Opinião
Hoje tem protesto? Tem sim, senhor!
Os divulgadores dos circos que chegavam ao pobre bairro de Bebedouro tinham como estratégia desfilar com suas atrações pelas ruas, tudo sob o comando de um palhaço que a todo instante gritava: ?hoje tem espetáculo?? Ao que a criançada atraída pela promessa de um ingresso de graça, respondia: ?tem sim, senhor!?. Alegria geral. Em Alagoas, a pergunta de quem sai de casa, de carro ou não, é ?hoje tem protesto??. Protesta-se por tudo, mas a forma é a mesma, o bloqueio de ruas e rodovias com a queima de pneus. Ano passado, vindo de uma longa viagem de carro de São Paulo, encontro em São Miguel dos Campos um protesto dos guardas municipais que reivindicavam melhoria salarial, movimento que não tinha a unanimidade da classe, visto que a poucos metros a tropa considerada especial da mesma guarda, perfilava em defesa dos dirigentes do município. Semana passada, lá mesmo, foi a vez dos mototaxistas queimarem pneus em protesto contra os concorrentes irregulares, numa atividade de regularidade no mínimo discutível. Os protestos se multiplicam de uma forma que beira a banalização. Moradores bloqueiam a rua principal em protesto contra a falta de água nas torneiras, prendendo no trânsito alguns que saíram de casa sem energia elétrica; professores de escola municipal bloqueiam rodovia federal em protesto contra os salários atrasados, impedindo a passagem dos que ganham para transportar produtos perecíveis; habitantes de favelas construídas na beira das rodovias fazem bloqueio a cada atropelamento; proprietários rurais bloqueiam ponte de ligação entre estados; catadores de lixo protestam contra a instalação de necessário e cobrado aterro sanitário; estudantes universitários fazem bloqueio contra fugas de vizinhos encarcerados; parentes de encarcerados bloqueiam por visitas e regalias no sistema penitenciário, impedindo o direito de ir-e-vir dos que nunca se envolveram com crimes etc. O emprego de pneus velhos nos bloqueios é tão grande que já vejo a hora de escassear o produto no mercado, criando uma oportunidade para comerciantes inescrupulosos venderem a preços exorbitantes o símbolo dos protestos ? a fumaça negra e duradoura da queima de pneus. Imagino as dificuldades que os pobres e conservadores criadores de caranguejos irão encontrar para engordá-los dentro de pneus de caminhão e trator que, pelo volume, tornar-se-ão bastante disputados e caros. Os protestos seguem script uniforme, cria-se um mote, espalham-se pneus e galhos de árvores na pista, ateia-se fogo, juntam-se pessoas engajadas ou não na causa, o engarrafamento é formado, chegam os gerenciadores de crise da polícia militar, forma-se uma comissão para negociar com uma autoridade, filma-se e fotografa-se tudo, repercute-se na mídia. Quem sabe não se cria a moça do protesto na televisão, informando as condições do direito de ir-e-vir nas ruas e rodovias alagoanas. (*) É delegado de Polícia Civil.