Opinião
Deforma��o cruel
?Eles sempre protegem a comunidade e estão do lado da gente?. A frase seria alvissareira se quem a pronunciou não estivesse se referindo a traficantes. Ser identificado como ?protetor? é o auge do poder bandoleiro, pois além da supremacia exercida (à bala) dentro de um perímetro urbano, essa preponderância criminosa é vista pela população como algo legítimo. Ungir bandidos como heróis é o cúmulo da desesperança para os desassistidos. Abandonado à própria sorte, o cidadão passa a enxergar no criminoso ?amigo? a única chance de ordenamento em sua comunidade. Locais onde o Estado não se faz presente, onde polícia, Justiça, saúde, educação, urbanidade são palavras ininteligíveis e/ou entes desconhecidos, são áreas de expansão e consolidação do poder do crime organizado. Até bem pouco tempo atrás essa era uma característica das regiões faveladas nos principais centros urbanos brasileiros, deformação quase exclusiva dos mais inexpugnáveis dentre os morros cariocas e dos soturnos favelões paulistanos. Hoje praticamente todas as principais cidades de todos Estados brasileiros têm as mesmas características nefandas do poder desmesurado das gangues de traficantes. A frase que abre este comentário foi recolhida pela reportagem da Gazeta de Alagoas quando das entrevistas feitas com moradores da região do Benedito Bentes. O dito se refere a uma cobrança e/ou esperança de que alguma das gangues de traficantes que dominam aquelas áreas esquecidas pelos poderes públicos venha a fazer justiça com as próprias garras, punindo os assassinos de quatro jovens ali trucidados há cerca de uma semana. Estamos diante de uma deformidade social de grande perigo. Marginais da mais alta periculosidade, homicidas e traficantes,estão sendo elegidos como ?protetores do povo? capazes de enfrentar gente ainda mais letal.