa altura de dois metros, que, ao derreter, formava, no solo, uma lama fria e escorregadia, que incomodava bastante para caminhar. Moscou é uma cidade bonita. Tem grandes espaços verdes, que se espalham entre residências senhoriais que datam do tempo dos czares, hoje ocupadas pelo povo, na sua maioria. Em algumas funcionam repartições do governo. Chegamos ao Hotel Kosmos, feito para as recentes Olimpíadas. Um prédio imenso com treze restaurantes e milhares de quartos. Havia enorme movimento. Os quartos eram bons, mas os banheiros precisavam de uma rigorosa limpeza com detergentes, água sanitária e sapólio para tornarem-se mais agradáveis. Entre os agentes de viagem, costumam dizer que se conhece um país comunista pelo cheiro dos banheiros. Geralmente são as pessoas idosas que fazem a limpeza dos sanitários e outros serviços, como varrer as ruas e guardar os casacos nos restaurantes, hotéis e teatros. No regime socialista, não existem aposentadorias, trabalha-se até morrer. Deixamos nossas malas no quarto e descemos para o almoço, num dos inúmeros restaurantes. O hotel encontrava-se lotado. Ouviam-se línguas bastante estranhas. Muitos hóspedes eram oriundos de países vizinhos. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.