Opinião
A crian�a e as maldades do mundo
A gente liga a TV pela manhã, tarde e noite e, invariavelmente, todos os canais noticiam a violência progressiva que vem tomando conta do nosso país. As crianças estão na sala e, mesmo não aparentando, ouvem passivamente ao noticiário e aos comentários angustiados dos pais. Isso deve, claro, interferir na vida delas. A propósito, estudos realizados pelo filósofo francês Jean Piaget nos dão conta de que o desenvolvimento da inteligência e a formação da índole se iniciam entre dois e sete anos. Assim, desde cedo a criança vai aprendendo a conviver nesse ambiente hostil, cujo perigo, ainda maior, estaria na banalização da violência pelas futuras gerações. A grande verdade é que nós, os adultos, amamos nossas crianças, mas não estamos construindo um bom lugar para elas viverem. Quando muito, reclamamos os infortúnios da vida. Agimos como se a violência tivesse ouvidos ou piedade. Mas, como não buscamos soluções, a cada dia ela chega mais perto de nós. De fato, a violência cresceu tanto nos últimos tempos que fez proliferar no nosso País uma doença invisível e silenciosa: a síndrome do medo. Além de mudar o humor e diminuir a autoestima das pessoas, ela enclausura. Mas, sabemos, a solução para reduzir os dramas da violência depende exclusivamente da nossa sociedade. Antes de votar, por exemplo, deveríamos exigir propostas que sinalizem redução dos gastos públicos, investimentos em infraestrutura e crescimento econômico sustentável, a fim de gerar empregos e renda pela iniciativa privada. Aumentar o número de policiais nas ruas é importante, mas não resolve. Já o crescimento consegue contribuir, de forma inteligente e menos custosa, para conter vários tipos de violência, pois só ele consegue atender às demandas do aumento populacional. Enquanto a civilização não chega, ficamos trancafiados em nossas próprias casas, assistindo passivamente ao horror, à tragédia e aos dramas do nosso cotidiano pelas telinhas da TV. Mas as cenas, por mais fortes e dramáticas que sejam, jamais serão maiores do que a nossa culpa; se é que temos consciência da nossa omissão. Aliás, ontem me senti um verme. Ao voltar do trabalho, dei um abraço e um beijo no meu neto e fiquei olhando-o pintar figurinhas com tinta guache. Notei que ele tapava os olhos dos animais, só os olhos, com tinta preta. ? Dudu, por que você está tirando a visão dos bichinhos? Ele olhou para mim, pensou alguns segundo e, então, respondeu: ? Para que eles não vejam as maldades do mundo, vovô! (*) É contador.