Opinião
Sepulcro caiado
Eurílio foi surpreendido pela reação de um suposto amigo, companheiro seu desde os tempos de colégio, que rompeu com ele pelo simples fato de não encontrar apoio para as suas ideias estapafúrdias. Senhor absoluto da verdade, tirado a semideus e arvorado na condição de julgador supremo de todos os seus semelhantes, o dito cujo não suportou ser contrariado em mais uma de suas sandices e desferiu toda a sorte de impropérios contra o novel desafeto, condenando-o ao opróbrio eterno. Quem o ouvisse, e não conhecesse a fundo o seu pouco caráter, talvez até imaginasse estar diante de uma pessoa de bem e do bem, de um defensor sincero das virtudes teologais, ele que tem tanta intimidade com mitras e báculos. Há, de fato, quem não consiga conviver com opiniões contrárias às suas e se sinta no direito de pautar a maneira de pensar e de agir de quantos convivam consigo. Pior ainda: há quem ache que todos têm a obrigação de adotar as suas inimizades e de lutar as suas batalhas, por mais descabidas e inglórias que sejam. Geralmente tais pessoas têm ideias fixas, como os loucos de todo gênero, e andam como se portassem os antolhos dos burros de carroça, enxergando somente o que lhes convém e que atende aos seus interesses nem sempre confessados ? mas percebidos por qualquer um que se dê ao privilégio de pensar. Com um discurso repetitivo e enfadonho, espécie de variação infinita sobre o mesmo tema, esses donos do mundo são como o sepulcro caiado de que nos falou o Cristo: por fora, brancura imaculada; por dentro, mau cheiro e podridão. Dizem uma coisa e praticam outra, puro engodo que a poucos convence. De hipócritas a humanidade está cheia, saturada dos que lançam pedras contra o telhado do vizinho sem olhar para o da sua própria casa, de vidro todo trincado. Os que mais criticam são os que mais erram, os que posam de vestais são aqueles cuja vida privada, se revelada, faria corar até as estátuas de mármore. Os que agem à sorrelfa, na surdina, utilizando-se da inteligência invulgar que possuem para urdir golpes baixos, para jogar na lama a honra alheia, para destruir reputações. O ex-amigo de Eurílio é uma dessas almas penadas. Cabelos revoltos, olhos esbugalhados, roupa amarfanhada, vaga pelos gabinetes oficiais em busca de quem lhe dê ouvidos, mas as autoridades correm dele como o Diabo foge da cruz, cansadas da cantilena que há muito conhecem de cor. Melhor seria se ele buscasse o tratamento psiquiátrico que já se faz tardio, mas a sua vaidade... ah, a sua vaidade!