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Opinião

Moscou e seus encantos

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Tive de fazer uma paradinha na minha viagem pela Rússia, pois não poderia deixar de oferecer uma crônica de despedida ao meu querido amigo Pierre Chalita. Iremos continuar nosso passeio por Moscou. Estávamos no Hotel Kosmos, almoçando. Muitos hóspedes eram de países vizinhos, pois existe um grande intercâmbio entre as nações da Cortina de Ferro. Aliás, só há liberdade de sair de um país comunista para outro igualmente comunista. Somente os maiorais do Partido, artistas, atletas e membros da KGB têm direito de visitar, a trabalho, outros lugares. Assim mesmo, alguns são obrigados a deixar pessoas da família na Rússia, como reféns. O povo russo era escravizado no tempo dos imperadores, mas hoje tem a liberdade cerceada pelo Partido. Esse dom, que é o mais precioso da humanidade, é-lhes totalmente negado. São vigiados as vinte quatro horas do dia até pelos próprios parentes. Recebem ?tickets? de racionamento para comprar alimentos e os salários são tão restritos, que não dão para extravagâncias. Certos artigos mais finos só existem nas Berioscas para estrangeiros, comprados em dólar. Para o povo, tudo que lhe está ao alcance é de péssima qualidade. Tem direito a escolas gratuitas e à saúde, mas é obrigado a enfrentar filas imensas para conseguir consulta. E para as distrações, que são, realmente, de muito bom nível e são pagas, também precisa esperar que haja uma vaga e não vê o que quer, e sim o que é possível ao órgão encarregado conseguir para ele. Mesmo para os turistas, é assim! Estávamos famintos, pois saíramos de Paris muito cedo. Mas a alimentação do hotel foi uma decepção, apesar de sermos um grupo de agentes de viagem convidado pela Intourist, órgão de turismo do governo. Pouca comida e mal preparada, e o serviço ainda pior. Os pratos de louça grosseira, os talheres e copos de má qualidade emprestavam à mesa um aspecto desagradável. Os garçons nos pediam a toda hora para trocarmos dólares ou para lhes comprar cigarros americanos na Beriosca (os russos são horríveis), ou outros artigos a eles negados, e os trocavam, às vezes, por caviar, que saía bem mais em conta que comprado nas lojas do governo. As Berioscas são totalmente proibidas ao povo russo. Muitas vezes fui buscar cigarros, chocolates etc. para eles. Não só os garçons, mas o povo na rua queria comprar nossas roupas, sobretudo calças jeans, e até nossas sacolas de viagem faziam enorme sucesso e eram desejadas a qualquer preço. Entendemos tudo isso, quando, no dia seguinte, fomos visitar o Gume, a maior loja de departamentos de Moscou, e vimos filas para adquirir, desde alimentos até roupas, calçados e brinquedos. Além de insuficiente para a população, tudo era de péssima qualidade e sem muita opção. (*)É membro da Academia Alagoana de Letras.

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