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Opinião

O cargo e o encargo

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A vida profissional toma boa parte de nossa existência terrena. Quando nos damos conta passaram-se os anos com uma rapidez que não corresponde às vagarosas semanas que experimentamos no início da carreira. Tempo em que a segunda-feira era o pior dia. E o recomeçar da rotina diária desmontava o espírito sonolento do fim de semana. Por isso a primeira promoção se torna a mais importante. A mudança de cargo parece levar consigo a rotina de outrem, não mais a sua. E o engordar do salário preenche a ansiedade recompensadora do laurel. Mas o cargo é também um tributo cujo valor se agrega à responsabilidade. É o encargo do cargo. É o fardo. E o encanto deletério do amealhado soldo, somado à vaidade do poder se esvai. O encargo do cargo, mesmo no lombo alheio pesa-nos bem mais. Fazer ou ver fazer não faz diferença alguma quando o feito ou malfeito sobra-nos às mãos. A posse do encargo é de quem tem o cargo. O cargo e o poder se confundem. O primeiro dá título o segundo dá força. Estes dois ingredientes são essenciais na cozinha da vaidade humana. A medida utilizada para um e outro depende muito da formação do ser humano. A humildade, por exemplo, é um neutralizador dos efeitos de ambos. Assim como a arrogância e a frustração são o fermento dessa mistura. Cozida no fogo baixo das paixões e da ambição a posse do poder destrói o que existe de melhor no ser humano. Sua capacidade de amar ao próximo como a si mesmo. Sua possibilidade de lembrar como começou a sua vida profissional. Afinal, muitas vezes para se seguir em frente é preciso olhar para trás, pelo menos para se observar o caminho trilhado. Depois, vêm os pares do cargo sem o encargo. As relações sociais mudam. Os rostos e os gostos são outros. Que, aliás, muitas vezes não passam de rostos. Rostos anarmónicos, encapuzados e desatentos da memória que se apresentam no cotidiano vulgar. Relação alguma de afeto, mas de interesses comuns subjugando o espírito. Tédio imenso! Vomitar da desilusão pelo estofo que preenche o vazio estéril das relações fúteis. Como o imitar dos gestos na vontade alheia. Ser de repente um ser coletivo, não mais dono de si mesmo. E, finalmente alcançar o desapontamento do ser coletivo revelado e nu. Negligenciar seus valores é perder a sua própria identidade. Quando o cargo não conduz o dono à liderança o leva ao isolamento. A solidão é a síndrome dos que confundem cargo com poder. Voltar atrás para recolher os pedaços de si mesmo é doloroso demais. Os estragos são grandes. Os atores mudaram para outro cenário. O poder é um dom que pouquíssimos podem exercer sem ser escravizados por ele. (*) É escritor.

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