Opinião
Vit�rias e trope�os ao longo da exist�ncia
Quando se chega aos 60, 70 ou 80 anos é comum que em determinado momento faça-se uma reflexão sobre o que foi feito, o que passou, o que se deixou de fazer. Uma retrospectiva do que aconteceu ao longo dessa caminhada. Muitos acham que ao atingir uma dessas idades tenham subido os degraus de altíssima escada, e lá, do topo, estendem a vista pelos muitos chãos pisados. Uma autoavaliação, digamos assim. Reavivam-se memórias de tropeços, canseiras e dificuldades encontradas. Paralelamente, enxergam-se pontos marcados com o halo de dias felizes, pelas vitórias conquistadas. Afinal, a existência humana não é uma simples viagem através do reino da fantasia. Viajo, ao arrepio do tempo, para lembrar que mais de cinco décadas são transcorridas desde os distantes dias de minha formatura em Medicina. Os tempos vão e voltam ao sabor dos ventos, ora agitados e tempestuosos, ora calmos e acariciantes. Numa rápida análise desse percurso de vida, advém a certeza de que jamais procurei ver o panorama de cima da ponte, à distância dos acontecimentos humanos. Não fui indiferente ou omisso, mas participante, aprendendo, continuamente, a difícil arte da convivência humana, da solidariedade social, do caminhar juntos, do enxergar males e tragédias que se desenrolam no dia a dia da vida das pessoas. Luta-se para possuir bens materiais, para ter mais; pela ciência e pela cultura alcança-se a consciência de ser mais. Repete-se, sempre, que nenhum homem é uma ilha solitária; somos todos continentes, cercados de humanidade por todos os lados. A vida em família nos ensina que é necessário construir pontes que unem, em lugar de muralhas que separam; que divergências por acaso ocorridas devem ceder lugar a convergências e reaproximações; que é necessário saber perdoar. Dos amigos, das amizades sinceras, somente tenho a agradecer; quem tem amigos tem a alegria da vida, tem alguém com quem dividir o que pensa e o que sente; trata-se de uma rua de mão e contramão em que se realinham pensamentos e sentimentos. É necessário agradecer a Deus, como senhor de todas as coisas, por cada momento vivido e poder repetir: é maravilhoso viver, é importante ser, é inestimável existir como pessoa humana e como vivente social. Lembro o escritor Humberto de Campos, quando afirma numa confissão emotiva: ?É necessário que, em nenhum lar, haja um coração que ao ouvir o nosso nome tenha uma lágrima ou um gesto de revolta?. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.